[LIVRO] O SENHOR DAS MOSCAS – Por quê?

Ler O Senhor das Moscas foi um erro necessário. 

Digo isso porque, apesar do citado livro fazer parte do cânone literário moderno (jamais codificado em lugar nenhum), existem algumas obviedades no livro que precisam ser tocadas.

Se não por que ninguém fala mal de clássicos, ao menos porque eu preciso me vingar do sentimento de ver uma ideia tão boa ter sido jogada fora por um bom escritor (William Golding) .

Obs: Mentira, as pessoas acham bonito e até “mainstream” falar mal de clássicos quando chegam a tratar de literatura propriamente dita. Mas não é o caso aqui. Estou apontando defeitos reais. Não é como se meu próximo passo fosse começar a xingar algum youtuber famoso para ficar famosa. 

O Senhor das Moscas já se inicia como que do nada: em uma ilha desconhecida, um avião que não deixa pedaços ou mais do que uma “ferida aberta na mata” caiu e apenas as crianças sobreviveram. Ou nem isso, porque na verdade, não importa. Em todo o momento, as partes mais evidentemente importante são ignoradas, porque não existe um valor real em saber quem sobreviveu no acidente. Ou mesmo se o acidente aconteceu.

As primeiras descrições dadas no livro, assim como as primeiras impressões geradas deixam claro o desejo do autor em mostrar uma grande alegoria. Ele não está falando diretamente o que está acontecendo, mas usando figuras para isso. 

Ora, mas isso não é a história da literatura? Não seriam todos os livros assim, no final das contas? 

Sim. Mas O Senhor das Moscas vai mais além, além de tocar em tópicos talvez mais delicados do que parecem na obra. 

Assim, não interessa que tenha havido de fato um acidente, ou que pessoas tenham se ferido. Não interessa que alguém chegue a saber que eles estão ali. Sequer importa que não haja um estranhamento no fato de os meninos quase todos serem desconhecidos entre si e só passarem a ter real noção das existências um dos outros a partir da ilha. Que estranho, pois estudavam no mesmo colégio. Não deveriam conhecer uns aos outros assim como todos os garotos do coro se conheciam?

O que realmente vem ao caso é que há meninos perdidos na mata. 

Quantos são também é um mistério, mas as idades variam entre 5 e 13 anos. 

O livro apresenta as figuras como alegorias bastante fortes. O menino primeiramente apresentado, mais civilizado é Ralph. Em seguida aparece o menino que, sem nome permanece do início ao fim da trama sendo chamado de Porquinho. Também temos o impetuoso Jack, o estranho Roger, Simon, que figura como louco e Sam/Eric, gêmeos idênticos que poderiam muito bem ser vistos como um dono único de dois corpos. 

Algumas pessoas interpretam O Senhor das Moscas como uma espécie de visão do Apocalipse, ou ainda uma obra que conversa com a ideia do homem transgressor, que é capaz de conspurcar o paraíso a partir de seus atos de barbárie. 

A interpretação é aberta. 

Contudo, parece que o apelo mais forte parece o político. Pelo menos para tudo o que temos vivido agora. 

Olhando de um ponto bem simplista:

A Ilha pode ser toda e qualquer nação onde habitem homens (um povo).

Aliás, uma nação generosa, posto que os meninos não passam fome ou sede.

Apenas padecem dos próprios males e sofrem com as próprias incompetências. 

A concha, venerada desde sempre como instrumento que dá poder aos que desejam falar, se expressar, reclamar ou mesmo fazer reivindicações, nada mais é do que a figura mais óbvia de nossa ideia de democracia (ao menos a nossa vontade ideal de democracia). A concha a todo momento é exaltada como um objeto de coloração branca, perolada transparente, brilhante, como se fosse uma verdadeira joia. A concha, aliás, é carregada como se fosse uma joia. 

Porquinho, ultrajado desde o início por sua aparência física, sua asma e sua miopia, nunca levado a sério, mas dono das únicas ideias que realmente parecem genuinamente funcionais, representa a parte intelectual da população: jamais realmente levada a sério. 

Jack, o caçador impetuoso, chefe do coro dos meninos de barrete negro, é uma representação clara do autoritarismo. Ele toma proveito do medo que os garotos tem e, a partir de demonstrações de força e de brutalidade, forma uma tribo com quase todos os componentes da ilha, partindo da civilidade básica à barbárie total. 

Fez utilizado por fascistas

Nota da autora: Vale dizer que os fascistas usavam “barretes” ou boinas negras, como os meninos do coro, que primeiro são caçadores e, depois, passam a subjugar o resto dos garotos pela força. 

Fascista (se você ainda não percebeu)

Simon, tomado pela loucura, progressivamente, representa o desespero de uma parcela da população que vê a verdade (ou talvez uma das facetas da verdade) e tenta, em vão, fazer um alerta. A melhor mensagem que Simon consegue passar é: se você sabe algo importante, cuidado com quem fala, e sobretudo, como e quando fala. 

Ralph, o menino de cabelos claros, o Chefe escolhido de forma democrática e arrancado do poder por força ( e eu juro que não estou falando de política brasileira), representa claramente os governantes que são colocados no poder pela vontade da maioria. Parecendo pouco competente para o cargo, Ralph é destituído pelo uso progressivo de força. Aos poucos, dentro da ilha, isola-se e perde todo e qualquer poder. Aliás, isso acontece justamente quando tanto a concha (materialização da democracia) e Porquinho (materialização da intelectualidade) saem de cena. 

Mas… e o Senhor das Moscas? 

Dentro de uma perspectiva mais espiritual , ele é CLARAMENTE uma referência ao próprio demônio. E nem é algo sutil, visto que a imagem de sua encarnação física se dá em um porco. 

O porco, se você leitor não sabe, é o animal proibido para os judeus:

Nenhum judeu tem a permissão espiritual para comer um animal de pata fendida, ou seja, nada de suínos. A proibição é séria e, ao contrário de muitas proibições bíblicas que foram sendo ultrapassadas ao longo dos tempos, esta permanece. 

Além disso, há a ideia de oferenda para uma entidade que ninguém sabe de fato o que é. 

No primeiro momento do livro, diz o menino de cara manchada que é um tal bicho-cobra. 

Qual foi mesmo o animal que materializou o demônio nos jardins do Éden?
As referências são claras. 

E, sim, geniais, levando-se em conta de que o livro foi escrito na década de 50. 

Pode não parecer, mas esse fator temporal faz toda diferença quando o assunto é fazer remissões, referências, alegorias, etc. Ser bom com referências na Era da internet, creiam-me, é bem mais fácil. 

Então o que há de errado com o livro?

Nada. Essa não é a pergunta. 

Deveríamos perguntar o que há de errado com a forma como a narrativa foi colocada. 

O livro é genial, uma gota de cultura necessária á formação de qualquer mínimo intelectual. Mas… William Golding poderia MESMO ter sido mesmo Tolkiniano não é?

Ah, mas você vai falar mal de Tolkien? 

Não, meus caros. Eu adoro o Tolkien. Eu sei coisas sobre ele que vocês humanos não acreditariam. 

A questão é que se você já leu O Hobbit e/ou Silmarillion, sabe que passar três páginas lendo sobre os aspectos das pedras que preenchem o vale não é exatamente a experiência literária mais interessante do mundo. 

Eis o problema: Golding enrola demais para falar de coisas simples e simplifica demais o que deveria (talvez) ganhar mais destaque. O próprio Senhor das Moscas é muito pouco mencionado. Mas dá pra saber o aspecto da Ilha de cor. 

Fora isso, o livro é realmente brilhante, inovador, um verdadeiro divisor de águas. 

Mas, reitero: nunca marque uma reunião se você puder resolver o problema por e-mail. 

O Senhor das Moscas teria sido resolvido com maestria em lindas 50 páginas. 

Alfaguara

Tradutor: Sergio Flaksman

Brochura

23 x 15 x 1,4 cm

224 páginas

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Raquel Pinheiro (Raposinha) é míope profissional, CANCERIANA, redatora, revisora, tradutora, escritora, professora de língua inglesa, viciada em café e artista plástica. Além disso, é troll nas horas vagas e é viciada em cheirar livros.

2 thoughts on “[LIVRO] O SENHOR DAS MOSCAS – Por quê?

  1. Semana que vem Raquelzinha acabara com a fraude que é a Revolução dos Bichos.

    Onde fica essa fazenda? Como o governo não interveio? Os animais sempre tiveram esse nível de consciência ou é algo recém adquirido? Se foi o segundo caso, como e pq? Se foi o primeiro, como a história da humanidade não foi impactada por isso?

    Ao convenientemente ignorar questões mister a obra, o autor automaticamente inválida seu propósito narrativo!

    Tantas perguntas que nos ninguém faz pq não tem a coragem Raqueliana de enfrentar clássicos que nada mais são do que espelho e fumaça para livros fracos!

    • Obrigada por todo apreço.
      Mas devo atualizá-lo: eu já fiz duas resenhas de “Animal Farm”, em que eu claramente mostro que eu sou phoda e sou dona da verdade, seu mortal simplório.

      Beijos de luz

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