[LIVRO] O Pequeno Príncipe – Lendo Memórias

Quando em dezembro de 2014 saiu o primeiro trailer do filme O Pequeno Príncipe, vi-me diante de um grande desafio:

Precisaria, a partir daquele momento estar preparada para falar, escrever, explicar e argumentar a respeito de uma das maiores paixões da minha breve vida de 26 anos de idade.

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Durante o ano, li e reli o livro e, confesso, por problemas muito sérios de ordem pessoal, ainda não pude ver a linda animação da Paris Filmes, que, segundo me disseram, é de amolecer até os corações mais endurecidos.

Ainda…

Mas enquanto não sou capaz de falar deste que parece ser um longa metragem capaz de marcar a vida de quem a ele assiste, penso que nada me impede de continuar meu trabalho iniciado há muito: o ofício de esmiuçar esta obra de arte que encantou milhões de pessoas mundo afora, moldando pensamentos, modificando visões e tocando fundo o coração de tanta gente grande – que, talvez, tenha reaprendido a ser criança de novo.

índicePenso que ao rascunhar as primeiras linhas desta fábula encantada que transformou, de muitas formas, a história da sociedade moderna, Antoine de Saint Exupery foi, no melhor sentido da palavra, um verdadeiro mago. Afinal de contas, a arte de ocultar tantos e tantos significados em uma narrativa única sobre um garotinho que buscava verdadeiros amigos, não pode ser senão outra coisa senão um dom mágico.

Muito falei acerca de alguns dos simbolismos deixados por Exupery em O Pequeno Príncipe… Mas acredite, caro leitor: há muito mais que se falar.

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De todas as coisas que podem ser ditas acerca deste livro fantástico é que, apesar de logo no início Saint- Exupery dedicá-los à crianças, este não é nem de longe um livro infantil.

Por óbvio, se lermos a narrativa a um infante, ele a entenderá de seu jeito. Certamente achará engraçadas as passagens em que o Aviador sem nome fala de sua carreira frustrada de pintor; ficará encantado com a doçura da raposa e talvez até se sinta um pouco intimidado pela soberba da rosa.

Lembro-me que em meu contato primeiro com O Pequeno Príncipe, achei curiosíssimo que pudesse haver em algum lugar do universo um planetinha onde um pobre homem perdesse todo o seu tempo acendendo e apagando um lampião incessantemente. Como ele poderia ter paz.

Fiquei intrigada também, àquela época, com aquela Rosa reclamona, exigente e que tinha medo de vento – lembrava sempre minha mãe, também muito faladora e que também sempre teve a estranha mania de proteger-se do vento.

Por último, o que me impressionou em minha mente de apenas 5 anos de idade fora a Raposinha. Confesso que na época não compreendi muito bem todas as coisas que ela dizia. Parecia-me curioso que logo a Raposa fosse aquela que mais coisas complexas falasse em meio a tantas pessoas: um rei, um matemático, um bêbado, um acendedor de lampiões, um aviador, um cartógrafo…

Logo a Raposa parecia ser a personagem mais inteligente. Por isso minha mente, ainda muito jovem e imatura, demorou a entender porque a raposinha parecia complicar tudo. Mas gostava dela… sempre gostei… A Raposa sempre me fez lembrar meu pai.

Anos depois, relendo o livro – diversas vezes, pois essa leitura nunca se esgota em significado – compreendi que aquela raposa fazia-me sempre pensar em meu pai pelo motivo mais simples do mundo: de todos os amigos que tive, sempre foi ele o melhor de todos. E eu não queria me transformar em outra pessoa – outro tipo de amiga – que não fosse muito parecida com aquela Raposinha de palavras sábias e tão exatas.

Mas o tempo passa e leva com ele coisas demasiadamente importantes.

Nunca esqueci que “O essencial é invisível aos olhos” e que “Só se vê bem com o coração.” Mas cresci tanto, tornei-me tão adulta que acabei destruindo possibilidades.

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Mas para todo mal há cura. Assim como Exupéry voltou a ser criança para que pudesse encontrar o verdadeiro sentido das coisas, abro uma das edições que tenho aqui de meu precioso “O Pequeno Príncipe” e sei que em algum momento, ao ler e compreender o que o aviador de coração leve escreveu, saberei ver o que só o coração poderá enxergar.

E quem sabe, depois de tudo isso, eu possa dizer a alguém que fugiu dessa adulta dura na qual me tornei: “Se tu vens às quatro da tarde, desde as três passo a estar feliz”?