[LIVRO] O Regresso, de Michael Punke (resenha)

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Hugh Glass é um caçador azarado do século 19 que, após ser atacado mortalmente por um urso, é abandonado e roubado pelos homens incumbidos de velá-lo, o que desperta-lhe um desejo indomável de sobreviver e vingar-se de seus “assassinos.”

No momento em que escrevo essa resenha, a adaptação cinematográfica da obra de Michael Punke já se encontra em cartaz nos cinemas brasileiros há uma semana. Isto posto, creio que muitos que estão lendo este texto já assistiram o filme, pelo qual Leonardo DiCaprio está (mais uma vez) concorrendo ao Oscar de melhor ator, por sua interpretação de Hugh Glass. Como não assisti o filme ainda, não tenho como comparar o livro a ele, mas creio que minhas considerações sobre a obra deixarão claras as qualidades que a tornaram atraente para que fosse adaptada para as telonas.

Pra começar, O Regresso é um faroeste em seu aspecto mais básico. Glass é parte da Companhia de Peles Montanhas Rochosas, um grupo de caçadores liderados pelo capitão Andrew Henry em busca de novas fontes de peles de castores a oeste do rio Missouri. Estamos falando da região dos Estados Unidos que, naquela época, ainda era considerada selvagem.

O início da história é lento, com personagens e ambientes descritos sucintamente, assim como suas ações. É quase como se Punke estivesse “economizando” nas palavras. Mas isto não chega a ser um problema.

Hugh Glass contra o urso que selou seu destino (arte de Severino Baraldi)

Hugh Glass contra o urso que selou seu destino (arte de Severino Baraldi)

Esse estilo mais econômico também é usado durante o fatídico confronto entre Glass e o urso, que dura apenas 2 páginas. Eu não diria que é anti-climático, mas sua descrição não chegou a me impressionar. Mais impressionante e visceral (literalmente) é a riqueza de detalhes que Punke nos apresenta sobre o estado físico de Glass após a luta contra o animal (chegava a doer em mim enquanto eu lia). O mesmo vale para quando descreve os procedimentos de socorro a Glass, que também criam imagens fortes em nossa mente.

Apesar de Glass ser o protagonista do livro, ele fica inconsciente durante o primeiro quarto da obra, sendo carregado pelos caçadores de pele, o que gera um conflito de interesses entre eles e o capitão Henry. Claro que isto também gera um conflito interno em Henry, que Punke também aborda em seu texto, nos ajudando a entender os vários aspectos do problema que Glass representava no estado em que se encontrava.

“Henry deu uma espiada em Glass, deitado na maca à sombra dos pinheiros. […] O capitão mais uma vez experimentou uma mescla de sentimentos opostos: solidariedade e raiva, ressentimento e culpa.”

Essa preocupação de Punke entender os motivos de cada personagem o leva a contar um bocado da história de John Fitzgerald e Jim Bridger, a dupla que abandonou Glass, levando consigo suas armas e equipamentos, essenciais para que ele tivesse mais chances de sobreviver. Este cuidado do autor os tornou mais humanos, embora não menos reprováveis.

Mesmo começando o livro já no instante em que Glass é abandonado por Fitzgerald e Bridger, quando Punke o recapitula mais adiante, o ato em si não deixa de ser angustiante e revoltante. Talvez até mais do que no início, pois na altura em que o reconta já conhecemos o estado físico de Glass em detalhes, e as dificuldades que ele representa. E este é um dos grandes feitos do autor: gerar no leitor uma compaixão muito forte pelo protagonista, ao ponto de dividirmos com ele a raiva e o ódio pela traição sofrida.

Bridger e Fitzgerald abandonando Glass (arte de Severino Baraldi)

Bridger e Fitzgerald abandonando Glass (arte de Severino Baraldi)

“Fitzgerald e Bridger agiram deliberadamente, roubando seus poucos pertences, que agora ele poderia estar usando para se salvar. E, ao roubarem dele sua chance de sobrevivência, eles o haviam matado. Assassinaram-no, tão certo como uma faca enfiada no coração ou uma bala transpassando o cérebro. Assassinaram-no, só que ele não morreria. Ele prometeu a si mesmo que não morreria, pois viveria para matar seus assassinos.”

Como disse acima, o primeiro quarto da obra é contado do ponto de vista dos caçadores que formam a equipe da qual Glass faz parte. É do capítulo 7 pra frente que Punke assume a visão de Glass, e não decepciona em gerar uma experiência literária que nos imerge em suas experiências.

Quando O Regresso passa a acompanhar Glass, ele converte-se num livro engajante. Não tem como não ficar curioso ou mesmo aflito pra saber como ele superará todos os desafios para sobreviver. Quando se descobre abandonado, Glass está aleijado, não consegue mover um braço e uma perna, e tem cortes profundos nas costas, couro cabeludo e coxa. Como se o seu estado físico não fosse desafiador o bastante, ainda está sem qualquer arma que possa usar para caçar, e fornecer ao corpo os nutrientes necessários para curar suas feridas. E Punke foi muito hábil em transmitir as dificuldades que tudo isto representava, sem pressa e pacientemente, para entendermos o quanto Glass lutou para continuar vivo e punir seus “assassinos”.

Hugh Glass (artista desconhecido)

Hugh Glass

Antes de mergulhar de vez na jornada épica de seu protagonista, Punke recapitula a vida pregressa de Glass em flashbacks dinâmicos, que se alternam com trechos do presente, onde se arrasta desnutrido pelas margens do rio Missouri. Assim, temos uma boa noção de quão extraordinária foi sua vida até o ponto onde passamos a acompanhá-la. Estou falando de um cara que enfrentou lobos com uma tocha quando ainda era incapaz de ficar de pé, para roubar deles os restos mortais de um filhote de búfalo. Que precisou ficar atento à ameaça de índios e outros predadores, ao mesmo tempo em que pensou em formas de se alimentar.

Talvez com o intuito de não cansar o leitor em seus esforços para acompanhar o “calvário” de Glass, Punke reservou alguns capítulos do livro para contar o que acontecia com os demais caçadores de peles. Com eles o autor ampliou nossa percepção das condições de sobrevivência na região das fronteiras norte americanas. Eles servem para salientar as dificuldades que Glass precisou contornar, elevando seus esforços a um patamar que beira o lendário.

Em suas descrições dos hábitos e rotinas dos caçadores de peles, Punke torna o livro quase documental. Embora detalhe o processo de construção de uma jangada feita de couro de búfalo; armadilhas para roedores; ou o preparo de carne seca para estocar suprimentos, nenhum dos trechos onde faz isto são cansativos. Funcionam como bem escritos relatos históricos dramatizados de costumes da época, que indicam o quanto o autor pesquisou a fim de tornar a história verossímil, mesmo não abrindo mão de liberdades dramáticas para tornar o desenrolar da trama mais emocionante.

“O capitão Henry falara com frequência da enormidade das Montanhas Rochosas, mas Glass achava que suas histórias continham altas doses de exagero típicas dos relatos nos acampamentos. Na verdade, Glass pensou que aquilo que Henry descrevera estava deploravelmente inadequado. […] Faltara totalmente, em sua descrição, qualquer indício da força divina que inundou Glass à visão dos picos maciços.”

Conforme se aproxima dos capítulos finais, Punke dá também uma atenção maior para a relação de Glass com as paisagens que percorre, as quais passam a despertar-lhe um fascínio quase religioso, que o autor transmite bem em trechos mais contemplativos, os quais combinam com a solitária jornada épica de Glass, desbravando horizontes desconhecidos em sua busca por vingança. Para contrapôr tais trechos, Punke também escreveu passagens mais cômicas, estreladas pela mal fadada Companhia de Peles Montanhas Rochosas.

Aliás, a má sorte não persegue apenas os caçadores de peles, mas também Glass. É como se todos os integrantes da Companhia estivessem amaldiçoados. O Regresso tem momentos quase tragicômicos que me fizeram lembrar de alguns filmes dos Irmãos Coen. Foi inevitável imaginar como seria uma adaptação do livro dirigida por eles.

Mas o vigor da narrativa reside mesmo nos esforços de Glass para sobreviver à sua “peregrinação”. É particularmente marcante a longa sequência em que tenta acender uma fogueira no meio de uma nevasca. A imersão proporcionada pelo texto de Punke é tão plena que o leitor consegue sentir-se lutando contra o frio intenso e o risco de morrer de hipotermia.

“Como a maioria das coisas com as quais ele se deparava todos os dias, Professeur ficou confuso com o ocorrido em seguida. Ele teve uma sensação estranha, olhou para baixo e percebeu uma flecha saindo de sua barriga. Por um momento, ficou pensando se La Vièrge tinha feito algum tipo de brincadeira. Então uma segunda flecha apareceu, seguida pela terceira. Professeur encarou com uma fascinação horrorizada as penas das flechas. De repente, não conseguiu sentir as pernas e percebeu que estava caindo pra trás. Ele ouviu seu corpo tocar o chão gelado de forma brusca. Nos breves momentos antes de morrer, pensou: Por que não está doendo?

Além de todo o cuidado com detalhes históricos, Punke também é muito competente ao narrar sequências de ação, como o eletrizante confronto de Glass e os barqueiros contra os arikaras, que você só consegue parar de ler quando o capítulo termina.

Por tratar-se de uma obra inspirada em fatos reais, achei muito feliz da parte do autor incluir no final algumas observações onde ele aponta quais inclusões ele fez, além de revelar os destinos dos principais personagens após o fim dos eventos narrados no livro.

Embora eu tenha achado o final um tanto insatisfatório, ele não anula toda a qualidade que a obra apresenta em sua totalidade. Sem dúvida é um livro que deixará fortes impressões no leitor. E não é todo autor que consegue escrever um épico com menos de 300 páginas. Eis o grande feito de Michael Punke.


nota-5


o regresso michael punke intrinseca capaIntrínseca

Capa comum

22,8 x 15,8 x 1,8 cm

272 páginas

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