[LIVRO] O Livro dos Seres Imaginários (e onde você acha que eles habitam?)

Para os fãs de ficções fantásticas, e para aqueles que buscam por literatura em um nível além da imaginação, o escritor argentino Jorge Luis Borges é, pessoalmente, uma das melhores experiências em leitura que eu poderia indicar. Apesar de tanto seus temas, quanto sua abordagem e estilo singulares estarem longe de serem considerados os mais simples e usuais, são sem dúvida histórias que lançam a mente de qualquer leitor através das portas de um intenso labirinto ficcional. Por vezes, o leitor terá a impressão de não ser capaz de dizer se, de fato, está lendo um conto, uma crônica, um ensaio, relatos historiográficos, ou um antigo enigma provindo de mágicos hieróglifos traduzidos pelo autor, cuja resolução é capaz de desvelar os segredos mais obscuros em face à nossa existência. Suas histórias são, portanto, difíceis de serem definidas em algum gênero literário específico.

Acometido por uma cegueira progressiva desde o nascimento, o autor produziu inúmeras obras, que vão de poemas e contos a ensaios críticos, as quais são consideradas (pelo público comum e pelo alto clero da crítica) as mais ilustres, profícuas e criativas de toda a literatura universal. Nas duas últimas décadas, a editora Companhia das Letras publicou alguns de seus livros, que podem ser conferidos aqui.

Uma das características bastante comum notada nas histórias é a escrita fragmentada e, por vezes, aparentemente dispersa. Poderíamos considerá-la até vertiginosa. A exemplo do célebre conto “O Imortal”, encontrado na antologia O Aleph, Borges tende a costurar sua narrativa em uma profusão de elucubrações filosóficas que atravessam o relato de um encontro com o mundo dos imortais. Era, de fato, um autor de conhecimento colossal, possuidor de memória incomum e imensa fortuna criativa.

Além das obras com teor fantástico-metafísico, a relação de Borges com a literatura clássica e a mitologia salta aos olhos. Essa relação é evidente no compêndio que escreveu e organizou com a colaboração de Margarita Guerrero: O Manual de Zoologia Fantástica, e que, posteriormente, veio a se tornar O Livro dos Seres Imaginários, também publicado pela Companhia das Letras. Como ele mesmo define, é uma espécie de manual de entes criados pela imaginação do homem. Um livro “necessariamente incompleto;” diz o autor, “cada nova edição é o núcleo de edições futuras, que podem multiplicar-se ao infinito.” Não é um livro escrito para ser lido de forma linear, já que se trata de um bestiário.

Entre as criaturas descritas, existem desde as mais conhecidas como dragões, centauros, golens, hidras e ninfas, até algumas não tão conhecidas pelos ocidentais, como os fabulosos kujata e a bao a qu. Também há criaturas inusitadas, como as sonhadas por C. S. Lewis, Poe e Kafka. Animais esféricos, animais dos espelhos, e até animais metafísicos são descritos com bom humor. Aos mais curiosos, de alguns deles são explicadas as etimologias e citadas as fontes onde o leitor poderá pesquisar. É um ótimo ponto de partida para jogadores de RPG que desejam incrementar suas campanhas, ou para curiosos que desejam saber mais profundamente sobre as criaturas que povoam o universo mágico de Harry Potter em Animais Fantásticos e Onde Habitam, de J. K. Rowling.

Ademais, não tenho dúvidas de que o leitor ávido por boa literatura fantástica irá apreciar o trabalho de Borges em reunir num volume enxuto os inúmeros seres que habitaram a alma dos homens em tempos e lugares tão distantes. – Talvez ali o leitor possa, quem sabe, de algum modo misterioso, descobrir onde sua própria alma habita.

Obs.: Além da obra, Borges em si é um personagem bastante curioso e controverso. Àqueles que desejam saber um pouco mais sobre seus pontos de vista, deixo para você um artigo bastante detalhado a respeito do autor argentino e o vídeo de uma entrevista:


Companhia das Letras

Tradução: Heloisa Jahn

Brochura

20,8 x 14 x 1,4 cm

224 páginas

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