[LIVRO] Meu Amigo Dahmer, de Derf Backderf (resenha).

Assassinos em série estão numa tênue zona fronteiriça entre a sanidade e a loucura. Convivem em sociedade, como pessoas normais, mas são incapazes de estabelecer vínculos afetivos com suas vítimas. Para eles, não há remorso em seus crimes. São pessoas insensíveis com o próximo, não têm piedade, paixão ou altruísmo. Têm personalidades desformes em grau extremo. São incuráveis, incorrigíveis, irrecuperáveis e oferecem altíssimo nível de perigo. Mas, e se alguém com estas características estivesse ao seu lado? Você seria capaz de reconhecer sua essência? Se sim, o que você faria?

“Este é o grand finale de uma vida desperdiçada, e o resultado é uma depressão arrasadora (…) Uma vida doente, patética, desgraçada: isso e nada mais. ” – Jeff Dahmer.

A aura que envolve “Meu Amigo Dahmer”, HQ de estreia da coleção DarkSide Graphic Novel, como não poderia deixar de ser, é bastante pesada, e as questões introdutórias desta resenha são eixo central do motor da obra, que já foi premiada no Festival de Angoulême na França.

Nota: Não sei exatamente quanto tempo relutei comigo para escrever sobre “Meu Amigo Dahmer”. O Rodrigo Ferreira, editor-chefe do NGF que o diga: teve que insistir muito para que eu saísse de minha zona de conforto para começar a produzi-la. E a razão para tal demora talvez tenha sido a mesma que motivou Derf Backderf a levar quase vinte anos para concluir a obra, cuja pretensão inicial era ser apenas um romance gráfico de oito páginas: receio de acabar me envolvendo demais.

Meu Amigo Dahmer” é baseado na experiência de vida e convivência do autor Derf Backderf com seu colega de turma Jeffrey Dahmer, o “Canibal de Milwaukee”. Se, para nós, Dahmer fora um monstro depravado que matou, desmembrou e comeu 17 jovens, para Backderf também fora um garoto tímido, que costumava se sentar ao seu lado e com quem costuma matar aulas de música na escola.

“Naquela noite lá em Ohio, naquela noite impulsiva. Desde então, nada foi normal. Esse tipo de coisa permanece pela vida inteira. Depois do que aconteceu, pensei que ia tentar viver da forma mais normal possível, deixar aquilo enterrado. Mas coisas assim não ficam debaixo da terra.” – Jeff Dahmer, entrevista ao dr. Kemeth Smail, psicólogo da polícia de Milwaukee, 26 de agosto de 1991.

Derf Backderf conta que conheceu Dahmer na sétima série, quando a garotada das três escolas primárias do distrito em que morava foi misturada no caldo hormonal do ginásio. Narra suas impressões sobre aquele menino tímido, que passava praticamente despercebido às agitações adolescentes e que, quando notado, era desprezado conscientemente pelos que estavam à sua volta.

Nos anos 60, enquanto os Estados Unidos e a antiga União Soviética travavam uma guerra sem armas para ampliar as suas esferas de influência econômica e ideológica, as mulheres marcavam presença por sua luta de direitos nas metrópoles laicas, e a Beatlemania estava em polvorosa, pouco mais de quinze anos passados após o fim da Segunda Grande Guerra, o Colégio Eastview estava superlotado.

Um súbito aumento de natalidade pôde ser observado imediatamente após a Segunda Grande Guerra (o efeito baby boom) e, como consequência, quinze anos depois, quando Backderf e Dahmer viram-se pela primeira vez, as salas de aula apinhadas de gente, cantina e corredores do ginásio, sempre cheios, repletos de barulhos e de conversas animadas, ofereciam oportunidades perfeitas para interação social. De acordo com Backderf, Dahmer não tinha amigos e parecia não fazer questão de tê-los. Era o cara mais solitário que já tinha visto.

De certa forma, “Meu Amigo Dahmer” me fez lembrar a adorável série “Anos Incríveis. Recheada de questões sociais, eventos históricos importantes e dramas da puberdade. Tudo isso nos era revelado sob ótica de Kevin Arnold, junto de sua paquera, Winner Cooper, e de seu inseparável amigo Paul. Mas é claro que do teor de inocência do show televisivo não se aplica à graphic novel de que falamos agora. As semelhanças permanecem no âmbito das descobertas juvenis e da contemporaneidade.

No vilarejo de Bath, Ohio, os ânimos não eram bons: havia grande recessão econômica, as fábricas de pneus estavam fechando, o centro outrora movimentado era visto às moscas. Esta análise do ambiente a que o protagonista da história estava inserido pode ser interessante, porque parece ser o reflexo idêntico da alma dela: uma alma que jazia aos poucos.

Mas essa condição de espírito não era algo que se estendia ao nosso narrador. O rapaz considerava a vida no campo boa, ainda melhor para as crianças, que tinham uma mata densa para brincar de se esconder, extensos bosques e prados, e uma vizinhança aconchegante na qual todos se conheciam. Sem dúvida, um dos berços mais improváveis para o assassino em série mais perverso desde Jack, o Estripador.

“(…) a casa dos Dahmer dava para uma rodovia íngreme que não era segura para andar de bicicleta nem caminhar. Tudo que se via da rua era a fachada vazia, como se a casa em si espelhasse o isolamento de Jeff.”

À medida que o tempo passava, Dahmer se transformava. Em 1975, os alunos do colégio Revere estavam fascinados por um carinha estranho que fingia ataques epilépticos e imitava a fala arrastada e as convulsões daqueles que tinham paralisia cerebral. Dahmer ganhou músculos, levantava peso e caminhava de forma desengonçada com os braços colados ao corpo. O jeito bizarro que o ontem frangote/ careta garantiriam que se destacasse no nível social em que estava inserido. Havia ali um sentimento de atenção de despertada. Ele tinha sido promovido de Nerd transparente para um bicho doido (e que causava repulsa a quem o visse mais de perto) da noite para o dia.

OBS.: A zombaria dos colegas de turma chegou a ponto da criação do fã clube Dahmer e os “dahmerismos”; a brincadeira consistia em inserir fotos e caricaturas do rapaz (algumas de autoria de Derf Backderf) em grupos nos quais, evidentemente, ele não fazia parte. Essas fotos se tornariam símbolos de uma juventude desperdiçada. Dahmer, o garoto que não se encaixava.

Não obstante a esta metamorfose, Jeff, homossexual, habitante de uma cidade predominantemente conservadora e preconceituosa, vivia uma experiência bastante dolorosa; mas não como as de outros gays e lésbicas de seu tempo – ele sofria especialmente calado, porque, em suas fantasias, seus amantes já estavam mortos, eram cadáveres.

Tal qual impressionante fora o metamorfismo de Dahmer também é a potência emocional que esta narrativa possui; transcorridas duas décadas, não perdeu nada de sua carga original. O escritor utilizou de diversos materiais de pesquisa para ser fiel aos fatos: artigos de jornal local, arquivos do FBI (boletins de inquérito, registros de provas e de prisão, transcrições de depoimentos realizados por agentes, psiquiatras e peritos criminalistas), notas de sua própria agenda familiar (!). Tudo isso rendeu mais força à trama, tornando-a capaz de atrair nossa leitura quase que magneticamente.

Para ser muito honesto, gostei bastante do estilo de narrativa do Backderf. Ele trabalhou no jornalismo e investigou todas aquelas atrocidades durante anos; ele tem aquela pegada dinâmica da imprensa, sabe? Além disso, a arte dele é interessante, underground, lembra um Beavis and Butt-Head mais refinado, de bom gosto.

Creio que Dahmer não precisava ter acabado como um monstro, que todas aquelas pessoas não deveriam ter morrido horrivelmente, se os adultos que fizeram parte da vida dele não fossem tão inexplicável, incompreensível e imperdoavelmente sem noção e/ou indiferentes”.

Com efeito, será que a conta dos atos de Jeffrey Dahmer também poderia ser colocada na de seus progenitores, assim como no caso de outros psicopatas?

Bom, corriam boatos de que Joyce Dahmer, mãe de Jeff, tinha problemas, que abusava do uso de remédios e que certa vez chegara a ser internada em um hospício para tratamento. Segundo as más línguas, sofria de depressão profunda e de frequentes acessos convulsivos – seu corpo sacudia descontroladamente até que a mulher tombasse exaurida no chão. Talvez, tenha sido daí que Jeff tenha se inspirado para desenvolver habilidades que garantiriam certa notoriedade em seu grupo. O pai, Lionel, por sua vez, era químico, proletariado que não levantava qualquer suspeita, a não ser por sua personalidade forte e intelecto acachapantes. Ele tinha mais intimidade com seus tubos de ensaio do que com o próprio filho.

Enquanto Jeff passava cada hora sofrendo com suas fantasias proibidas, a ansiedade crescia e, para amenizá-la, o jovem recorria à bebida. Era mais uma forma que ele encontrara para se desligar do mundo, dos problemas em casa (Joyce e Lionel, seus pais, travavam diariamente uma luta que resultaria num divórcio bastante conturbado anos depois) e tentar levar uma vida normal. O alcoolismo, todavia, só fez aumentar sua psicose.

Ainda que exista uma quantidade incrível de pessoas que possam enxergar em Jeff Dahmer uma espécie de anti-herói, vítima de bullying que contra-atacou a sociedade que o rejeitava, é fato de que era um infeliz, um ser problemático cuja perversidade estava além da compreensão.

Em conformidade com Backderf, “assim que ele mata uma pessoa (…), termina a simpatia por Dahmer. Ele podia ter se entregado depois do primeiro homicídio. Podia ter botado uma arma na cabeça. Em vez disso (…), decidiu se tornar assassino em série e levar infelicidade a incontáveis pessoas”. E sugere “Tenha pena, mas não empatia. ”

ALERTA DE SPOILER PARA UM FATO CURIOSO E VERÍDICO, QUE NÃO INFLUENCIA A LEITURA DA OBRA (PORQUE O LEGAL DELA É OBTER AS RESPOSTAS PARA AS DÚVIDAS MANIFESTAS NO PRIMEIRO PARÁGRAFO), MAS QUE PODE SER CONSIDERADO DESMANCHA-PRAZERES POR ALGUNS DE NOSSOS LEITORES:

Para quem acredita que o Universo conspira a nosso favor, e que para cada ação há uma reação de força igual e contrária, o final do serial killer protagonista desta história real não poderia ter sido outro. Ele foi assassinado por um colega de cárcere em 1994, de forma muitíssimo semelhante à utilizada em seu primeiro assassínio; teve seu crânio esmagado por um haltere de musculação. Se em algum momento de sua vida Jeff Dahmer soube o que é remorso, deve ter sido esse – morreu mesmo com o peso da culpa.

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Se deseja uma trama tensa a respeito de um adolescente doentio, “Meu Amigo Dahmer” certamente vai atender às suas expectativas mais obscuras. No entanto, certamente, este livro será mais do que uma simples válvula de escape para a sua sombra. Ele também irá despertá-lo para o risco de se expor a quem não merece a sua companhia. Esteja atento! De quando em quando, podemos achar que todas as pessoas são tratáveis e que têm direito à compaixão ou ao perdão. Só que não.


DarkSide Books

Tradução: Érico Assis

Capa dura

23 x 15,8 x 2,8 cm

288 páginas

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Saraiva

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