[LIVRO] “O Planeta dos Macacos” de Pierre Boulle (resenha)

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Um dia Pierre Boulle imaginou um mundo dominado por símios inteligentes, com a espécie humana ainda vivendo como animais selvagens e sem consciência. Dessa ideia nasceu um clássico da ficção científica, e deste surgiu uma das franquias de maior sucesso dos cinemas: O Planeta dos Macacos.

Este ano a editora Aleph lançou a mais recente edição da obra de Boulle, com nova tradução, projeto gráfico e alguns extras que contextualizam a obra e sua importância para a cultura pop, entre eles uma entrevista com o então recluso autor. É esta nova edição que analisarei aqui.

O livro já começa de uma maneira curiosa, com o leitor acompanhando um casal de namorados em plenas férias num “veleiro espacial”. Tudo indica que sejam a versão futurista daqueles ricaços que inventam projetos excêntricos para matarem o tempo e gastarem parte de suas fortunas. Mas o foco da trama logo muda para um manuscrito que os dois acham dentro de uma garrafa que vagava pelo espaço, e para a narrativa principal do livro: o relato de Ulysse Mérou e sua chegada ao planeta Soror a bordo de uma “nave cósmica”.

o planeta dos macacos por brian roodChega a ser engraçada a tripulação da nave onde viaja o protagonista: temos o Professor Hector Antelle, um gênio excêntrico da ciência, rico o bastante pra ter financiado a fabricação um cruzador espacial capaz de atingir quase a velocidade da luz; seu discípulo, Arthur Levain, jovem físico; e o narrador, Ulysse Mérou, um jornalista obscuro segundo o próprio. É até ingênua a ideia de uma tripulação tão pequena, e de especializações tão vagas para uma missão de seu porte: chegar ao sistema estelar de Betelgeuse, a 300 anos-luz da Terra. Mas é importante levar em conta que o livro foi lançado em 1963, seis anos antes do primeiro pouso da espécie humana na Lua. Portanto, é recomendável encarar a obra mais como uma “alegoria científica”.

Apesar do ritmo levemente lento no início, adequado ao aspecto exploratório deste trecho, a narrativa não chega a cansar, pois os capítulos são curtos, e a descrição de Boulle é muito objetiva, fazendo pouco uso de metáforas e floreios poéticos, por exemplo.

Além das especialidades dos membros da tripulação da qual o protagonista faz parte, chama atenção o fato dos homens e mulheres que encontra no planeta Soror aparecerem sempre nus, incluindo o próprio Ulysse Mérou, que assim passa boa parte da obra depois de ter as roupas destruídas pelos selvagens, e ser aprisionado pelos macacos. Nem preciso dizer que este foi um detalhe ignorado pelas duas adaptações do livro para o cinema. No romance isto contribui para tornar o relato mais realista, já que os humanos agem como seres irracionais e desprovidos de consciência e, por consequência, de pudor.

o planeta dos macacos por Ryan SimmonsNo trecho referente aos meses que Ulysse passa como cobaia de um laboratório dos macacos, ganha importância o uso que Boulle faz dos experimentos de Ivan Pavlov – famoso fisiólogo e psicólogo, criador da Teoria dos Reflexos Condicionados – quando mostra os macacos de Soror chegando a conclusões parecidas com as de Pavlov ao replicarem seus experimentos a fim de estudarem o comportamento dos seres humanos. Além deste, outros conceitos de nossa ciência são empregados para embasar cientificamente o comportamento dos macacos e dos humanos de Soror, todos justificados pelo fato de o narrador ser um jornalista apaixonado por ciência. Apesar de toda peculiaridade da situação em que se encontra, Ulysse esforça-se para interpretar suas experiências naquele mundo da forma mais racional e científica possível. Podemos interpretar essa racionalidade da escrita de Boulle como resultante da mentalidade cartesiana das ciências do século vinte, que era a base do pensamento de grande parte dos intelectuais daquele período.

o planeta dos macacos por alex rossMais para o final do romance, Boulle ainda cita experimentos relacionados à hipótese da memória da espécie – mais conhecida atualmente como memória genética – que seriam, supostamente, memórias coletivas que todo indivíduo da espécie humana é capaz de evocar sob determinados estímulos no cérebro. Por sua vez, a memória genética pode ser relacionada a outros dois conceitos: o inconsciente coletivo proposto por Carl Gustav Jung; e a hipótese das vidas passadas,  defendida, por exemplo, pelo Espiritismo Kardecista. Embora nenhuma delas seja citada diretamente pelo livro, vale destacar que Allan Kardec, compilador da Doutrina Espírita, era francês, assim como Boulle. Também vale atentar para outro detalhe: no livro os macacos mencionam em vários momentos a presença de “espíritos encarnados“, que para eles são os indivíduos dotados de consciência e intelecto.

Mas falemos dos macacos agora! No livro fica mais clara as diferenças entre as três raças símias que dominam Soror, além de suas funções na sociedade. O mesmo vale para a história de seu mundo, que é contada em maiores detalhes, permitindo ao leitor uma compreensão mais profunda da formação do cenário político do planeta.

o planeta dos macacos por Martin AnsinTalvez um dos pontos que mais se destacam no romance de Boulle diz respeito à forma cuidadosa como ele explorou a natureza símia da espécie dominante de Soror. No livro ela não é descrita como macacos antropomórficos, semelhantes aos vistos no filme de 1968. Boulle os descreveu fazendo gestos característicos da espécie. A sequência em que isto fica mais evidente é a que Ulysse relata sua visita à bolsa de valores dos macacos. Nela, de uma só vez, o autor ilustrou a tese do protagonista – que acredita que os macacos de Soror tornaram-se inteligentes imitando comportamentos de seus ancestrais, que por sua vez imitaram os de uma espécie superior, que dominou seu mundo antes deles. Lendo-a, dá pra entender porque a cena não foi adaptada para a versão de ’68, pois é complexa demais para os recursos da época. Só seria possível reproduzi-la num filme usando os efeitos digitais e a captura de movimentos que temos atualmente, pois no livro ela se passa em um salão amplo lotado de macacos de todas as espécies, vestidos como humanos, mas movendo-se como macacos, usando suas quatro “mãos” para se locomover pelo ambiente, tanto pelo solo como por escadas, trapézios e cordas presas nas paredes e penduradas dos tetos do local. Sem dúvida é um dos pontos altos do livro, e o que melhor retrata um mundo cuja arquitetura foi moldada a partir da espécie que a elaborou.

o planeta dos macacos por Dan DussaultOutra diferença entre o livro e o filme, dessa vez no núcleo humano das obras, é que, apesar de portar-se como um homem orgulhoso e arrogante, Ulysse não é tão explosivo e antipático (opinião minha) quanto o George Taylor de Charlton Heston – que age mais como o estereótipo do herói machista dos filmes da década de ’60. Isto acaba conduzindo a metade final do livro por um caminho bem menos heroico e aventuresco do que o filme de ’68. Enquanto neste houve uma tentativa de vilanizar os macacos, botando o protagonista humano como herói solitário que tenta fugir daquele pesadelo, no livro Ulysse usa mais sua inteligência e eloquência para convencer os macacos de que pode integrar-se à sociedade deles, e ajudá-los a desvendar suas próprias origens. Além disto, ele toma pra si a missão de conscientizar os humanos de suas próprias capacidades. Como uma espécie de “prometeu mortal”, ele tenta acender a centelha da inteligência e do intelecto nas mentes irracionais dos humanos daquele mundo. Isto, por si só, torna o livro uma ficção científica especulativa mais rica que sua adaptação para o cinema.

É particularmente notável o modo como Boulle revela a origem do Planeta dos Macacos: ele usa relatos de memórias de vidas passadas para contar parte da dominação do mundo pelos símios. Estes, por sua vez, evidenciam o quanto esse trecho do livro inspirou Planeta dos Macacos: A Origem e Planeta dos Macacos: O Confronto, mais focados nos primeiros anos da revolução símia. Apesar de um exagero ou outro, no geral é uma ideia muito bem executada.

Também chama atenção o papel imaginado por Boulle para os macacos na sociedade humana pré-revolução símia, que nos permite traçar um paralelo entre eles e as máquinas de ficções científicas sobre apocalipse robótico.

o planeta dos macacos por Logan FaerberJá o final, cujos detalhes prefiro que cada um descubra, talvez seja mais impactante que o do filme de ’68. Enquanto neste o momento revelador é comprimido nos últimos minutos, no livro a revelação da origem daquele mundo é gradual. A grande sacada de Boulle foi alimentar a esperança do protagonista e do leitor até o último instante, quando nos atinge não somente com uma, mas duas reviravoltas seguidas. Portanto, se você ainda não sabe como o livro termina, faça o favor de correr dos SPOILERS sobre ele, pois será recompensado(a) com um dos desfechos mais impactantes da ficção científica literária.

No geral os extras da edição servem para enriquecer a obra, oferecendo interpretações de alguns dos símbolos e conceitos usados pelo autor, além de fazerem um ótimo trabalho de contextualização do livro. A exceção fica para a entrevista cedida por Boulle em 1972, onde o autor se mostrou muito apático e pouco interessante, além de dar respostas vagas e pouco esclarecedoras.

Novamente a capa e projeto gráfico criados por Pedro Inoue merecem elogios. O visual mais rústico das páginas de rosto de cada uma das três partes do livro, seu formato mais compacto, e os cantos arredondados remetem a manuscritos antigos e desgastados pelo tempo, os quais combinam com o formato físico do relato de Ulysse, que é lido pelo casal de amantes que aparece no início e no final da obra.

Em resumo, um livro que todo apreciador da boa ficção científica precisa ler e ter em sua coleção, pois trata-se ainda de um belo artefato:

o planeta dos macacos pierre boulle editora alephO Planeta dos Macacos
Pierre Boulle

Tradutor: Andre Telles
Ano: 2015
Encadernação: brochura
Formato: 14 x 21 cm
Nº de Páginas: 216

Disponível nas seguintes livrarias:

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