[LIVRO] Minha Vida Fora dos Trilhos, de Clare Vanderpool (resenha)

Abilene vivia com seu pai percorrendo os Estados Unidos em suas linhas férreas, até o dia em que foi enviada a Manifest, onde seu genitor viveu anos atrás. Lá, a menina começa a investigar o passado da cidade, em busca de pistas sobre quem foi Gideon Tucker.

Ano passado eu tive meu primeiro contato com a obra de Clare Vanderpool graças à DarkSide Books, que lançou Em Algum Lugar nas Estrelas. Se aquele livro – que originalmente foi escrito após este – é muito sobre a relação de Jack com sua mãe; Minha Vida Fora dos Trilhos já começa estabelecendo que Abilene tem uma relação saudável e amigável com o pai. Tão amigável que ela se refere ao genitor pelo nome, Gideon, indicando que ela o vê como um igual, quase como um amigo mais velho. Só isto já cria uma peculiaridade que chama a atenção do leitor para a garota, que tem 12 anos quando a história começa a ser narrada:

Pensei no meu pai, Gideon Tucker. O que ele faz de melhor é contar histórias, mas, nas últimas semanas, elas se tornaram mais raras e espaçadas. De vez em quando ele dizia: “Abilene, já contei para você que no meu tempo…?”, e eu ficava quieta e ouvia com atenção. Normalmente, ele contava histórias sobre Manifest, a cidade onde um dia morou.

As palavras criavam imagens de fachadas de cores brilhantes e pessoas animadas. Ouvir Gideon falar sobre isso era como comer alguma coisa gostosa, suave e doce. E quando ele voltava a falar pouco, eu tentava me lembrar desse paladar. Talvez essa fosse a minha forma de encontrar um pouco de conforto, mesmo com ele tão longe. Rememorando o sabor das suas palavras.

Página 13

É quase inacreditável a capacidade de Clare nos deixar tão à vontade com Abilene em poucas páginas. Mesmo num cenário pouco aconchegante, como o que a menina encontra em Manifest – resultante da Grande Depressão – as palavras de Clare, incorporando Abilene, transmitem acolhimento, um tom familiar, e um pouco da ingenuidade de uma criança esperta, que enxerga com olhares atentos e curiosos os lugares e habitantes da cidade, tentando encontrar sinais da presença de Gideon, por quem ela é obcecada, e de quem deseja saber mais, pois é o único ente familiar que tem quando se hospeda na casa / bar / igreja do pastor Shady.

A humildade de Abilene encanta com seu jeito de sentir-se grata pelos pequenos confortos que encontra na casa do pastor Shady, como banho quente e café da manhã já servido na mesa ao acordar:

As escada terminava numa saleta de fundo. Era mais uma varanda, na verdade, com um fogão preto, uma banheira e uma cama. Aparentemente, Shady podia comer, tomar banho e dormir no mesmo cômodo. Tinha um prato de pãezinhos ligeiramente queimados e bacon quente em cima do fogão. Ter alguém para preparar minhas refeições me fazia sentir como se eu estivesse num hotel de luxo.

Página 32

Abilene não demora a nos cativar, como um certo principezinho de um clássico da literatura universal.

Antes mesmo de começar a história, chama atenção a lista dos personagens da obra, cada um com seu nome escrito numa tipografia diferente, que salienta suas distinções. Além disto, completa a identidade gráfica da obra as reproduções de impressos dos anos 10 e 30 com os quais Abilene tem contato durante a história, que ajudam o leitor a imergir na época em que transcorre a trama.

Os insights que Abilene tem a respeito das pessoas que vai conhecendo em Manifest fazem valer a leitura dos primeiros capítulos. Um dos que se destacam é o que narra seu primeiro dia na escola da pequena cidade, que também é o último dia de aula dos alunos antes das férias de verão. Clare dá uma verdadeira aula de como descrever o primeiro contato de um novo aluno com seus novos colegas. Aqui eu abro um parêntese pra dizer que me identifiquei muito com a situação, pois já a vivi diversas vezes, e realmente é como ela diz: “há certas coisas que toda escola tem, sempre iguais. Chamo essas coisas de universais.” (página 34)

Mas devo dizer que incomodou-me um pouco a forma como as crianças se comportam. Achei um tanto adultas demais algumas falas. Nada que tenha comprometido a leitura, mas rompeu um pouco da sensação de ver um monte de pré-adolescentes interagindo.

Em compensação, Clare tem um jeito de nos encantar com as palavras que mal percebemos quando ela nos fisga para dentro da história e nos torna cúmplices de seus personagens. Como quando, após Abilene ler a primeira carta guardada na caixa de tesouros, ela conta a Ruthanne e Lettie sobre o espião conhecido como Cascavel, que rondou Manifest em 1918, e logo as três decidem partir numa caça ao espião alemão, investigando indivíduos suspeitos da cidade, começando pelo Sr. Underhill, o coveiro. É o tipo de atitude que nos remete à infância, e a aventuras infanto-juvenis, como aquelas narradas em filmes como Os Goonies e Conta Comigo. Este tipo de história nunca perde o encantamento quando narrada por uma escritora tão talentosa quanto Clare. Reitero aqui o que disse quando escrevi sobre Em Algum Lugar nas Estrelas: ela é uma verdadeira maga no uso das palavras, e Débora Isidoro foi igualmente talentosa no ofício de traduzir as belas histórias narradas por Clare.

Paralelo a este convívio com as crianças e os adultos de Manifest, Abilene alimenta seu fascínio pelo pai, enquanto Clare nos instiga com sua figura misteriosa, contando passagens do passado da menina conforme vai narrando sua busca por pistas sobre a passagem de Gideon por Manifest.

Ele tinha colhido um lindo ramalhete de flores do campo e o trocou por um conjunto de costura em Decatur; depois, em Fort Wayne, trocou o conjunto por uma câmera, que rifou num piquenique da igreja em South Bend. As pessoas compravam um número por 25 centavos ou cinco por um dólar. Ele acabou com 7,50 dólares e comprou uma bicicleta dupla pra nós. Só que as nossas costas doíam tanto quando chegamos em Kalamazoo que vendemos a bicicleta por uma nota de vinte dólares para um homem com netos gêmeos.

Lembrei todas essas coisas sobre Gideon, mas não conseguia lembrar se ele tinha dito as palavras, ou se eu só tinha imaginado. As palavras eu volto para você.

As lembranças eram como raios de sol. Aqueciam e deixavam uma sensação agradável, mas não podiam ser retidas.

Página 77

Clare vai adicionando novos “temperos” ao enredo conforme Abilene conhece outros habitantes de Manifest. Por exemplo, quando vai até a casa da Srta. Sadie, a vidente cujo lar é apelidado de Caminho da Perdição, devido ao preconceito dos demais habitantes da cidade, que consideram sua mediunidade um poder demoníaco. Algo típico de povoados mais supersticiosos e menos instruídos. Em seu primeiro encontro com Sadie, Abilene descobre que a mulher é capaz de ler histórias contidas em objetos ao tocá-los (dom parecido com o do protagonista do livro Conexão Hirsch, resenhado aqui). É o que ocorre quando toca uma carta escrita por um rapaz a um amigo há quase 20 anos, extraindo da folha de papel outra história vivida pela dupla Jinx e Ned, na época em que o Ku Klux Klan aterrorizava os estrangeiros que imigravam pros Estados Unidos – especialmente os negros – em nome do seu nacionalismo extremista, não muito diferente do antissemitismo nazista.

É bem engenhosa a forma como Clare encaixou uma narrativa dentro da outra, aprofundando nosso envolvimento com os personagens conforme suas histórias são contadas para Abilene através da Srta. Sadie.

Merece elogios também a combinação de personagens carismáticos com passagens dramáticas e trágicas da história dos Estados Unidos, como a participação dos jovens na Primeira Guerra, o preconceito racial e social e a xenofobia, tudo isto se amarrando aos poucos em duas linhas de tempo numa narrativa que não cansa em momento algum. Mistérios relacionados ao destino de alguns personagens de Manifest, e a aventura de investigação de Abilene e suas amigas, são o recurso usado pela autora para nos manter entretidos e interessados no desenrolar das tramas.

Logo fica bem claro que Minha Vida Fora dos Trilhos é uma história sobre o preconceito sofrido por pessoas de culturas diferentes – neste caso imigrantes vindos do Velho Continente – numa época em que se desconfiava de estrangeiros devido à possibilidade de serem espiões alemães, contra quem os EUA lutavam na Primeira Guerra.

Esta é uma história sobre pessoas tentando sobreviver em tempos difíceis. Entre a 1ª Guerra e a Lei Seca; ou entre a Grande Depressão e uma grande estiagem, que impede Manifest de prosperar. É também sobre passar adiante a memória daqueles que poucos registros deixaram de sua passagem pelo mundo. E a forma como Clare escolheu contar sua história fez dela uma leitura estimulante. O livro nos instiga a unir os fragmentos de relatos para enxergar a narrativa maior formada por eles. Parte da diversão de lê-lo é o exercício investigativo proposto por Clare.

E parte do que faz compensar sua leitura são pérolas de sabedoria como esta:

[…] se alguém é suficientemente bondoso para inventar uma história para deixar você comer um biscoito de gengibre, você acredita nessa história e saboreia até a última migalha.

Página 134

Mas, voltando à investigação de Abilene, chega a enervar um pouco todo o mistério que os habitantes de Manifest (em especial Shady, Hattie Mae e a Srta. Sadie) fazem sobre o passado de Gideon. Felizmente, Clare soube dosá-lo, usando-o como meio de amadurecer Abilene no decorrer da história:

“Bem”, respondeu [a Srta. Sadie], pensativa, “talvez o que você procura não seja tanto a marca que o seu pai deixou na cidade, mas a marca que a cidade deixou no seu pai.” […] “Esta cidade imprimiu algo no seu pai, provavelmente mais do que ele saberia dizer. E, às vezes, as marcas mais profundas são as que mais doem.”

Página 158

Na alternância entre o presente de Abilene na Manifest em 1936, e o passado da cidade em 1918, a história prossegue. Enquanto o jovem Ned Gillem enfrenta as agruras da 1ª Guerra na Europa, os imigrantes residentes de Manifest travam uma espécie de guerra fria local contra empresários inescrupulosos, donos das minas de carvão da cidade, pros quais a maior parte da população trabalha sob condições tão desumanas quanto aquelas enfrentadas por Ned na Guerra. Clare foi, aos poucos, encadeando os relatos da Srta. Sadie com recortes de notícias do jornal de Manifest e cartas enviadas por Ned, nos desafiando a encontrar as conexões e paralelos entre os eventos de 1918 e os de 1936, enquanto Abilene toma ciência de tudo isto durante sua jornada pessoal em busca de mais informações sobre o passado de Gideon.

Mas também há momentos nos quais os personagens se sentem esgotados, e não sabem pra onde ir:

“[…] quando não há nada melhor para fazer, acho que voltamos àquilo que um dia nos fez sentir bem.” – Abilene, uma menina sábia.

Página 183

Entre idas e vindas pelo tempo, o leitor ganha histórias sobre o poder da união de representantes de diferentes nações contra a opressão, seja ela de qual natureza for. É isto, em essência, o que Clare nos ensina através da história de Manifest.

Como em seu livro seguinte, Clare soube amarrar brilhantemente todas as narrativas paralelas, mantendo o leitor atento ao desfecho delas e suas conexões entre si. Quando os mistérios são solucionados, isto não ocorre com o intuito de nos surpreender (embora alguns surpreendam), mas de reforçar as ligações entre passado e presente, a influência de diferentes percepções e compreensões, e a força de tragédias no rumo tomado por cada vida. Quando Abilene entende as atitudes do pai, e o comportamento dos habitantes de Manifest, mesmo muito jovem ela toma ciência do peso que o passado tem sobre aquelas pessoas, e do quanto pode ajudá-las ao fazê-las revisitar alguns dos episódios que moldaram suas vidas, suas personalidades, e o papel que cada uma ocupou naquela cidade e, por consequência, na vida de Abilene e Gideon.

Talvez o momento mais catártico do livro seja aquele no qual descobrimos não algo sobre Abilene e seu pai, mas sobre outra personagem, cujo papel é tão essencial para o amarramento das narrativas quanto a capacidade da menina – e a nossa – de ligar os pontos e solucionar os mistérios. Antes da catarse deste momento específico, Clare ainda nos brinda com uma simples e bela metáfora sobre a importância de tirarmos uma dor de nosso interior para curar algumas de nossas feridas.

Minha Vida Fora dos Trilhos é um livro sobre segundas chances, sobre a força revitalizadora das memórias, e o papel que podemos ocupar na vida daqueles que se deixam guiar pelas lembranças boas, usando-as como incentivo para tentar criar novas lembranças, tão boas quanto suas melhores, e passá-las adiante, manifestá-las e registrá-las no Grande Livro da Vida, no qual somos todos protagonistas e coadjuvantes, cada um contribuindo um pouco com a narrativa. Esta é uma obra sobre caminhos que se cruzam, e sobre pessoas que se ajudam para que venham dias melhores. Façamos deste um dos objetivos de nossas vidas, e espalhemos bons frutos, como esta bela obra de Clare Vanderpool, que é mais um lindo presente dado pela DarkSide Books aos leitores brasileiros através da coleção DarkLove.


DarkSide Books

Capa dura

Tradução: Débora Isidoro

21,4 x 14,2 x 2,6 cm

320 páginas

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