[LIVRO] O Amor dos Homens Avulsos – Essa poeira bege que traz lembranças…

Comecei a ler O Amor dos Homens Avulsos no momento certo.

Não tanto pelos acontecimentos relatados no livro pequeno, mais denso do que o murro que o moleque brigão dá na cara de um colega mais fraco; Mas senti que foi o momento certo pela poeira quente, com gosto de suor, que invade todas as folhas desse romance contado preguiçosamente. 

Victor Heringer, mais velho que eu um ano. Contudo, genial.

Não é uma autobiografia, embora tenha todas as vestes de uma história real.

Engraçado como temos quase certeza que a história é real, traço a traço, letra por letra, não pelas memórias relatadas, mas pelos esquecimentos apontados. “Não lembro o que ficou decidido” – e lá está você a pensar: “Isso aconteceu. Sei que aconteceu!”.

Os anos são confusos, mas sei que estamos em algum lugar da década de 70, no subúrbio do Rio de Janeiro. O calor, já naquela época, não dava trégua a ninguém, e Camilo, nosso protagonista, faz questão de reiterar esse desconforto.

Um calor grudento, sufocante, feito e existente apenas no subúrbio carioca, que, como relata o autor, foi criado antes de todo o resto do mundo.

Talvez tenha vindo de um monte de lama e muita, muita poeira. Não sei. Ele usa tantos elementos que a gente vai lendo e, lendo, tropeça nas letras. Se perde de um jeito muito conveniente; esse jeito gostoso que todo leitor arranja de se perder dentro de um bom livro.
Mas eu falava do calor. A porra do calor que suga as forças e banha a gente de suor.

E o calor não é coisa que se dispense nessa resenha, feita a meu modo e sem seguir padrão nenhum.

O livro começa com um informe meteorológico, que parece muito mais colocado no início da história, com o fim de fazer parecer que tudo será sensorial.

Puta mentira safada! Não PARECE sensorial porque É SENSORIAL DE FATO. Pelas palavras de Camilo e suas descrições de menino pré-púbere, nos sentimos em algum lugar do tempo-espaço desse universo amarelado como uma foto antiga chamado Queím. Em algum momento, enquanto o tempo se arrasta ou rola no chão de terra batida, sentimo-nos rolar juntos.

Outra Puta mentira! Sentimos o tempo todo; mas isso não é incômodo. É parte do livro, e até te dá uma sensação interessante de estar voltando a alguns momentos da infância (que todo mundo ou quase todo mundo teve), em que tudo era medido pelas nossas próprias ideias e princípios, sem precisar das leis de fora. Todos foram selvagens dentro de um mundo civilizado. Se não adultos, certamente quando no estágio que precede a caçada louca da adolescência por liberdade, e pela satisfação dos desejos mais estranhos. Estamos mudando.

Mas falava de Camilo, o garoto bonito demais, branco demais, com dinheiro demais (filho de médico! raridade!) para viver no Queím. Camilo, como eu, odeia o sol, mas é vitimado por ele por toda a vida, porque, afinal de contas, é no Rio de Janeiro que ele vive, e aqui no Rio, quando não faz sol, a gente sai de casa com medo de que seja algum tipo de anúncio do fim do mundo. 
Camilo morava numa casa confortável, com piscina para matar um pouco o calor que nos mata.

Casa grande. Curiosa casa grande que ficava perto de uma senzala abandonada.

Tinha de tudo o garoto, ou pelo menos tinha bem mais do que os outros; aqueles que viviam pela vizinhança. Afinal, filho de médico. Já disse que é raridade pelas bandas mais pobres da Zona Norte do Rio.
Mas ninguém nasce branco (coisa essencial lá pelos idos de 1970), “abastado”, com piscina em casa, um casarão enorme, uma irmã mais nova e uma família constituída, sem seus acidentes de percurso. Com a perna esquerda praticamente inútil, o moleque era o “aleijadinho” por onde quer que fosse. Mas daí, por tédio, calor ou pelos dois, isso nem fazia tanta diferença.

Talvez lhe fosse até vantagem; um Camilo já na idade adulta nos relata que são os mancos, tetraplégicos, manetas, pernetas, aleijados e cia ilimitada que melhor entendem do corpo humano, por que o observam com fervor, imaginando e reimaginando seus movimentos.

Sua sorte (ou sua vida normal morna) mudou quando, sem explicação nenhuma – talvez apenas as folhas das plantas esturricadas pelo sol, e pela falta de zelo da mamãe – um moleque robusto, mas de rosto inocente, quase fraco, entrou na vida da família. Trazido pelo pai do protagonista, sem porquês. Apenas “rarrarras” por parte do Pai (médico) e uma revolta silenciosa e amarga da mãe dos meninos.

Quem era o garoto que, desde o princípio, causou em Camilo sentimentos tão intensos de raiva?

Sei lá quem é, nem sabe Joana, nem sabe Paulina.
No tempo em que Camilo e Cosme são moleques, muito do Brasil está calado. Ou melhor, falando de lado, porque não pode ficar calado. Quem está calado está dizendo secretamente que há algo errado. Mas o Brasil não estava errado, né? Era só que tudo estava meio diferente, porque lá na década anterior alguém arranjou de implantar uma tal de ditadura da qual hoje em dia muito se fala, mas não se compreendia direito no período. Mas todos sabiam que o Brasil era o país do futuro.

E Camilo mais ou menos foi saber depois (um pouco na época também) que Cosme, seu Cosmin amado, talvez fosse fruto de uns trabalhos que seu pai prestava para os moços de roupa verde, que colocaram outro governo no país. Diziam os relatos com carimbos oficiais que uma tal fulana foi vítima de um tal médico (com nome modificado, porque talvez tivesse timidez?). Vítima de torturas, vítima de uma substância que privava a mulher de dormir, vítima de estupro (do médico. Agora sabemos o motivo da timidez)… e só Deus sabe do que mais.

E assim nasceu Cosmin, que foi largado à própria sorte, passando de mão em mão até que uma senhorinha o adotasse. Quando entrou na vida da família de Camilo, o aleijadinho metido a ter raiva das coisas, o garoto que estava sempre doentinho, o filho da mãe (filho homem é da mãe), Cosmin causou primeiro a raiva. Uma raiva brutal, sem apoio do ciúme como argumentação. Mas havia ciúme ali. Já não sei de quem para quem, mas havia.

Mas, dizia alguém (teria sido Camões?) que “Vão-se os tempos, vão-se as vontades”. Camilo e Cosmin se tornam amigos, e amigos dessa idade, indo brincar na rua com a molecada, na base do tapa e do “Porra, filha da puta” só podem mesmo descobrir as coisas do jeito mais empírico possível.

E foi na base do “Olha essa porra aí”, ou talvez por meio de um “puta caralha”, que os dois meninos descobriram o onanismo juntos. E juntos começaram a cultivar um pelo outro um sentimento além da amizade. Diz Camilo que amou Cosmin como Paula ama Rafael, como Fernando ama Thiago, como Beatriz é amada por Roberto… Como eu amo. E como você ama também. Com o gosto salgado, o desejo do corpo, com o coração.

E nisso, ficamos a pensar que o livro vai atravessando as ondas de morosidade do narrador, já adulto e desesperançado – cujo único contentamento é a presença maculada de uma carga sexual do menino Renatinho –  e seus devaneios de homem esquecidos, mas que não esquece, que na verdade não lemos nesse livro apenas uma história de descobertas do amor na idade mais tenra. Mas a descoberta do sexo, da homoafetividade, curiosamente mais bem aceita pelos outros meninos daquela mesma idade do que um chute mal dado na bola velha que usavam para jogar pelada, uma relação incestuosa intensa e pura (sim, meus caros, pura. Porque os moleques, até para bater punheta, são puros em determinada idade) interrompida de forma brutal.

E de repente esse livro nos coloca a pensar o que, de verdade, é pureza, o que é certo ou errado, o que é mal ou bom. Sabemos o que é amor e o que é saudades. Sabemos bem o que é calor e como ele não se esquece de nos atormentar todos os dias aqui no Rio de janeiro (lugar único no mundo, mas difícil de aguentar). Sabemos que médicos nem sempre servem para curar os outros, e que mulheres de homens com dinheiro são raramente vistas. Sabemos que os amores que marcam (os verdadeiros) não saem de nós; Se fracassam ou se são interrompidos (bate na madeira, valha-me Deus!), apenas passamos a cultuar cópias inexatas daquele amor antigo.

“Raro” é um dos adjetivos que está escrito na sinopse do livro.

Realmente; o livro é maravilhoso. Requer estômago, tesão, suor e sangue frio. Requer compreensões desamarradas de paradigmas engessados. Requer humanidade. E é um fato… não consegui, embora tenha tentado insistentemente, comparar Victor Heringer e seu livro a outros autores e livros. Não achei nenhum…

Raro mesmo.
Mais raro que médico em subúrbio.

Não há como passar a experiência de um livro com essa intensidade e complexidade, que pode ser devorado em horas, tamanho o gosto que temos ao ler.

Porra, caralha, que livro foda! (perdoem… ainda penso nos moleques xingando)


Companhia das Letras

Brochura

20,8 x 14,2 x 1,4 cm

160 páginas

Disponível nas seguintes livrarias:

Amazon

Saraiva

Submarino