[LIVRO] O Feiticeiro de Terramar, de Ursula K. Le Guin (resenha)

Quando se é jovem, especialmente adolescente, as emoções borbulham no sangue, e não raras vezes eclodem como erupções verbais, atitudes intempestivas, ou um bocado de espinhas…

Ged nasceu numa ilha pequena de um arquipélago de Terramar, conhecida como berço de feiticeiros. Desde cedo manifestou um dom inato para lidar com magia, assim como arrogância e ambição, que o levaram a logo buscar mais conhecimentos que o ajudassem a desenvolver seus poderes. Seus feitos não demoraram a se sobressair.

Primeiro ele livrou sua terra natal de uma invasão de guerreiros. Isto chamou a atenção de Ogion, um mago ancião, que se ofereceu para ensiná-lo a controlar seus poderes.

Mas ser aprendiz de Ogion, um homem de hábitos simplórios, mesmo que sábios, foi pouco para Ged e sua sede de poder. Logo ele rumou para a Escola de Magos de Roke.

Em alto mar, no navio que o levou de sua terra natal, ao norte, até a ilha ao sul, teve seus poderes testados, quando precisou salvar a embarcação, e seus companheiros de viagem, de um naufrágio.

Talvez o maior desafio de Ged durante os primeiros anos de sua jornada tenha sido ele mesmo. Especialmente seu orgulho e a inveja que sentia daqueles que estavam muito à frente dele, e possuíam mais conhecimento e poder:

Ele estava com 15 anos […] era somente trabalho, vaidade e gênio ruim.

Página 58

Aí reside o risco que Ged representa para aqueles com os quais convive, mesmo os que desejam o seu bem, como seu amigo Vetch.

Vetch estudava na escola havia três anos e, em breve, se tornaria feiticeiro; praticar as artes mágicas menores era tão natural para ele como o voo para um pássaro. Ainda assim, ele tinha uma habilidade maior, que não se ensina: a bondade. Naquela noite e em todas as outras, a partir de então, ele ofereceu a Ged sua amizade, uma amizade tão confortante e aberta que o outro nada pôde fazer senão retribuir.

Página 47

Mas, quem brinca com fogo corre o risco de se queimar. E quem invoca alguma coisa do abismo, corre o risco de ser atacado por ela. É o que Ged logo descobre quando deixa seu desejo de superioridade e seu orgulho falarem mais alto, e brinca com forças além de sua compreensão e de sua capacidade de domá-las.

Somente por um momento o espírito brilhou. Então a luz amarelada entre os braços de Ged ficou mais forte ainda, ampliando-se e espalhando-se, um rasgo nas trevas da terra e da noite, uma abertura no tecido do mundo. Através da brecha ardeu uma claridade terrível. E daquela fenda disforme e luminosa saiu algo como um coágulo de sombra escura, rápido e horrível, que pulou diretamente no rosto de Ged.

Página 65

Esse é o tipo de atitude arrogante e prepotente que diferencia Ged de Harry Potter – que nasceu 30 anos depois da primeira aventura de Ged – e o aproxima mais do alquimista Edward Elrich. Há muito de Terramar em Fullmetal Alchemist, especialmente no que diz respeito à importância dos magos sempre manterem em mente o quanto sua capacidade de invocar energias do mundo impactam no equilíbrio dessas energias, afetando a forma como elas se manifestam em diferentes pontos do planeta.

Ged também tinha aulas com o Mestre das Invocações agora, mas ele era um homem severo, envelhecido e endurecido pela feitiçaria profunda e sombria que ensinava. Ele não lidava com ilusões, apenas com magia verdadeira, a invocação de energias como luz, calor e força que atrai o imã, além daquelas forças que os homens percebem como peso, forma, cor, som: poderes reais, extraídos das energias imensas e insondáveis do Universo, que os feitiços ou usos de homem nenhum podem exaurir ou desequilibrar. O chamado do fazedor de chuva e o do Mestre dos Mares eram habilidades já conhecidas pelos alunos, mas era o Mestre das Invocações quem mostrava aos rapazes por que os verdadeiros magos só usavam feitiços desse tipo quando necessário, pois invocar forças terrenas significa mudar a Terra da qual elas são parte.

– Chuva em Roke pode significar seca em Osskil – falou ele – e a calmaria no domínio do Leste pode significar tempestade e destruição no do Oeste, a menos que você saiba no que se meteu.

Página 58

Embora o erro fatal de Ged seja narrado em poucas páginas, seus efeitos são fatídicos, profundos e duradouros, e ensinam uma dura e amarga lição de humildade ao jovem mago aspirante a feiticeiro. Lições que lhe custam mais do que as cicatrizes que ganha no rosto. O sacrifício que ocorre no momento da invocação lembrou-me novamente do erro que levou Edward a perder o braço e o corpo do irmão em Fullmetal Alchemist.

Além dele próprio, o maior inimigo de Ged é a sombra que ele libertou em Roke. Sua presença o persegue como uma lembrança insaciável do mal pelo qual foi responsável num momento de pura embriaguez ególatra. É com a culpa que sente por ter sido o responsável por libertá-lo que Ged tem que conviver. Isto o torna um herói trágico e complexo, que passa a duvidar de si mesmo e do uso que faz de seus poderes para combater males menores, como a doença que ameaça a vida do filho de um grande amigo, cujo o espírito ele resgata, arriscando o seu na missão. Ged se torna mais altruísta após o traumático primeiro confronto com a sombra. Tudo para compensar o mal que gerou, e aquele que sacrificou-se para repeli-lo.

E se você sempre quis ver um feiticeiro enfrentando não um, mas vários dragões, quase simultaneamente, O Feiticeiro de Terramar é a obra que você procura. Ged encara esse desafio com destreza e elegância no manejo dos feitiços e na escolha das ações e palavras.

Mas os dragões, ironicamente, são problemas menores enfrentados por Ged, perto do mau agouro que o persegue, na forma da sombra.

O caminho ruim pode levá-lo a um  bom fim.

Página 109
(sobre os percalços pelos quais Ged passou até chegar à corte de Terranon, após seu segundo confronto com a sombra)

[…]

É muito difícil para o mal se apropriar da alma que não o consente.

Página 116

O grande conflito que move a maior parte do livro é uma das melhores sacadas de Ursula. Ele começa a ser construído lá no início, quando Ged ainda é um adolescente orgulhoso, com desejo de tornar-se um mago poderoso, que usa sua magia sem escrúpulos, e entra em contato com forças desconhecidas que ameaçam se apossar dele. Desde então, até o ponto em que liberta a sombra, vemos um protagonista cujas ações são a principal ameaça às suas ambições, o que se revela verdadeiro. A transformação de sua personalidade após a tragédia que marca sua vida dali pra frente foi o trunfo que a autora usou para conquistar nossa simpatia por Ged.

A partir do capítulo 4 fica mais claro que estamos acompanhando um herói falível e atormentado por seus erros e pelas consequências deles. Isto nos deixa mais interessados em saber o desenrolar do conflito de Ged com a sombra, que toma proporções épicas. De perseguido pela criatura, ele vira seu perseguidor e, no processo, passa a conhecê-la mais – e a si mesmo – enquanto percorre o mundo, primeiro fugindo dela, e depois perseguindo-a. Aqui, sutilmente, Ursula iguala a jornada de Ged através de Terramar à sua busca pessoal pelo acerto de contas com o mal de que é culpado, e também à sua jornada interior de autoconhecimento.

É uma autêntica epopeia que leva o herói até os limites do mundo e de sua sanidade, culminando no momento catártico e epifânico no qual Ged finalmente desvenda a natureza da sombra, e descobrimos, com ele, a finalidade do conflito, e o significado do que se passou antes e após a invocação da criatura.

Pelo caminho, Ged confronta-se com poderes antigos de Terramar; conhece lugares onde nunca esteve; reencontra seu primeiro mestre; faz um novo amigo; e volta a encontrar-se com uma grande amizade antes de seu confronto final com a sombra.

Ursula escreveu uma bela história sobre amizade, humildade e responsabilidade. Seu maior mérito foi criar um personagem que, em pouco menos de 200 páginas, evolui e amadurece de maneira crível e humana num universo fantástico que, graças à construção de seu protagonista, tornou-se tão verossímil quanto ele, e tão vasto quanto as profundezas do espírito humano. Ged é um personagem complexo que temos tanta vontade de conhecer quanto as partes inexploradas do mapa de Terramar no início do livro. Este é outro mérito de Ursula: nos deixar sedentos por mais histórias sobre Ged e seu mundo habitado por feiticeiros, dragões, temíveis poderes ancestrais, e forças vindas de outras dimensões, entre elas a mente humana e suas criaturas de luz e trevas.

Nota: 5 de 5


Nota do editor: a editora Arqueiro já publicou As Tumbas de Atuan, livro 2 do Ciclo Terramar, que resenharei em breve aqui. Enquanto a resenha não chega, vale a pena ler a crítica que a Sofia fez de Contos de Terramar, anime do estúdio Ghibli inspirado na série de Ursula K. Le Guin.


Editora Arqueiro

Tradução: Ana Resende

Brochura

23 x 16 x 1,5 cm

176 páginas

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