[LIVRO] Morte é uma transação solitária, de Ray Bradbury (resenha)

morte-e-uma-transaco-solitaria-ray-bradbury-best-seller-feat“Na rua, olhei todas as direções, procurando ver aquela coisa que me esperava. Qual caminho que tomaria para casa, a fim de não me encontrar com a escuridão?” (Pg. 10).

O mestre da literatura fantástica Ray Bradbury estreou seu primeiro Romance Policial… há 31 anos. Claro, incluindo fantasia numa história séria de mistério. Como? Ora, como um elefante caminha no teto segurando uma sombrinha e ainda assim faz sentido? Simples, porque o escritor assim o quer.

O grande bonde vermelho leva-o, também, escritor com sonhos de laureio, de volta à Venice, o ano é 1949 e o bêbado ao seu lado afirma com veemência que a Morte é uma transação solitária. O velho parque de diversões está sendo demolido, mas a atração funesta permanece. Quando, na volta para casa, o escritor Biruta repara na jaula do leão, vê um corpo boiando lá dentro e surge o mistério e as sucessivas mortes.

“Alguém soltou um grito terrível. Percebi que fora eu quando dezenas de luzes se acenderam nas casinhas da margem do canal sombrio.” (Pg. 12).

Bradbury não abandona a fantasia nesse livro, narrando, através do Biruta, acontecimentos aparentemente corriqueiros e desconexos, incluindo as mortes, que se observados atentamente estão interligados de forma sutil.

O autor de Fahrenheit 451 não decepciona quanto aos personagens, uma das arrumações mais interessantes de personalidades que já li. Fui fisgada pela ex-cantora lírica Fannie Floriane; ainda sinto arrepios, não de medo, ao lembrar do detetive Crumley – jamais(!) cortarei meu cabelo com alguém chamado Cal – ; e ainda tenho problemas para aceitar que o Biruta não é real. Isso seria um crush literário?

O humor vem em pequenas doses, como no conto do autor introduzido discretamente na obra através do protagonista. O suspense e o drama competem por espaço, um não desmerecendo o outro, aquele tipo de casal que se ama em demasia mas, vez ou outra, não se suporta. O conflito de emoções desse livro me calou fundo, como se algumas das características do Biruta fossem também as minhas.

“- Você tem imaginação. Ontem, lá na banca do Abe, li um conto seu sobre um homem que descobre ter um esqueleto dentro dele, o que o deixa morto de pavor. Cristo! Achei uma beleza. Como você consegue ter ideias como essa?

– Bem, tenho um esqueleto dentro de mim.

– A maioria das pessoas não se dá conta disso…”. (pg. 75).

Com um enredo de devaneios, Bradbury transitou do policial ao drama e até ao onírico, cada morte revelando um pedaço das almas solitárias da Venice antiga, mostrando o emaranhado de histórias de criaturas esquecidas pelo tempo e ignoradas por si próprias. No fim do mistério… ah, não tirarei de você esse prazer. Ou não.


morte-e-uma-transaco-solitaria-ray-bradbury-best-sellerBest Seller

Ano de publicação: 1986

14 X 21 cm

232 páginas

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