[LIVRO] “Misery – Louca Obsessão” de Stephen King (resenha)

misery suma de letras feat

Um escritor famoso sofre um acidente de carro e é socorrido por sua “fã número um”, que o hospeda em sua casa até ele se recuperar. O problema é que o lugar é isolado do resto do mundo, a mulher é louca, e quer que ele escreva um livro pra ela, custe o que custar.

misery movie poster 2Misery – Louca Obsessão“, mistura de suspense e terror psicológico concebido por Stephen King em 1987, já saiu no Brasil em 1998 pela Círculo de Leitores, sendo relançado somente em 2014 pela Suma de Letras. O livro ganhou uma adaptação para o cinema em 1990 dirigida por Rob Reiner (que em 1986 adaptou outra obra de King, Conta Comigo), e estrelada por James Caan e Kathy Bates nos papéis do escritor Paul Sheldon e da ex-enfermeira Annie Wilkes (papel pelo qual Bates ganhou o Oscar de melhor atriz). Felizmente não assisti a adaptação antes de ler a obra, pois creio que isto influenciaria de alguma forma as fortes impressões que o texto de King me deixaram.

O livro é relativamente pequeno, se comparado à maioria das obras escritas por King, mas isto não o impediu de torná-lo uma leitura tão densa e envolvente quanto seus melhores trabalhos. “Misery” é sobre um artista que torna-se literalmente cativo de sua própria fama. Incapaz de escapar de sua prisão, Paul se vê forçado a sacrificar sua arte – de maneira bem traumática – para produzir uma versão mais medíocre dela, justamente o tipo de livro que o levou a ser aclamado por um público fiel e obcecado pela heroína estereotipada que criou, e que o permitiu sustentar-se de seu próprio talento.

misery movie posterAntes de prosseguir, devo dizer que sou fascinado por “suspenses de confinamento”, histórias nas quais acompanhamos um ou mais alguns personagens num cenário limitado e normalmente isolado – seja um quarto de hotel, uma cabine telefônica, uma ilha – e tentam sobreviver à situação que, geralmente, foram forçados a enfrentar. Apesar de saber que, no caso de filmes, isto é uma forma de lidar com um orçamento limitado (exige a criação de poucos cenários), é também uma ótima maneira de um diretor explorar sua criatividade, suas técnicas, e investir no desenvolvimento de seus personagens em um ambiente muitas vezes claustrofóbico. Isto fez com que “Misery” já ganhasse alguns pontos comigo logo no início. A maior parte do livro é apenas sobre Paul e Annie numa montanha russa de tensão, terror e horror psicológico. E ajuda ainda mais o fato de Stephen King ter usado a obra pra falar de seu próprio ofício de uma maneira orgânica dentro da premissa que imaginou.

Como poucos autores, King tornou-se mestre na arte de fisgar a atenção do leitor logo nas primeiras páginas. Em “Misery” ele nos imerge na situação dolorosa e desesperadora de Paul, ao mesmo tempo em que vai dando indícios da iminente piora da situação. Em menos de 20 páginas King termina de estabelecer o cenário, os personagens e a situação que desenvolverá ao longo da obra, demonstrando um domínio narrativo exemplar.

misery movie 1

Tal controle sobre a escrita pode ser visto com clareza no capítulo 6 da parte 1, quando King intercala as lembranças de Paul antes de seu acidente de automóvel, com o relato de Annie pós-acidente, fazendo uma narrativa complementar a outra, sem confundir o leitor, e dando um ritmo mais “decupado” e dinâmico à trama, mas cuidando para que estas “alternâncias temporais” não nos confundam.

Porém, estes malabarismos narrativos de King são um aspecto secundário de “Misery“. Grande parte de sua capacidade de sugar a atenção do leitor é devido a ameaça representada por Annie, cuja afetação mental vai se evidenciando a partir de episódios de desequilíbrio cada vez mais constantes, de maior duração e de piores consequências. Com isto, a situação de Paul vai ficando mais desesperadora a cada capítulo.

Em vários momentos a tortura psicológico de Annie sobre Paul chega a dar nervosismo de ler, o que comprova o grande talento de King para escrever cenas que mexem com nossas emoções, tornando-nos testemunha e cúmplice do crime em andamento. A dor e agonia febris de Paul são palpáveis em seu texto. Nos sentimos tão presos quanto ele naquela cama, encarando um monstro disfarçado de mulher, que só quer torturá-lo como uma madrasta muito cruel, embora haja afetadamente como sua mãe.

misery movie poster 4Misery” é um tour de force de King, que desafia-nos a continuar testemunhando o martírio de Paul, e suas tentativas vãs de ludibriar Annie. Quando ele parece ganhar algum controle sobre ela, Annie se revela mais cruel e mais esperta do que demonstrou anteriormente, tornando o horror da situação gradualmente maior e mais angustiante.

Como se não bastasse todo terror da premissa em si, King também explora admiravelmente bem o lado ruim de ter uma imaginação fértil, nas várias vezes em que nos expõe os pensamentos de Paul Sheldon. Por ser um escritor, o protagonista consegue imaginar cenários, personagens e situações com vivacidade, e recapitular os apuros, dores e traumas pelos quais já passou nas mãos de Annie. Tudo isto vai ocorrendo com mais frequência conforme a história avança, e a mente de Paul vai se deteriorando tanto quanto seu corpo, numa espiral descendente de tormentos que beiram a loucura.

Misery” também é a personificação do pesadelo de um artista: ter sua arte julgada e criticada em pleno processo criativo. Isto leva a sacadas geniais de King, como transformar uma máquina de escrever, que antes servira para Paul criar obras que o tornaram famoso, num instrumento de tortura, ao forçá-lo trazer de volta à vida a personagem que mais odiava. Como se não fosse difícil o suficiente, o aparelho ainda tem defeitos que vão se acumulando durante a feitura d’O Retorno de Misery, obra que passa a escrever com exclusividade para a pessoa mais odiosa que conheceu em sua vida.

misery movie 2

E é fascinante a forma usada por King para descrever os processos mentais de Paul durante a feitura de O Retorno de Misery usando lembranças do personagem, metalinguagem, e fluxo de consciência para detalhar a construção do romance exigido por Annie, tudo isto sem causar enfado em nenhum momento, além de oferecer um alívio passageiro para o Paul e o leitor. Interessante ainda como King leva em conta a influência da realidade sobre a ficção e vice-versa, ao mostrar seu protagonista incorporando ao romance que escreve para Annie metáforas das aflições que tem vivido nas mãos dela. O ápice deste malabarismo narrativo são as inserções de trechos de “O Retorno de Misery” – os quais, por sua vez, revelam todo o cuidado com que a obra foi tratada pela Suma de Letras, que soube reproduzir a tipografia dos trechos datilografados, e simular as letras faltantes na máquina de escrever escritas manualmente por Paul e Annie durante a história.

misery movie poster 3Mesmo sendo um suspense mais psicológico do que físico, “Misery” possui trechos que aceleram o coração do leitor, tamanha a tensão presente neles. Um deles ocorre no primeiro “passeio” de Paul pela casa de Annie, quando ele tenta desesperadamente voltar para seu quarto antes que ela chegue em casa, e descubra sua pequena aventura.

Mas talvez uma das cenas mais aterrorizantes de “Misery” seja a longa conversa entre Paul e Annie que precede um dos atos mais cruéis que ela comete contra ele (e vou me limitar a dizer apenas isto para preservar o impacto do acontecimento a quem não leu). Ela inteira é de deixar o leitor hipnotizado com o que está acontecendo pela maneira como King domina cada elemento da narrativa, com antecipações agourentas do que está por vir. São 20 páginas que você lê num só fôlego, tamanho é o magnetismo delas.

Misery” é uma obra doentia, mas de um jeito magnético, que incita-nos a devorá-la em pouco tempo. Dá pra concluir sua leitura num final de semana, caso esteja com o sábado e o domingo livres, e grande parte disto se deve à competência da tradução de Elton Mesquita, que preservou toda a potência, atmosfera e visceralidade das palavras de Stephen King, que estava no auge quando as escreveu. O resultado dessa combinação de fatores é uma pequena obra-prima de um dos mestres do suspense literário.

Capa_Misery.inddMisery – Louca Obsessão
Stephen King

Tradução: Elton Mesquita
Data de lançamento: 01/05/2014
Formato: 16 x 23 cm
326 páginas

Disponível para compra nas seguintes livrarias:

nota-5

4 thoughts on “[LIVRO] “Misery – Louca Obsessão” de Stephen King (resenha)

  1. Pingback: [LIVRO] “Sobre a Escrita” de Stephen King (resenha) | NERD GEEK FEELINGS

  2. Ah, já vi uma breve cena do filme e apesar de ter curiosidade em assisti-lo, nunca lembrava o nome, sequer sabia que era derivado de uma obra do SK. Parece mesmo bem interessante essa história. Já tô pensando em comprar, mas vou dar uma lida no 1°cap que tá disponível no site da editora primeiro.
    Valeu a dica 🙂

    Adriana

Comments are closed.