[LIVRO] O Pavilhão Dourado, de Yukio Mishima (resenha).

A bela chama dourada, o frio purificador do aço e o sangue.o-pavilhao-dourado-resenha-feat

Foi há mais ou menos quatro anos que ouvi falar pela primeira vez o nome de Yukio Mishima – sinônimo de Kimitake Hiraoka. Um amigo me contara sobre o autor e me enviara um curto vídeo de Mishima tecendo sua visão a respeito do Japão pós-guerra diante da modernidade. Um rosto tênue e frágil, distante e ao mesmo tempo lúcido. A sua expressão, enquanto tratava da morte e vida, me lembrou de algo como o horizonte entre o céu e o mar pouco antes do sol nascer. Não havia nada mais que sinceridade e beleza conjecturando com o vazio. Quatro anos depois da entrevista, logo ao entregar o último livro da tetralogia O mar de felicidade, Mishima invadiu o quartel general de Tóquio. E depois de um infrutífero discurso sobre o avivamento do Império aos soldados, praticou seppuku (suicídio ritual) como ordena a tradição samurai.

Pouco depois descobri que Francis Ford Coppola e George Lucas foram produtores executivos do filme Mishima: A Life in Four Chapters, dirigido por Paul Schrader (roteiro de Taxi Driver). Foi a primeira vez que O Pavilhão Dourado se revelou para mim. Todavia, os rastros ainda bastante superficiais expressos no filme foram suficientes para me despertar estranho interesse pelo Pavilhão. Desejei por um longo tempo saber o que Mishima tinha a dizer sobre ele. E, enfim, nestas últimas semanas tive a felicidade de ler o livro.

Sim. Existe um Pavilhão Dourado em Quioto. E, assim como na história, algum dia, pelo início da década de cinquenta, um monge pretendeu destruir o antigo monumento. Não entendo exatamente porque aquele monge incendiou o Pavilhão, mas sei que Mizogushi, um gago de fraca compleição, condensava no íntimo primeiramente o desejo de se apossar de sua imagem, e depois foi possuído pelo desejo de obliterá-lo. Achava que desta forma tão somente destruiria a Beleza e alcançaria algo como a liberdade.

Assim como o lago refletia perfeitamente a fênix chinesa no topo Pavilhão diante dos olhos obsessivos de Mizogushi, Mishima nos permite acesso ao relato minucioso e cristalino do jovem aprendiz. O primeiro acesso ao Pavilhão foi através do relato do pai, monge zen budista que sempre afirmava como era o Pavilhão Dourado, a presença maravilhosa e superior dentre todas as outras coisas do mundo. Mizogushi, gago, feio, condenado à própria existência defeituosa e marginal, percebe-se isolado do mundo e distante da vida. É no interior dos salões de um universo particular que concebe em si próprio um segundo reflexo do Pavilhão Dourado.

As memórias de Mizogushi vão adensando conforme acompanhamos seu crescimento, e são visíveis as mudanças de percepção em relação a si mesmo. Já na puberdade, a guerra se torna esperança de destruição definitiva do Templo através de bombardeios americanos. A neve sob o céu perfeitamente azul de inverno, um novo amigo manco chamado Tsurukawa, os seios caídos de uma prostituta, os bambuais envergados à margem dos trilhos, cada detalhe descrito não é disposto ao acaso. E quando se aproxima da obviedade, a mente de Mizogushi se rompe como uma janela quebrada para certezas perturbadoras, como se desencadeasse tempestade sob alguma montanha. Um aprendiz de monge que nos confessa a memória de sua contradição.

Exilado dentro de si, Mizogushi aprofunda-se em emoções frustradas e em auto piedade. Repetidamente afirma sua superioridade sobre o mundo, orgulhoso de nunca por ele ser atingido, orgulhoso de sua autossuficiência, apesar de gago e feio. O Pavilhão Dourado é uma ponte para a percepção crua da inatingível face da Beleza para aqueles que a buscam até as últimas consequências.

Mishima estende as margens da reflexão acerca da distância entre corpo e mente, sobre o casamento da ação e Beleza que, segundo o amigo Tsurukawa, originou algo inútil e fugaz como a arte. Talvez possamos concluir com isso que a única forma de se romper a barreira entre sua existência e a Beleza, pensa Mizogushi, seja destruindo e purificando o Pavilhão Dourado com fogo, ou se praticando seppuku como um velho e feio samurai que nunca viu a guerra da mesma forma que Mishima. A beleza crua e purificadora da chama e do aço.

Uma bela morte.


o-pavilhao-dourado-resenha-06Companhia das Letras

Brochura

21 x 13,4 x 2 cm

288 páginas

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One thought on “[LIVRO] O Pavilhão Dourado, de Yukio Mishima (resenha).

  1. Mishima é meu primeiro amor da literatura japonesa, e este livro em específico é o meu favorito. O mais interessante para mim foi conhecer através de Mishima e desta obra em específico a definição de beleza de acordo com o pensamento oriental, especificamente através do zen-budismo. O autor eleva isso ao máximo com a tetralogia do Mar da Fertilidade. Se você ainda não tiver lido o livro (pseudo)autobiográfico dele, Memórias de uma Máscara, recomendo fortemente.

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