[LIVRO] “O Gigante Enterrado” de Kazuo Ishiguro (resenha)

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Axl e Beatrice decidem rever seu filho depois de anos afastados dele. Para isto terão que aventurar-se na Grande Planície, onde há o risco de enfrentarem feras selvagens, homens hostis, e até mesmo um dragão, além da possibilidade de descobrirem a origem da misteriosa “névoa” que encobre suas memórias.

O parágrafo acima é um injusto resumo de O Gigante Enterrado, a fantasia medieval filosófica concebida por Kazuo Ishiguro, publicada este ano pela Companhia das Letras. Pra começar, nem dá pra classificar a obra num só gênero.

Talvez seja mais apropriado interpretar a obra de Ishiguro como uma série de “parábolas” interligadas que formam uma fantasia ao mesmo tempo épica e intimista sobre o amor, a velhice e o esquecimento que muitas vezes acompanha o avanço da idade.

o gigante enterrado resenha 01Por exemplo, Axl e Beatrice, já são idosos quando começam a história e decidem se arriscar para além de sua aldeia – sugestivamente localizada dentro de cavernas que remetem ao famoso mito de Platão. A premissa em si já apresenta uma “inversão temática”, ao definir que a missão deles é reencontrar o filho, sendo quase o exato oposto da parábola bíblica do Filho Pródigo.

Enquanto o carinho e devoção com que Axl trata a esposa o torna um personagem amável; Beatrice se destaca por ser mais pragmática e objetiva em suas palavras e atitudes, algumas vezes agindo até de forma abrutalhada. Mas isto não a impede de expressar preocupação e amor pelo marido quando sente-se num ambiente seguro o bastante para abaixar suas defesas e expôr seus sentimentos. Aliás, as mulheres, de um modo geral, ocupam um papel mais ativo, expansivo e exploratório na aldeia de onde o casal parte no início do livro. É Beatrice quem toma iniciativas e assume a dianteira em negociações, por exemplo.

Outra peculiaridade de Beatrice que chama atenção no início da obra é sua insistência em sempre dizer o nome do marido quando se dirige a ele. Com este recurso simples, Ishiguro foi capaz de sugerir ao leitor que tal mania tornou-se um reflexo da personagem, uma espécie de “medida de segurança” que ela desenvolveu com o passar dos anos para evitar que se esquecesse dele, apesar da constante influência da “névoa” que oculta memórias. São pequenos detalhes como este que comprovam o talento do autor na exploração do mundo e dos conceitos que concebeu.

É interessante também notar como Ishiguro confronta a leveza do relacionamento de Axl e Beatrice com os modos rústicos e a higiene precária da Idade Média. Em sua escrita dá pra sentir o ambiente opressivo e infecto das ruas e vielas sujas de uma vila saxã onde o casal se hospeda, ao mesmo tempo que nos enternecemos com o amor de Axl e Beatrice descrito como gestos simples, discretos e suaves que fazem para renovar seus sentimentos um pelo outro. Isto gera um equilíbrio entre a suavidade do casal e a brutalidade da época em que vivem.

Outro detalhe que Ishiguro soube trabalhar bem foi o papel de Axl e Beatrice como espectadores de eventos maiores, cuja totalidade eles desconhecem. Um exemplo é a caçada a ogros que aterrorizam as cercanias da vila saxã, cujos relatos chegam até eles tangencialmente. Isto pode até gerar alguma frustração, mas ajuda o leitor a identificar-se com o casal, pois eles não são heróis que seguem um modelo clássico do gênero. Ishiguro os retratou como pessoas comuns vivendo numa realidade onde o fantástico tornou-se mundano.

Aliás, ainda falando sobre o episódio da caça aos ogros, seu desfecho, que também é contado de forma tangencial e misteriosa, transmite bem ao leitor a inquietação constante vivida pelos habitantes do mundo imaginado pelo autor. Assim como em nosso mundo, nele não encontramos respostas definitivas. Por isto temos acesso a fragmentos de narrativas filtradas pela incompreensão de um idioma, que torna alguns eventos quase “alienígenas” e incompreensíveis, por se perderem na tradução do que é oralmente narrado numa língua que Axl não entende. Isto também contribui para imergirmos na experiência dele, que serve como nossos olhos durante a parte 1 do livro.

Assim como em O Senhor dos Anéis, aqui também ocorre a formação de um grupo incumbido de cumprir uma demanda, que neste caso é levar para um local seguro um menino “amaldiçoado” após ser supostamente mordido por um “demônio,” e tornar-se alvo do preconceito de um povo supersticioso. Isto leva Axl e Beatrice a se unirem ao guerreiro Wistan para levarem o menino Edwin para outra vila que o acolha. É a partir deste ponto que uma aventura ainda maior começa.

Ishiguro sabe quando deixar o leitor e os personagens respirarem e refletirem, e quando investir na tensão a fim de gerar suspense e renovar nossa preocupação com a segurança deles. Claro que contribui o fato de ser um grupo formado por dois idosos, um menino e um guerreiro.

Por trás de todos estes personagens há a ameaça constante e etérea da tal névoa, cuja real natureza é desconhecida. Aos poucos vão surgindo novas pistas sobre ela, que me fizeram lembrar da “brancura” de Ensaio Sobre a Cegueira, embora ela aos poucos se revele como bem mais do que uma doença. Direi apenas que envolve mitos arturianos, um personagem que lembra muito Dom Quixote e um dragão.

E já que comecei a citar referências a outras obras, não pude evitar a comparação entre a Grande Planície pela qual Axl e Beatrice viajam no início da obra e a atmosfera úmida e gotejante dos filmes do diretor russo Andrei Tarkovsky. Há, inclusive, uma sequência inteira, envolvendo uma velha e um barqueiro, na qual os diálogos são sublinhados pela chuva que cai incessante nas ruínas de uma casa abandonada.

Esse encontro do casal com a velha e o barqueiro ainda merece outra menção, por claramente ligar a figura do barqueiro ao Caronte dos mitos gregos, aquele responsável por transportar as almas do mundo dos vivos para o reino dos mortos. Não satisfeito, Ishiguro vai além, usando o personagem para apresentar questões sobre o que define um amor verdadeiro e imortal, além de sugerir uma metáfora poética sobre o pós-vida e as regras que garantem a continuidade dos laços afetivos após a morte. Neste trecho o autor ainda encontra espaço para amarrar o mito grego à Ávalon arturiana.

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Pra não tornar essa resenha uma listagem de referências usadas por Ishiguro, citarei só mais esta: há em O Gigante Acordado pontuais duelos de espadachins, que me remeteram aos embates tensos e de desfecho rápido de Musashi a obra prima de Eiji Yoshikawa (falarei mais sobre ela em breve).

Talvez mais intrigante do que as suspeitas que começam a surgir sobre o passado e a real identidade de Axl, seja a abordagem mais filosófica e contemplativa adotada por Ishiguro para contar sua história. O ritmo é lento na maior parte dela, mas não arrastado. O autor soube usá-lo para atiçar nossa curiosidade pelo desenrolar dos fatos e o desvendar dos mistérios propostos no decorrer da obra.

Recomendo não esperar por revelações explosivas e reviravoltas mirabolantes. Um exemplo disto é que Ishiguro não esperou até o final do livro para revelar a causa da névoa, o que foi uma decisão acertada, pois, com isto fora do caminho, ele conseguiu renovar nosso interesse pela história, direcionando nossa atenção para os esforços dos personagens em lidarem com a revelação, que apesar de bem simples oferece a eles um grande desafio.

Em suma, O Gigante Enterrado é sobre o preço que os indivíduos pagam pelos atos impensados de nações cegas por seus orgulhos feridos e dispostas a sacrificar sua própria memória coletiva a fim de imporem suas crenças e visão de mundo sobre aqueles que não concordam com elas. Neste caso, Ishiguro soube trabalhar muito bem tais questões num cenário fantástico que o permitiu criar alegorias poderosas que reverberam na memória do leitor, mais pela sutileza minimalista com que foram concebidas, do que por quaisquer artifícios narrativos usados meramente para tornar a obra vendável. É essa estranheza criada por Ishiguro que torna O Gigante Enterrado uma obra memorável, rica em significados e aberta a reinterpretações, que certamente surgirão em futuras releituras.


nota-5


o gigante enterrado kazuo ishiguro companhia das letrasTradução de Sonia Moreira

20,8 x 14 x 2,4 cm

280 páginas

Companhia das Letras

Lançado em 11 de junho de 2015

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4 thoughts on “[LIVRO] “O Gigante Enterrado” de Kazuo Ishiguro (resenha)

  1. Terminei de ler esse livro agr e captei td isso q vc escreveu. Mas o final eu fiquei mto confusa! Pq ele foi sozinho ao barco?????

    • Duda, acho que você se confundiu. Quem parte no barco é ela. Ele fica pra trás. Se esta é a sua dúvida, minha interpretação é que ele não se sentiu merecedor de partir com ela, por ser um dos responsáveis pelo estado em que o mundo se encontrava.

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