[LIVRO] O homem que caiu na Terra, de Walter Tevis (resenha).

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Thomas Jerome Newton veio á Terra com uma missão. Mas, para cumpri-la, ele terá que reunir os recursos necessários e envolver-se com os nativos, cujo mundo representa a esperança de sobrevivência do que restou de sua civilização.

O homem que caiu na Terra já começa de forma misteriosa, descrevendo as ações de Newton de seu ponto de vista, mas não em primeira pessoa. É como se Walter Tevis admitisse que pode penetrar até certo ponto na psique de um extraterrestre, por mais parecida que sua biologia seja com a humana. Aliás, outro acerto do autor é descrever as peculiaridades anatômicas de Thomas Jerome Newton, salientando sua natureza alienígena. E caracterizá-lo como um estrangeiro também foi uma decisão acertada e inteligente. Tudo isto faz do começo intrigante na medida certa, sem encher a cabeça do leitor com muitos mistérios, mas apostando no despertar de nossa curiosidade sobre o restante da história a partir do personagem e cenário estabelecidos.

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Tevis é o tipo de autor que em poucos parágrafos consegue apresentar um personagem com precisão o bastante para imaginá-lo em detalhes. No caso de Newton, ele lembra uma mistura do Surfista Prateado de Stan Lee, do Starman de Jeff Bridges, e uma versão mais séria do Sheldon Cooper de Big Bang Theory. Ou seja, Newton é um misto de divindade, fragilidade e estranheza.

Também é elogiável a forma como Tevis explica, sem entrar em muitos detalhes, como Newton acumulou uma fortuna registrando patentes de tecnologias de anthea em nosso mundo, e abrindo uma empresa que passa a ocupar um lugar de destaque no mundo inteiro. Dessa forma, Newton assume uma posição comparável à de Steve Jobs. Vale lembrar que a trama é ambientada em meados dos anos 80, e boa parte das tecnologias introduzidas na Terra por Newton são mais avançadas que aquelas existentes há três décadas. Aliás, vale atentar para o nome dele, que faz referência a Thomas Jefferson e Isaac Newton (confesso que não sei de onde veio o Jerome).

Como outra nota de curiosidade, vale lembrar que Thomas Jerome Newton também é o nome do líder dos transmorfos que tanto trabalho deram a Olivia Dunham, Walter e Peter Bishop na 2ª temporada da saudosa série Fringe. Uma clara homenagem ao personagem criado por Walter Tevis, e interpretado no cinema por David Bowie (já falarei dele).

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Aos poucos o autor também vai revelando detalhes sobre a história dos antheanos, como, por exemplo, que eles já visitaram a Terra no passado milenar da humanidade. Ele até brinca sutilmente com a possibilidade de Jesus Cristo ser do mesmo planeta de onde Newton veio, mas não vai além disto (talvez para evitar problemas com religiosos). Também dá muita ênfase no fato de Anthea, o planeta natal de Newton, viver num eterno pós-apocalipse desértico e estéril que, se comparado à Terra, é um inferno diante do cenário idílico que nosso planeta é aos olhos do antheano.

Mas não é só de Newton que o livro trata. Há um interessante contraponto a ele que é representado por Nathan Bryce, professor de química desiludido que fica subitamente interessado em desvendar os segredos da nova técnica de fotografia e filmagem desenvolvida por Newton, uma das fontes de sua fortuna. Assim o leitor ganha um ponto de vista terrestre para acompanhar parte da intrigante trama:

O olhar de Bryce encontrou essa confusão sombria: as folhas de trabalhos espalhadas como uma cidade de castelos de cartas bombardeada, as soluções infindáveis e assustadoramente organizadas dos estudantes para equações de oxirredução e para os preparos industriais de ácidos desagradáveis, e o artigo igualmente tedioso sobre resinas de poliéster. Olhou para aquelas coisas por trinta segundos, com as mãos enfiadas nos bolsos de seu casaco, em tristeza sombria.

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Bryce me remeteu ao Walter White de Breaking Bad, especialmente por sua obsessão em descobrir o segredo da técnica de revelação de filmes fotográficos patenteada por Newton. Ele tem o mesmo ar arrogante e prepotente de quem se sente superior aos de seu círculo social. Desde sua introdução, Newton promete um confronto interessante com Newton, em sua ânsia de desvendá-lo a partir de sua tecnologia alienígena.

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Mas, voltando ao nosso protagonista alienígena, posso dizer que Newton tem pelo menos duas coisas em comum comigo. A primeira delas é que ele detesta calor. Temperaturas acima de 30 graus exaurem suas forças. Tanto que uma das patentes com as quais enriquece é a de um novo ar condicionado. Ele também é muito afetado pela gravidade da Terra, que é maior que a de seu planeta (por isto é muito alto), o que também é um ponto em comum (tenho 1,89 m de altura). Em suma, ele sabe reconhecer que nem tudo na Terra é agradável.

Essa fraqueza de Newton é o que causa um dos pontos de virada do livro, quando ele conhece Betty Jo, que passa a agir primeiro como enfermeira particular, e depois como sua empregada doméstica. A relação de Newton e Betty, especialmente seu início, me fez lembrar daquela retratada no livro Misery de Stephen King (que resenhei aqui). De certa forma, Newton não deixa de ser um refém de Betty pelo tempo que ela o hospeda em seu apartamento.

Betty é o tipo de personagem que desperta piedade por sua tolice quase infantil. Sendo ela outro contraponto humano ao comportamento afetado e alienígena de Newton. Uma mulher relativamente comum se relacionando com um extraterrestre, sem ter consciência disto, é uma situação bem interessante de se acompanhar.

Claro que com todo o “transplante tecnológico” que realiza, a fim de estimular o progresso científico da humanidade, Newton chama a atenção de muitos, ao ponto das suspeitas sobre sua verdadeira origem aumentarem, pondo em risco sua missão. Isto o leva a viver em reclusão, o que me fez lembrar do Ozymandias de Watchmen, em sua mansão/fortaleza no Ártico conspirando a salvação da humanidade.

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Outra possível influência em obras posteriores são as várias menções que o livro faz ao risco que a humanidade corria de extinguir-se durante a Guerra Fria. Uma preocupação que também acomete Newton, não muito diferente da que atormentou Klaatu no clássico O dia em que a Terra parou, que muito possivelmente inspirou Tevis a definir alguns aspectos da trama.

Também há pontos da narrativa que remetem a Planeta dos Macacos. Por exemplo, nos momentos em que Newton toma consciência de estar cercado de seres que julga inferiores a ele, despertando-lhe repulsa. Este é um dos motivos que o fazem optar por uma vida reclusa, como a de Howard Hughes em seus últimos anos de vida (retratada no filme O Aviador, de 2004). Tudo isto torna Newton um personagem peculiar, que causa incômodo e fascínio. Parte disto é devido à habilidade de Tevis transmitir o exotismo de Newton, e o leve desconforto que sua presença desperta nas pessoas que interagem com ele durante a história. Algo que o autor faz, na maior parte da obra, de forma sutil, levando a uma desconfiança latente que a maioria dos personagens tem a respeito do extraterrestre.

Outro aspecto da narrativa de Tevis que merece menção é sua descrição das sequências mais contemplativas do livro, como aquelas em que acompanhamos Bryce explorando as cercanias da mansão de Newton. Estas me fizeram lembrar de cenas parecidas presentes no clássico Solaris, de Andrei Tarkovsky (mais sobre ele aqui):

Quando o sol alcançou o ponto mais alto a que chegaria naquela época do ano, ele andava pelas margens inabitadas da parte mais longínqua do lago. O mato e as ervas daninhas eram mais espessos; havia arbustos, solidagos e alguns troncos podres. Teve um pensamento repentino sobre cobras, das quais ele não gostava, mas logo o esqueceu. Viu um lagarto imóvel sobre uma pedra, seus olhos parecendo vidro. Começou a sentir fome e imaginou preguiçosamente o que faria para saná-la. Cansado, sentou em um tronco na margem do lago, abriu os botões da camisa, secou a nuca com seu lenço e observou a água. Sentiu-se como Henry Thoreau por um momento e sorriu para si mesmo com aquele pensamento. A maioria dos homens vivem em um desespero silencioso.

Página 101

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Embora seja classificado como ficção científica, O homem que caiu na Terra é também uma alegoria sobre homens com grandes ideias que sucumbem diante do contato com o que há de pior na humanidade, ao ponto de se perderem em suas missões de elevar a espécie humana a um novo patamar de consciência. Passando longe de soar panfletário, Tevis conseguiu fazer uma obra que estimula reflexões, sem entregar respostas. Creio que isto faz dela um clássico atemporal.

Como dito mais acima, David Bowie interpretou Newton na adaptação cinematográfica dirigida por Nicolas Roeg e lançada em 1976. Até a presente data não a assisti, pois preferi ler o livro antes. Mas acredito que já posso dizer com segurança que o papel caiu como uma luva nas mãos de Bowie. Lendo a descrição física e os trejeitos de Newton, consegui imaginá-lo facilmente como Bowie. A única diferença marcante entre a versão do livro e a dos cinemas é a cor dos cabelos. E, sinceramente, este é um detalhe que pouco importa. Não foi à toa que a DarkSide Books não hesitou em usar uma foto de Bowie na capa do livro, ao invés de alguma arte conceitual. Ele fez por merecer essa honra.

Aliás, a edição da DarkSide está à altura do legado de Bowie no cinema, do culto em torno do filme, e da importância do livro na cultura e no gênero que representa.

O que recomendo fazer? Leia o livro e assista o filme, que é bastante cultuado e, pelo pouco que vi dele, parece bastante fiel à obra de Tevis. Creio que não se arrependerá.

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Capa dura

21,4 x 14,4 x 2 cm

224 páginas

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