[LIVRO] O Livro do Cemitério, de Neil Gaiman (resenha).

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O dia em que o menino foi ao cemitério e o que viu por lá.

“Era de conhecimento geral que havia uma bruxa enterrada no final do cemitério. Desde que Nin se entendia por gente, a sra. Owens dizia para ele manter distância daquele canto do mundo.

– Por quê? – perguntou ele.

– Não é salutar para um corpo vivo – disse a sra. Owens. – É fundo naquela lonjura. É praticamente um pântano. Vai tragá-lo até você morrer.”

Quem nunca imaginou como as pessoas que conhecemos se sentiriam se por acaso estivéssemos mortos? Acho que é um pensamento comum, e provavelmente você já teve pelo menos uma vez na vida. E quem nunca tentou imaginar como seria a experiência da morte? O que sentimos depois do findo fato? Aquele frio mordendo o estômago, a consciência indo embora, tudo escurecendo. Será que dói? Você se pergunta. Será igual a dormir? Ao longo da minha vida pensei muito sobre isso. Na verdade, todas as noites, logo que ponho a cabeça no travesseiro, é difícil afastar tal pensamento.

Certo dia, não recordo com quantos anos, por curiosidade me arrisquei a andar pelo cemitério perto da minha casa e ver se encontrava algumas respostas a respeito da morte. Entre as sepulturas, o silêncio é o mais intimidador. Tive a impressão de que alguma coisa ia aparecer a qualquer instante, simplesmente se materializar e me encarar. Mas o mais estranho era olhar para aquelas fotos nos túmulos verticais. Uma data com uma estrela e outra com uma cruz. Depois de ver tudo aquilo, não consegui atravessar o terceiro ou quarto corredor ladeado de criptas e voltei amedrontado…

Você deve estar se perguntando por qual diabo eu comecei uma resenha falando sobre essa experiência estranha. Respondo que foi por ter me lembrado dessa época mórbida há duas semanas, enquanto lia uma obra que já estava namorando há uns anos: O livro do cemitério, de Neil Gaiman, meio que inspirada, como o próprio autor afirma, no livro do nosso grande amigo Rudyard Kipling, autor de O livro da selva (popularizado pelo filme Mogli, o menino lobo no Brasil).

A história de Gaiman trata das aventuras de Ninguém, um menino que, diferente de mim, nunca teve medo de aparições ou criaturas que viviam no cemitério. Quando bebê, sua família fora brutalmente assassinada, e por algo mais agudo que sorte ou destino, conseguira fugir para um antigo cemitério transformado em reserva ambiental. Os Owens, um simpático casal de fantasmas, encontram-no no meio da névoa e decidiram tomá-lo sob sua guarda. A partir daí, acompanhamos o desenvolvimento de Nin Owens através da infância e adolescência. Silas, o misterioso não-vivo-nem-morto (mas não morto-vivo) é seu tutor, responsável pela alimentação, proteção e educação de Nin. Conforme cresce, o menino descobre os segredos do pós-vida fazendo amizades e inimizades que variam de bruxas mortas por afogamento, sabujos de Deus, guardiões de túmulos ancestrais do Egito antigo e arrisca até uma viagem mortal ao mundo dos Gowls, comedores de carne podre.

“Nin disse: quero ver a vida. Quero segurá-la em minhas mãos. Quero deixar uma pegada na areia de uma ilha deserta. Quero jogar futebol com as pessoas. Eu quero – disse ele, e depois parou e pensou. – Eu quero tudo.”

Apesar de o assassino de seus familiares ainda procurá-lo, é inevitável o desejo de conhecer o mundo exterior. Ao contrário de mim, que visitei a morada dos mortos por mera curiosidade, Nin insistiu em se matricular em uma escola para saciar sua sede por conhecimento, o que lhe deu chance de conhecer pessoas vivas, invejosas, covardes e corruptas em seu habitat natural.

Pessoalmente considerei a obra ousada e adorável, e invejo a capacidade de Gaiman tratar um tema pelo qual as pessoas sentem aversão de modo tão agradável e, sim, usando de tão estranho afeto. As ilustrações de Dave McKean (por quem também sinto inveja de Gaiman) continuam impecáveis. Um traço delicado que expressa a atmosfera própria, sóbria e fabulosa da história (um dia terei um artista gráfico assim).

Ademais, enquanto não nos encontramos com a Dama de Cinza em nossa última dança, digo que sejamos mais como Nin e menos como o pequeno Jonatas naquele dia no cemitério. Que, ansiosos, nos arrisquemos de ouvidos atentos ao que a boa e velha vida tem a nos ensinar. Não se preocupe. Teremos toda a eternidade para saber o que vem depois dela. Enquanto isso, te desejo uma boa leitura. E te encontro por lá.

P. S.: Como o Rodrigo pediu algumas opiniões sobre o material usado, arte, etc. digo que não gostei muito da arte de capa desta edição. Achei a imagem desajustada ao conjunto, talvez por ter sido mal impressa se comparada com as ilustrações interiores. Também achei inferior à qualidade de diagramação com espaçamento respeitável entre as linhas, o que cansa menos os olhos. A diagramação considero um ponto bastante positivo.


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Brochura

20,6 x 13,6 x 1,8 cm

336 páginas

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