[LIVRO] “Novembro de 63”, de Stephen King (resenha)

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Stephen King é um autor que dispensa apresentações. Alguns de seus livros são clássicos instantâneos e logo ganham outras mídias com adaptações cinematográficas e televisivas. Conhecido como o “Mestre do Terror”, King também passeia por outros gêneros, construindo narrativas excelentes e marcantes. Em “Novembro de 63”, o autor brinca com a possibilidade das viagens no tempo, criando uma interessante ficção científica.

Em “Novembro de 63”, acompanhamos os passos de Jake Epping, um professor de inglês da cidade do Maine, que ao corrigir uma redação entrou em contato com uma história chocante. Porém, essa não é a principal cartada na narrativa de King. Epping descobre que uma lanchonete da cidade possui uma porta para o passado, em outra perspectiva, uma oportunidade para corrigir erros que ficaram para trás.

Stephen King centra seu livro numa questão nada original, mas não que esteja tão batida (por obras de excelência): “o que você faria se voltasse no tempo?” A resposta pode ser inúmeras, mas, geralmente, se tivéssemos a oportunidade de voltar no tempo, gostaríamos de corrigir algum erro, do mais banal àquele que modifica vidas ou até a própria história. Isso é tão natural que apenas o pensamento desta ideia pode desencadear várias possibilidades narrativas. King escolhe contar a história de Jake Epping, mas poderia ser qualquer um de nós, que talvez tomaríamos as mesmas decisões do personagem, visto o que vivenciou.

Jake Epping, ao corrigir a redação de seus alunos de supletivo, entrou em contato com o trágico passado do zelador da escola, Harry Dunning. Em 1958, o pai de Dunning chegou bêbado em casa e matou quase toda a família a marretadas, sobrando apenas o próprio Harry e sua irmã. A história de vida de Harry Dunning tocou Jake de forma muito profunda e perturbadora. Compartilhamos com o protagonista o horror das verdadeiras histórias de terror do mundo real. Nada de monstros, fantasmas ou assassinos seriais imortais, King nos traz o terror real representado pela própria humanidade.

Epping é amigo de Al Templeton, o dono de uma lanchonete local, que vende carne de origem não confiável, fazendo com que o estabelecimento não seja um exemplo do “bem movimentado”. Porém, o fato de Al ter envelhecido tanto em tão poucos dias chamou a atenção de Epping. Ciente de sua finitude, Al conta ao amigo seu grande segredo: o pub de sua propriedade possui um portal para o passado. E você não precisa de um DeLorean ou de uma Tardis para viajar no tempo. Basta atravessá-la.

É bem legal ver que King não se atém em explicar como viajar no tempo. As questões mais interessantes das ficções com esse tema puderam ganhar mais desenvolvimento do que ficar explicando detalhes da viagem temporal. Porém existem regras (como devem existir): toda vez que você passar pela “toca do coelho”, ao chegar no passado, sempre será 11:58 da manhã de 9 de setembro de 1958. Não importa quanto tempo passe fora, ao retornar para o presente, apenas dois minutos terão passado. E se retornar, sempre será aquela manhã de setembro de 1958. Al se divertia com a possibilidade de voltar ao passado, e por algum tempo tirou vantagens disso (como comprar carne mais barata). Mas a grande ambição de Al surgiu com a possibilidade de viajar no tempo: impedir o assassinato do presidente John F. Kennedy (JFK), que aconteceu no dia 22 de novembro de 1963.

Tendo traçado todo um plano para impedir o histórico assassinato, Al pede a Jake que conclua o plano, já que o pobre descobre estar com um câncer.

Mas que pedido é esse? Imagine você ter a missão de voltar ao passado e impedir um assassinato. Jake Epping atravessa a “toca do coelho”, mas não está muito inclinado a impedir o assassinato de Kennedy. Dedicar 5 anos da sua vida parece muito ao professor, que prefere, primeiramente, aproveitar da época vivendo uma nova vida. Porém, ao lembrar da trágica história do zelador Harry Dunnig, Jake decide mudar os eventos do trágico crime, e descobre que salvar JFK não será nada fácil.

Ao narrar um conto de viagens temporais, King procura criar um ambiente para que o passado seja crível para quem lê. Dessa forma, as descrições dos ambientes, pessoas e seus comportamentos são essenciais para aceitarmos a esfera histórica dos anos de 1950 e 1960, assim como a descrição de personagens reais, a destacar Lee Harvey Oswald, o assassino de JFK. “Novembro de 63” nos transporta para o mundo político da Guerra Fria, assim como para a esfera cultural dos Estados Unidos na década de 1950. Essas características são esmiuçadas pelo autor nas situações em que Jake tem que viver no passado se adaptando à falta da modernidade de seu tempo.

É importante também destacar que King trabalha com o tema do “Efeito Borboleta”, já que alterar o passado não acarreta mudar o futuro? Quais as consequências de evitar o assassinato da família de Harry Dunning ou das pessoas que Jake ajudou no passado? Ou ainda, como seria a história dos Estados Unidos se JFK não tivesse sido assassinado? A possibilidade do “e se” é atraente à nossa imaginação. “E se” Hitler tivesse vencido a Segunda Guerra Mundial? “E se” o Brasil tivesse sido colonizado por ingleses ao invés dos portugueses? “E se” eu tivesse dito “sim” quando deveria ter dito “não”, ou vice e versa. Percebe? A possibilidade de escrever uma outra história para a gente é atraente e fértil na mente de grandes autores como King.

Porém, “Novembro de 63” é um livro que requer paciência do leitor. Em um pouco mais de 700 páginas, a narrativa parece ser cansativa em alguns momentos, mas possui os traços marcantes do autor, como alguns momentos de suspense bem conduzidos. Para quem curte o tema de viagens no tempo, contextos políticos e históricos, e o jeito de narrar que só Stephen King sabe fazer, “Novembro de 63” é recomendadíssimo.

Em tempo: como eu havia dito logo no início dessa resenha, Stephen King teve muitas das suas obras adaptadas para o cinema e televisão, “Novembro de 63” não fica para trás. A trama de viagens no tempo criada por King foi adaptada no formato de minissérie pela plataforma de streaming Hulu (semelhante ao Netflix, mas que não chegou ao Brasil). São oito episódios, onde o ator James Franco (Planeta dos Macacos: A Origem) dá vida a Jake Epping.


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Capa Novembro de 63 FINAL.inddSuma de Letras

Brochura

23 x 15,6 x 3,6 cm

736 páginas

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