[LIVRO] O Diário de Myriam, de Myriam Rawick, com Philippe Lobjois (Resenha)

“Não acredito que somente os grandes, os políticos e os capitalistas, sejam responsáveis pela guerra. Oh, não! O homem comum é tão culpado quanto eles, senão os povos do mundo já se teriam insurgido, revoltados. 

Simplesmente, existe nas criaturas uma verdadeira sanha de destruir, de matar, assassinar, e até que a humanidade inteira sofra uma grande transformação, explodirão novas guerras e tudo o que foi construído, cultivado e plantado será novamente destruído e desfigurado. Aí, então, a humanidade terá que recomeçar tudo outra vez.”

O Diário De Anne Frank – 03 de maio de 1944

“É possível saber um monte de coisas e não acreditar em nenhuma delas.”

A Guerra Que Me Ensinou  A Viver – Kimberly Brubaker Bradley

“Meu nome é Myriam, tenho treze anos. Cresci em Jabal  Sayid, bairro de Alepo, onde também nasci. Um bairro que não existe mais.”

O Diário De Myriam

O que todos pensam primeiro é que duas meninas diferentes, de épocas, países e guerras diferentes escreveram em seus diários sobre os mesmos sofrimentos. Embora se pareçam em tantas coisas, Myriam com seu diário teve a chance que a jovem Anne não teve; apesar da guerra, viver.

A DarkSide Books, em sua linha Crânio, trouxe ao Brasil os relatos da menina que vem comovendo o mundo. Myriam Rawick, com a ajuda o jornalista francês Philippe Lobjois, coautor do livro, conta através das páginas de seu diário seu dia a dia com sua família desde o começo da Guerra da Síria, até meados de 2017.

A guerra ainda continua, mas assumiu ser muito mais do que seu contexto inicial dizia. 

Não é a primeira vez que sou apresentada aos horrores e sensações das guerras através de olhos inocentes. Em resenhas anteriores, animais me contaram sobre suas vidas e seus donos, uma menininha que crescia e aprendia a lidar com seus traumas falava de seus sentimentos e da guerra que se descortinava. E agora, Myriam.

“Um dos soldados -magérrimo, bem jovem- me ofereceu um pouco de sua ração de leite condensado, e empurrei meu focinho do jeito mais afetado, por não suportar tirar dele sua já parca oportunidade de nutrição.”

Só Os Animais Salvam, Alma de Gata – Ceridwen Dovey

Essa não foi uma leitura fácil. Parei várias vezes para respirar profundamente entre determinados capítulos, tanto que demorei mais que o de costume para ler. Antes da Guerra da Síria a vida de Myriam era como a de qualquer criança de seu país. O conflito veio aos poucos, ganhando forma a cada dia. Os tiros, as bombas, as mortes, o sangue, as famílias desabrigadas, os familiares mortos…

O que mais me impressionou foi a sensibilidade com que Myriam conta sua história, a guerra, vista aos olhos de uma criança, consegue ser ainda mais brutal.

O que para a maior parte do mundo é uma ideia distante ou pior, uma chance de elevar lucro e poder e alcance político, para Myriam é só a sua realidade mas não a sua vida. Durante oito anos e ainda hoje a menina vai a escola todos os dias, brinca com sua irmã, faz aniversário… Tudo é mais difícil e há os bombardeios e as mortes; Mesmo hoje com o conflito, ora avançando ora retrocedendo, mas Myriam, através de seu diário nos mostra porque e por quem é preciso ter esperança de dias melhores. Ela não é a Anne Frank do nosso tempo, é a Myriam. E a Myriam e o povo sírio não precisam ter o mesmo destino das guerras anteriores.

Me pergunto quantos diários ainda terão de ser escritos.

 


DarkSide Books

Tradução:  Maria Clara Carneiro

Brochura

20,8 x 14 x 2,2 cm

320 páginas

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