[LIVRO] O Escafandro e A Borboleta

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O Escafandro Inteiro

o-escafandro-e-a-borboleta-4Jean Dominique Bauby era um homem jovem, editor da revista Elle, bon vivant de primeira, casado e pai de dois filhos pequenos quando sua vida se transformou em uma tragédia. Vítima de um acidente vascular cerebral sério, Jean se vê preso a uma cama e inerte, incapaz de se comunicar ou mesmo de realizar ações básicas como respirar ou se alimentar sozinho. De acordo com os médicos, Bauby fora vítima da raríssima síndrome de “locked in” ou, síndrome do encarceramento, responsável pela imobilidade do corpo mas não da mente. Aos 43 anos de idade, no auge de sua força intelectual, Jean Do ficou encarcerado em sua cama de hospital, onde nada podia fazer além de pensar. Ao contrário de seu corpo, os pensamentos do jornalista continuavam ativos. Desse modo, para fugir do ambiente soturno do hospital, Jean ocupava-se de seus devaneios recriando vivas memórias, retratos de um futuro inatingível e panoramas belíssimos de suas vontades mais humanas. Graças a seus devaneios férteis – borboletas – aprisionados na tão imóvel estrutura de seu corpo débil – o escafandro – Jean Do, tendo assistência e contando apenas com os movimentos de seu olho esquerdo, escreve sua biografia de aprisionado, narrando memórias, descrevendo ideias, defendendo futuros inatingíveis.

“Eu não o via desse jeito” – A Questão da Identidade

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“Eu não o via desse jeito”, diz Claude, amiga de Bauby há mais de 25 anos, ao se referir ao estado limitado do amigo, que jaz numa cadeira de rodas a caminho da praia. Jean escuta… Decepciona-se consigo mesmo. Tem vontade de ter uma foto sua, de quando gozava de invejável saúde. Quando era um homem “de verdade”. Os pensamentos de Jean Do nos faz imaginar o quanto uma identidade pode ficar abalada com a modificação ou a anulação das faculdades mais básicas e, consequentemente, com a transformação da aparência. Muito de nosso herói se perde quando ele perde o movimento e não raro, Bauby chama a si mesmo de “esbugalhado”, “pobre diabo” e “inválido” em terceira pessoa, como se falasse a outro alguém. Até que ponto pode uma identidade repleta de amor pela própria imagem se deteriorar quando sujeito a uma vida semi-vegetativa?

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A Não Eutanásia

Ao contrário do que ocorre em tantos e tantos casos parecidos com o de Bauby – em que o doente fica preso a uma cama, sem ter como se mover ou viver normalmente – não se fala em eutanásia. Jean chega a desejar a morte de maneira silenciosa no livro e de maneira expressa no filme, mas não passa disso. A eutanásia não chega a ser uma vontade real, tampouco um assunto relevante. É bonito pensar que Jean Do, de alguma forma, embora tivesse raiva de seu estado, tenha valorizado a própria vida. Seus pensamentos, ele os via como borboletas e seu corpo passara a ser a prisão – o escafandro – de que ele tentava fugir, mas não por meio da morte. Nosso herói conviveu com o escafandro que o privou do voo sem perder a beleza do ruflar de suas asas finas, etéreas.

O Homem Jean Dominique Bauby

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Como fica evidente em muitos pedaços do livro e também do longa metragem, uma das coisas que muito incomoda Bauby é a deterioração de sua imagem frente à doença e, obviamente, sua incapacidade de fazer sexo ou ter qualquer contato físico com mulheres. Diante da completa inutilização de seu corpo pela síndrome de locked in, Jean Dominique tem frequentes devaneios de cunho erótico. Não é de se estranhar, na verdade, que ele pense dessa forma, uma vez que era o físico o seu maior orgulho e sua vaidade. Ao se ver, estando na flor da idade (43 anos), largado numa cama e completamente incapaz de pôr em prática suas vontades, Jean Do passa a alimentar esses pensamentos, mostrando de alguma forma que até mesmo alguns impulsos dependem muito mais da mente do que do corpo.

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O Escafandro e A Borboleta

o-escafandro-e-a-borboleta-5Para ilustrar melhor suas confissões de homem “inválido” cujos pensamentos continuam como atividade única do ser, Jean Do usou a belíssima metáfora do escafandro e da borboleta. Como leves borboletas, seus pensamentos voam longe, alçam rasantes altos, se movimentam com amplitude invejável, viajando mais longas distâncias do que pode o corpo físico: vão ao presente, passado e futuro. No lugar do pesado amontoado de carne, hormônios, sangue e órgãos que se tornara sua camada física, Bauby colocou um escafandro. Talvez de latão… Ou talvez trouxesse o peso do chumbo. Não havia dúvidas contudo de que pesava, e sendo oco, aprisionava um ser alado. Curiosamente, escafandro vem do grego e significa homem-oco. O quão oco se sentia Bauby, se tudo o que havia sobrado estava por dentro?

o-escafandro-e-a-borboleta-8A luta de Dominique contra sua nova e limitada natureza para escrever o livro não foi vã. Os escritos de Bauby tornaram-se livro em 1997 e filme em 2007 (a película foi dirigida por Julian Schnabel). Como não podia falar, escrevia por meio do piscar do olho esquerdo – a única parte de seu corpo que conservara os movimentos. Não a toa, por todo o livro temos grandes exaltações de pequenos prazeres da vida, a nostalgia de alegrias que parecem insignificantes e a elevação de satisfações à categoria de felicidade. Só quem está preso a um escafandro sabe.

O ESCAFANDRO E A BORBOLETA
Jean Dominique Bauby
[Martins Fontes, 142 páginas, 2009]
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