[LIVRO] “O País dos Cegos e Outras Histórias” de H.G. Wells (RESENHA)

Há algumas semanas resenhei aqui o primeiro livro do autor, o clássico “A Máquina do Tempo(clique e leia). Se em sua obra de estreia Wells nos brinda com um misto de genialidade e simplicidade, nesses contos ele vai além, muito além. A genialidade continua, mas as técnicas de escrita estão muito superiores às usadas em sua primeira obra. Uma evolução natural, creio.

Em “A Máquina do Tempo” o narrador era um personagem secundário e insignificante, mas era o responsável por recolher os dados, testemunhar os acontecimentos passivamente e passar a história adiante. Quase um jornalista. O mesmo acontece em alguns dos contos presentes nesse livro. O narrador é geralmente alguém próximo do personagem principal, alguém que ouviu falar de certa história, alguém que escuta e repassa. Os narradores muitas vezes se resguardam ao contar os casos, dizendo coisas como “rezava a história,” e “ele me fez usar essa narração, devo registrar“. Outra técnica interessante utilizada em alguns dos contos é que o próprio narrador incita o leitor a duvidar da veracidade dos fatos. Fica explícito algo como: “estou contando essa história, mas apesar de saber que é verdade, eu mesmo duvido, eu mesmo não creio às vezes. Fica a seu critério.

Essas técnicas permitem que as histórias sejam contadas de maneira imparcial, e isso contribui para o tom de realismo, para tornar os contos mais críveis. Outra notável mudança em relação à “Máquina do Tempo” está nas descrições. Na primeira obra, apesar da descrição ser rica em alguns aspectos, ela é sempre simples. Já nesses contos, as descrições, de um modo geral, estão mais precisas e aguçadas.

Falarei abaixo brevemente sobre cada um dos 18 contos presentes nessa compilação. Fiquem tranquilos, pois evitarei qualquer tipo de spoiler, por mínimo que seja. A ideia é que você, após a leitura dessa resenha, sinta-se obrigado a ler a obra o mais rápido possível. Aqui, diferentemente dos narradores de Wells, não serei imparcial ou deixarei alguma dúvida aberta ao leitor. Wells é definitivamente um gênio da literatura (não só de ficção científica, mas da literatura em geral) e seus contos são a prova indubitável disso. Poucos tiveram tanta imaginação quanto ele.

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O País dos Cegos

Um aventureiro se perde nas montanhas geladas ao redor de Quito (Equador). Sozinho na natureza selvagem, ele chega por acaso a um lugar lendário, conhecido como O País dos Cegos. Lá ninguém tem visão. Por centenas de anos o povo desse pequeno vilarejo aprendeu a viver afastado de toda a civilização, sem enxergar absolutamente nada. Isso provocou uma transformação geral na percepção de todos, e os moradores ressignificaram o mundo ao redor conforme sua realidade. Novas crenças surgiram, os outros sentidos ficaram mais aguçados, e algumas palavras perderam totalmente seu significado. O que significa “ver”, “olhar”, “observar” e qualquer outra palavra ou descrição de algo relacionado ao ato de ver para quem, por gerações e gerações, tem a cegueira como a única realidade existente e possível? Aqui as palavras do filósofo Wittgenstein são postas em prática: “os limites de minha linguagem são os limites do meu mundo“. O conto mostra com primazia o impacto e as dificuldades de relacionamento entre o montanhista perdido e a população local. O montanhista tenta explicar para a população que o mundo não é o que eles pensam que é, e a população considera o montanhista como alguém louco ou doente. O clima se torna tenso, os problemas na comunicação chegam ao limite e, como se isso não bastasse, um grande perigo ameaça toda a vila.

Sobre este conto: mais atual, impossível. Hoje em dia, com acesso a todo tipo de informação, a maioria das pessoas frequenta rizomas virtuais, áreas de conhecimento e ideologia muito específicos. Nichos. Essas pessoas acham que a realidade virtual que consomem é toda a realidade possível. Mais do que nunca, hoje em dia, muitos agem como os cegos do conto: acham que seu conhecimento limitado da realidade é na verdade todo o conhecimento possível, e creem que sua visão estreita do mundo é a única possível. O conto diz muito sobre nossa ignorância e pedantismo. Vale dizer que todo o conhecimento é válido, a prova disso é que os cegos ensinam muito ao viajante, que por saber um pouco a mais do que eles por causa de sua visão, se achava superior. Outro fato interessante sobre este conto é que, logo nas primeiras linhas, podemos notar que ele influenciou “Ensaio Sobre  A Cegueira” de Saramago (Nota do editor: leia uma resenha dele aqui).

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A Estrela

Conto com atmosfera apocalíptica. Algo diferente aparece no céu e, com o tempo, as pessoas descobrem que não se trata apenas de uma bela estrela, mas de um perigo que ameaça toda a vida na terra. O conto mostra como as pessoas reagem a essa possibilidade.

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O Encouraçado Terrestre

Durante a guerra, um correspondente de jornal narra os feitos de uma nova máquina, uma espécie de tanque quase indestrutível que vira o jogo durante uma batalha. O conto contém ricos detalhes descritivos sobre a máquina de guerra e seu funcionamento.

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A História do falecido Sr. Elvesham

Um velho senhor rico procura por um jovem e pobre estudante e propõe algo inusitado: quer fazer do jovem herdeiro de sua fortuna, seu conhecimento e, por que não dizer, sua mente. Literalmente. Sabe aquele surrado dito popular, “quando a esmola é muita o santo desconfia“? Pode ser perfeitamente aplicado aqui.

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A Loja Mágica

Wells tem algum tipo de fixação por lojas que vendem objetos mágicos. Isso se repete em alguns contos. Aqui, pai e filho entram em uma lojinha de objetos mágicos interessantes, que tem nomes como “O Ovo que Desaparece”, “O Bebê que Chora, Muito Humano”, entre outros. Mas o vendedor dessa loja não é uma pessoa qualquer, e ali a mágica realmente acontece. O vendedor tem ar de Willy Wonka e o conto lembra “A Fantástica Fábrica de Chocolates“.

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O Império das Formigas

O capitão de uma embarcação (uma canhoneira, ou seja, um barco pequeno provido de um canhão) é mandado para acabar com algo que ameaça uma região da selva amazônica inteira, e que pode potencialmente ameaçar todo o mundo: formigas inteligentes e assassinas. Parece algo ridículo e descabido, e o próprio Capitão pensa isso. Mas te garanto: ao ler este conto, você vai começar a sentir pequenas coceiras pelo seu corpo, e após terminar, você nunca mais olhará uma simples formiga do mesmo modo.

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O Ovo de Cristal

Mais um conto de uma loja que vende objetos mágicos. No caso, um “ovo” de cristal que guarda em si a visão de outro mundo. Uma espécie de binóculo que nos leva a outra dimensão e nos possibilita a ver seus estranhos habitantes e o que acontece por lá.

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O Novo Acelerador

Um cientista cria uma fórmula que, quando ingerida, é capaz de tornar qualquer pessoa em uma especie de “The Flash“. O conto relata o que ocorre nesse mundo, onde a pessoa que tomou a fórmula fica tão rápida que vê tudo ao seu redor de maneira estática, como se fosse possível caminhar durante um vídeo pausado. Lembra aquela cena de Peixe Grande, no circo? Então, mais ou menos isso. Wells conta cada detalhe, situação e nuance de uma maneira incrível, ou melhor, de uma maneira totalmente crível!

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Pollock e o Homem de Porroh

Um conto de terror sobre uma maldição jogada em um explorador, por um nativo. Dizem que determinadas coisas só acontecem a você se você realmente acreditar. Mas e quando você não acredita, porém, tudo o que acontece à sua volta procura te mostrar exatamente o contrário?

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O Estranho Caso dos Olhos de Davidson

Um experimento científico sai errado, mas algo interessante e inédito ocorre. O cientista não perde a visão, mas o que ele vê é um ambiente totalmente diferente do qual ele está. Na sala de experimentos ele vê uma praia, ondas e um barco. Quando ele caminha pela sala, ele se vê caminhando através da areia da praia onde sua visão está. Um caso de deslocamento espacial da visão.

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O Senhor dos Dínamos

Um homem responsável por cuidar de três dínamos de energia, dois menores e um principal, enorme, contrata um funcionário sem instrução nem intelecto para ajudá-lo. Algo interessante nesse conto é como o funcionário é retratado: como um negro que, justamente por ser negro, é ignorante, “suporta alguns pontapés sem reclamar” e “não fica fuçando nas máquinas para aprender como elas funcionam”. Algo que hoje seria considerado completamente racista e agressivo, mas que na época era o pensamento vigente de muitos cidadãos ingleses, que viam as colônias conquistadas pela Ilha como uma tentativa de levar a “civilização” a pessoas que se assemelhavam a meros animais incultos (na visão dos ingleses, claro). No conto, o homem negro vê as máquinas, não como uma espécie de criação científica, mas como algo divino, para ser adorado. E isso traz graves consequências a todos.

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Os Invasores do Mar

Impossível não associar este conto de 1897 à mitologia lovecraftiana. Seres rastejantes cheios de tentáculos que vêm do mar para destruir os humanos? Fala sério!  Um autêntico conto de terror disfarçado de ficção científica. Obrigatório. Ah, e o nome da cidade onde ocorre os eventos? SidMOUTH. Só um detalhe: quando este conto foi publicado, H.P. Lovecraft tinha apenas 7 anos de idade…

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A História de Plattner

Um de meus contos preferidos. Um cientista. Um pó misterioso. Um experimento que dá errado. Eis os elementos da história de Plattner. O cientista, após uma explosão, some de nosso mundo e vai parar em uma especie de umbral, um mundo em outra dimensão, mas sobreposto ao nosso, cheio de espíritos e sombras. Para quem conhece a doutrina espírita, o conto se parece muito com os relatos sobre o umbral espiritual. Mais um conto onde terror e ficção científica se misturam de uma maneira perfeita.

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A Marca do Polegar

Wells foi um autor completo e este livro de contos é a prova disso. Ele transita com naturalidade entre diversos gêneros, como o terror, a ficção científica, a aventura e, aqui, o conto policial/detetivesco. Antes de Arthur Conan Doyle, e antes mesmo disso se tornar algo que seria usado em todo o mundo, Wells imaginou uma história onde um criminoso é caçado a partir da marca do polegar, ou seja, de sua impressão digital. Visionário.

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Filmer

Em minha opinião o conto mais fraco do livro. É a história de um inventor que tinha o sonho de criar uma máquina capaz de voar. A história mostra a progressão de suas tentativas e toda a pressão para que ele chegasse a seu objetivo. O fim é, de certo modo, inesperado e irônico.

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O Desabrochar da Estranha Orquídea

Mais um conto onde ciência e terror se misturam. Um colecionador de orquídeas compra algumas orquídeas diferentes, que talvez até sejam de alguma espécie nova, inédita. Mas uma dessas plantas guarda algo macabro em si, algo que aparecerá juntamente com seu desabrochar.

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A Ilha de Epiórnis

O Mundo Perdido de Conan Doyle e Jurassic Park têm suas origens, provavelmente, aqui. Um náufrago vai parar em uma ilha deserta, onde sua única companhia são ovos petrificados de uma espécie de ave extinta. Após alguns acontecimentos, apenas um ovo resta. Lembra em Game of Thrones, quando o ovo petrificado, tido como alguma relíquia sem vida, dá origem a dragões? Então… Digamos que essa ideia de ovos petrificados e animais extintos surgiu um pouco antes, uns 100 anos antes – exatamente neste conto.

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A Pérola do Amor

Uma curta parábola com tom de conto zen budista. Um príncipe perde sua amada e resolve construir um verdadeiro Taj Mahal para abrigar seu corpo e mostrar o valor de seu amor. O palácio sofre constantes alterações para que fique cada vez mais imponente. E a história parte daí.

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Falar de H.G. Wells e de sua importância não é preciso. Ao ler esses contos, não teremos contato com nada de novo, com nada inédito. Troca de corpos, plantas e formigas assassinas, animais pré-históricos, maldições, mundos paralelos e tudo o mais são elementos que já foram repetidos ad infinitum em outros livros, filmes, séries, HQs e tudo o mais. Porém, precisamos ter em mente que basicamente tudo isso se originou com H.G. Wells. Ele foi o primeiro a imaginar e escrever essas coisas e, até hoje, quase 70 anos após sua morte, continua sendo um dos melhores. Portanto, termino com uma citação dele, onde fala sobre a arte de escrever contos, arte na qual ele conseguiu atingir algo muito próximo da perfeição.

A minha ideia da arte do conto é que seja a arte de produzir algo que brilhe e emocione; pode ser algo horrível ou patético ou engraçado ou belo ou profundamente revelador, mas que tem apenas um traço essencial, de que possa ser lido em voz alta num espaço de tempo entre 15 e 50 minutos […]. Não importa se seu tema é humano ou não humano, não importa se deixa o leitor mergulhado em pensamentos profundos ou apenas contente e superficialmente satisfeito. Algumas coisas se prestam melhor ao formato do conto do que outras, e o usam com mais frequência; mas um dos prazeres da arte de escrever contos é tentar o impossível.


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Livro: O País dos Cegos e outras histórias

Autor: H.G. Wells

Editora: Objetiva/Alfaguara/Prisa Edições

Seleção dos Contos, tradução e prefácio de Braulio Tavares. Primeira Edição, de 2014.

O livro é composto de prefácio, 18 contos selecionados de HG Wells, Referêcias Bibliográficas e Notas em 342 páginas.

Disponível para compra nas seguintes livrarias:

Amazon | Submarino | Livraria Cultura

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