[LIVRO] NÓS e a fórmula para a felicidade. (Ou MALDITOS ENGENHEIROS)

Se toda uma sociedade pudesse ser integrada em uniformes, números, hábitos calculados, e até mesmo movimentos calculados e examinados passo a passo por paredes transparentes de vidro, seria ela mais justa? Mais feliz?

Essa é a discussão levantada em NÓS, de Eugene Zamiátín, livro considerado por muitos a pedra base das distopias feitas de ficção social/científica.

Chegue mais e aprenda a reclamar de engenheiros…

De NÓS

Nós é uma sátira futurista distópica, geralmente considerada o berço do gênero.

Entre outras inovações literárias, a visão de Zamiátin inclui um ambiente de casas — e quase tudo mais — de vidro e outros materiais transparentes, onde todos estão visíveis, e um cidadão é o vigia do outro. A população é reduzida a 0,2% do contingente populacional anterior, dos tempos antigos, de acordo com o narrador, uma vez que a maior parte dos seres humanos não resistiu à fome, à miséria e à nova alimentação determinada pelo Estado: uma alimentação contada a 50 mastigadas e derivada de petróleo.

Nessa sociedade, D503, um engenheiro, sofre da doença de ter uma alma (?) e começa a comportar-se de modo minimamente inadequado.

Um número pode desfazer toda uma equação, não pode?

Pois é essa a ideia de Eugene Zamiátin.

Por suas críticas ao socialismo russo, esta e outras obras do autor eram frequentemente banidas.

Há discussões sobre as influências do trabalho de Zamiátin no trabalho mais conhecido do gênero: 1984 de George Orwell, que começou a escrevê-lo alguns meses após ler uma tradução francesa de Nós e ter escrito uma resenha da obra. Há registros de Orwell ter dito que “iria tomá-la como modelo para seu próximo romance”.

Orwell diz ainda que acreditava que Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley deve ser “parcialmente derivado” de NÓS. Contudo, Huxley, segundo o livro de Russell, escreveu em uma carta de 1962 que escreveu sua obra muito antes de ter ouvido falar na do russo.

Eu não teria dúvidas disso.

Do autor

O autor russo tornou-se um nome de destaque justamente por escrever o romance do qual tratamos aqui. Mas é interessante que falemos, ainda que brevemente, de suas origens. Assim como Van Gogh, Zamiátín era filho de um religioso. Gosto da conexão entre gênios. Não é raro que filhos de homens em postos religiosos, ou com destaque político ou social, se tornem pequenos (ou grandes) revolucionários intelectuais. O pai de Zamiátín era um sacerdote ortodoxo russo e professor, e a mãe era música.

Zamiátín tinha grande gosto para as ciências exatas, o que pode deixar claro que D503 é um alter ego não tão disfarçado assim.

Depois de concluir o curso superior e se tornar engenheiro naval, Zamiátín começou a escrever ficção como passatempo. Foi preso e exilado em 1911, mas foi anistiado em 1913. Em 1916 foi para Inglaterra supervisionar a construção de quebra-gelos (possivelmente uma forte influência para a escrita do romance NÓS, se pensarmos nas casas e paredes de vidro) nos estaleiros de Newcastle-upon-Tyne e escreveu mais tarde The Islanders, satirizando o modo de vida inglês.

Zamiátín apoiou a Revolução de Outubro, mas tornou-se crítico da censura praticada pelos bolcheviques. Os seus trabalhos foram se tornando cada vez mais críticos do regime e cada vez mais suprimidos, à medida que a década de 1920 ia avançando. Por fim, os seus trabalhos foram banidos e ele foi proibido de publicar, em especial depois da publicação de Nós num jornal de emigrados russos, em 1927.

Ao contrário da maior parte dos gênios, Eugene morreu de infarto aos 53 anos, escapando de uma possível loucura ou assassinato, tão comum aos que traçam trajetórias similares.

Um mundo de vidro ou de gelo?

As casas que decoram a paisagem da perfeita e avançada civilização de NÓS são feitas inteiramente de vidro.

Parece algo impensável, não é mesmo?

Mas vou além. Não apenas as casas, como toda e qualquer parede, muro, prédio, calçada, repartição, colégio… tudo é feito de vidro.

O belo material transparente tem duas utilidades aqui, de acordo com minha análise literária: uma delas, a mais óbvia, seria a de manter tudo às claras (literalmente), tudo à vista em um tempo em que não se pensava em câmeras ou algo do tipo. O governo instituído por Zamiátín em NÓS era, claro, um governo autoritário e os Benfeitores, descritos como seres de mãos de ferro. Por consequência, todo e qualquer ato deveria ser vigiado dia e noite. Para isso, nada melhor que olhos à espreita o tempo todo, capazes de enxergar quaisquer ações de quaisquer números (cidadãos).

O vidro, contudo, pode ter outra conotação.

Não é difícil imaginar que sendo Russo, e havendo trabalhado em meio ao gelo, Zamiatín tenha pensado que um mundo futurista faria suas construções com uma estética similar a construções naturais e estéreis das terras mais isoladas do exílio em que esteve. Basta opor a isso o muro Verde, que é a negação de tudo aquilo que a sociedade civilizada prega, mas que nos parece (a nós leitores) uma floresta tropical ou equatorial.

Nesse caso, a grama do vizinho é mais verde. Pode acreditar.

Sem figurações para os Benfeitores

Conforme dito acima, a sociedade é controlada por Benfeitores de mãos de ferro. Na verdade, é muito complicado retirar algumas informações das descrições confusas de Zamiátín, uma vez que o autor vai montando a confusão mental do narrador-personagem a partir de uma fala descontinuada e ansiosa. Mas, ainda assim, sabemos das características físicas dos números, sabemos das casas e construções, sabemos das ações e inércias… e conhecemos os benfeitores, conforme dito, de mãos de ferro. É notável que o autor não teve cuidados em fazer dos ditadores aos quais se referia com críticas ferrenhas, terríveis criaturas com faces duras e postura ameaçadora. Zamiátín não tenta usar figuração no momento em que trata da aparência dos “governantes”, ao contrário das alegorias que utiliza em todo o livro.

Os Benfeitores convencem uma parte da população que são mesmo capazes de fazer o bem (daí o nome), mas castigam terrivelmente aqueles que ousam escapar de sua rotina de vida robótica. As mãos de ferro parece existir, pesadamente, para dar um toque especial a esse drama escrachado: Se na vida real utilizamos o termo “mão de ferro” para falar de chefes ou líderes pouco flexíveis, golpistas ou autoritários, Zamiátín inverteu a lógica e fez a própria metáfora vigorar, ao posar em cada cena as mãos pesadas sobre os joelhos férreos das entidades temerosas.

Números infinitos e heterogêneos

O tempo todo, NÓS tem em suas linhas a exata definição daquilo que traz em seu nome: a ideia de uniformidade. Os cidadãos desta distopia devem ser iguais em tudo o que puderem. Chegam ao ponto de usarem uniformes e se expressam sentimentos, são considerados doentes (a essa altura você pode ter se lembrado de Equilibrium).
Há uma contradição, contudo. Os poucos elementos restantes na raça humana não possuem nomes, que os permitiriam ser ainda mais iguais, uma vez que nomes podem ser repetidos. Cada pessoa é chamada por um número.

Eu e você, caro leitor, frequentamos a escolinha da Tia Teteca e claramente sabemos que os números são infinitos. Dessa forma, se forem ainda por cima combinados a letras (havendo 26 só no alfabeto ocidental), é possível fazer um cálculo infinito com um combo absurdo, se tentarmos algo como análise probatória. Por que estou dizendo isso?

Não é estranho que, em uma sociedade em que cada pessoa, perdão, em que cada número deva ser o mais impessoal possível, haja a característica de haver apenas um único número para cada indivíduo? A singularidade máxima é o que alcançamos aqui. Estranho quando tudo o que se quer é que não haja singularidade.
Não sei se Zamiátín pensou nisso quando escreveu NÓS. Talvez o autor tenha sido mais fortemente levado pela motivação primeva das atividades intelectuais de sua existência: a matemática. O protagonista é um engenheiro responsável por um cálculo fundamental para o avanço daquela sociedade futurista. Tudo é matematicamente calculado. O livro por si só parece um cálculo. É claro que Zamiátín lembrou dos uniformes, lembrou claramente de findar as emoções de cada ser envolvido na trama (ou suprimi-las o máximo possível), mas esqueceu-se de cortar a singularidade dada a cada um pela infinitude da linguagem matemática.

Malditos engenheiros!

A grande Integral e a fórmula para a felicidade

Quando parte da população começa a desenvolver qualquer coisa que se parece uma doença (uma doença misteriosa chamada alma), capaz de fazer com que tenham sonhos e sintam como que pequenas mortes, o governo propõe, para o bem de seus números, uma grande operação que irá findar todo o sofrimento.

Engraçado como, de novo, temos a relação com o gelo.

Por quê?

A grande operação é feita rapidamente, e “cura” o número doente dos sintomas aterrorizantes da possível presença de uma alma. Não há mais sentimentos, logo, fica apenas o maravilhoso vazio de uma neutralidade pragmática. A calma estéril, a incapacidade de questionar ou revoltar-se.

Um procedimento amplamente usado nos anos 10 e 20, para “acalmar os ânimos” de pessoas portadoras de problemas mentais, era a lobotomia.

Que seria isso?

Lobotomia, ou também leucotomia, é uma intervenção cirúrgica no cérebro, em que são seccionadas as vias que ligam os lobos frontais ao tálamo e outras vias frontais associadas. Foi utilizada no passado em casos graves de esquizofrenia. O instrumento utilizado para a realização da lobotomia era o PICADOR DE GELO.

Eugene tinha lá seus problemas com as noites geladas russas. Mas, por outro lado, o cara pensou em tudo.

Não sei até que ponto as tantas revoluções que tivemos levaram inocentes a manicômios sob a alegação de que sua insurreição seria loucura curável com lobotomia. Precisaria reler “A história da Loucura” para refrescar minha mente. Mas Eugene Zamiátin pensou nisso.

A fórmula para a felicidade sequer era a Integral proposta do início ao fim do livro, mas uma lobotomia debilitante.

Malditos psiquiatras do início do século XX!

Paralelos com Brave New World e 1984.
NÓS foi um livro que recebeu, ao longo da história, muito menos atenção do que aquela que deveríamos todos (professores, leitores, leigos e letrados) ter dado: como um livro base para a compreensão de todo um sub-gênero literário (seria a ficção social um sub-gênero?), NÓS merecia um lugar de destaque junto a 1984 e Admirável Mundo Novo.

Contudo, Aldous Huxley e George Orwell souberam reconhecer o valor da obra Russa ao escrever os livros que realmente os consagraram.

Não sei se é adequado falar de Spoiler quando estou tratando de uma peça literário escrita no início do século passado, mas não serei assim tão sórdida em acabar com a experiência literária fantástica daqueles que se dispuserem a ler esse maravilhoso romance.

O que posso adiantar é que, se você já leu 1984 e/ou Admirável Mundo Novo, saberá reconhecer paralelos inquestionáveis na estrutura social, na ideia de igualdade (para uns, apenas), etc.

O fim de NÓS parece ter semeado ideias tanto em Huxley quanto em Orwell, embora 1984 e Admirável Mundo Novo terminem de formas completamente diversas.

Acredite, há um ponto de convergência entre as 3 obras. Não por acaso, a edição da Aleph tem o prefácio escrito por George Orwell, admirador incontestável de Zamiátin.

Não… Você não deveria esperar nem mais um segundo para ler esse livro. Estou integralmente certa disso.


Editora Aleph

Tradução: Gabriela Soares

Capa dura

21,6 x 13,8 x 2 cm

344 páginas

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Raquel Pinheiro (Raposinha) é míope profissional, CANCERIANA, redatora, revisora, tradutora, escritora, professora de língua inglesa, viciada em café e artista plástica. Além disso é troll nas horas vagas e é viciada em cheirar livros.