[LIVRO] Memórias de uma Gueixa, de Arthur Golden (resenha)

“Gueixas não fazem nenhum voto formal de silêncio, mas sua existência é marcada pela convicção bastante japonesa de que o que ocorre de manhã no escritório e o que ocorre à noite atrás de portas fechadas não guardam nenhuma relação entre si e precisam permanecer para sempre distintos e separados.”

Página 9

Jamais compreendi o que vem a ser exatamente uma gueixa. Desde cedo, creio, como a maioria das pessoas, tive contato superficial com aquela figura delicada. Sendo uma das efígies singulares da cultura nipônica, não há quem resista por espanto ou curiosidade ao magnetismo da imagem moldada sob inúmeras camadas de tecido e maquiagem pálida, quase uma máscara. Lembro que minha mãe contava histórias para crianças na igreja fantasiada de gueixa. Ficava em estado de hipnose perguntando comigo mesmo: quem é você agora? Não sei se ela tinha muita noção da dureza da vida de uma gueixa, ou se sabia, de fato, que gueixas, além de companhias para homens, como geralmente são concebidas no imaginário ocidental, eram artistas. Mocinhas preparadas desde novas para tal fim. Instruídas no canto e na execução de instrumentos musicais. Para a dança e interpretação de histórias. Contavam, improvisam e recitavam poesia. Assumiam papeis em um cenário onde preponderava a beleza, ou melhor, não se almejava nada além de expressar beleza em mais afinado tom de feminilidade. Ao menos era o que se esperava de tais artistas. Sim. Gueixa significa artista. E foi a leitura da obra de Arthur Golden, publicada pela Editora Arqueiro, que me nutriu curiosidade a respeito do universo das gueixas. Não posso dizer que compreendi de fato o que é uma, nem que sanei em absoluto minhas dúvidas, entretanto, descobri diversos conceitos errôneos a respeito da natureza de uma gueixa. Se bem entendi, a essência e finalidade são mais distintas das cortesãs e amantes ocidentais do que se supõe. Mas, na prática, nossa falta de acuro no olhar tende a reduzi-las a mero espectro sensualista, senão, quando mais, um objeto de estudo cultural.

“(…) – e na verdade tínhamos os mesmos olhos peculiares de um tipo que quase nunca se vê no Japão. Em vez de serem castanho-escuros como os de todo mundo, os olhos de minha mãe eram de um cinza translúcido, e os meus são exatamente assim.”

Entre todas as metáforas possíveis para se descrever o livro Memórias de uma Gueixa, creio que a mais honesta seria: uma dança de pétalas em um belo mundo em chamas. Se possível, um ideograma contendo tal sentido bastaria para expressar o que senti durante a leitura. A ficção histórica de Arthur Golden, ambientada no Japão ao longo da primeira metade do século XX, não se trata apenas de relatos rasos de uma gueixa acerca de sua laboriosa vida, tampouco a narrativa se reduz a mero drama feminino, em um mundo onde a pretensa noção humanista de indivíduo é inimaginável. Golden transmite ao leitor a contrastante relação de crueza e airosidade do universo nipônico.

“Depois de um momento se levantou para empurrar de lado um dos painéis diante da janela, para entrar mais luz.

– Ora, achei que meus olhos estivessem me enganando – disse ele. – Você devia ter me contado antes que linda menina trazia consigo, Hatsumomo-san. Os olhos dela… são da cor de um espelho!

– Espelho? – disse Hatsumomo. – Espelho não tem cor, Awaji-san.

– Claro que tem. É de um cinza cintilante. Quando você olha num espelho, tudo o que vê é a si mesma, mas reconheço uma linda cor quando a vejo.

– Mesmo? Bem, eu não acho tão bonita assim. Uma vez vi um morto que pescaram do rio, e a língua dele tinha a mesma cor dos olhos dela.

– Talvez você apenas seja bonita demais para conseguir enxergar outra coisa – disse Awaji abrindo o livro de contabilidade e pegando a caneta.”

Página 68

A premissa do romance é a entrevista a uma gueixa chamada Sayuri, feita pelo professor de história japonesa Jakob Haarhuis. Sem interferências do professor, a narrativa flui em primeira pessoa iniciando-se em Yoroido, uma aldeia de pescadores onde Sayuri (chamada de Chiyo na infância) nasceu. Vivia com sua irmã, o pai, um pobre pescador, e a mãe, esta já a beira da morte. A vida miserável leva o pai a vender as duas filhas para um comerciante, que já observa em Chiyo notável inteligência e beleza singular, especialmente por causa de seus olhos cinza translúcidos que herdara da mãe. Depois de vendidas, ambas são transferidas de sua vida monótona e miserável para o distrito de Gion, na agitada Kioto. Lá são separadas sem a menor clemência. Sayuri é enviada à okiya (locais onde as gueixas viviam) de Nitta e sua irmã, para sua angústia, desaparece. Além de subordinada ao rigor das administradoras chamadas de Mamãe, Titia e Vovó, a menina tem de resistir aos ataques de inveja e perseguição de Hatsumomo, a gueixa oficial da okiya, que logo a princípio percebe o potencial de Chiyo. Sem família, vivendo basicamente como uma serva, a única coisa que move pequena Chiyo é sua paixão pelo misterioso homem que, certo dia, enquanto chorava em uma ponte, comprou-lhe um sorvete e deixou nada mais que um lenço, e disse para que jamais desistisse. A situação, aos que apreciam, é um belo exemplo de arquétipo de “A Gata Borralheira”.

“Quando finalmente consegui falar, pedi a Titia que acomodasse as tabuinhas em algum lugar onde eu não as visse e que rezasse em meu lugar – porque eu sofreria demais tendo de fazer isso. Mas ela se recusou e me disse que eu devia ter vergonha de pensar em voltar as costas aos meus ancestrais. Ajudou-me a instalar as tabuinhas numa prateleira perto da base da escada, onde eu podia rezar todas as manhãs.

– Nunca os esqueça, Chiyo-chan – disse -, pois são tudo o que restou da sua infância”

Página 113

Memórias de uma gueixa é repleta de reviravoltas que ocorrem tanto por sorte quanto por ações movidas pela inteligência de Sayuri/Chiyo. A atmosfera agridoce da narrativa nos transporta ora a um estado de sensualidade e refinamento, ora a brutalidade e rigor da cultura japonesa. Golden retrata de maneira vivaz os momentos históricos, que vão do período de repressão econômica do início do século até a queda das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, e parte do pós-guerra.

Destaco aqui a arte da capa: o desenho de uma gueixa com a metade da cabeça para cima oculta, velando, obviamente, os olhos especiais de Sayuri, só concebíveis pela imaginação do leitor, olhos capazes de derrubar um homem de uma bicicleta ou do alto monte do próprio orgulho…

“Eu estava com 12 anos e era quase tão alta quanto Mameha. Estar mais velha pode parecer uma vantagem, mas posso assegurar que não era. A maior parte das meninas da escola começara seus estudos muito antes disso – em alguns casos, como mandava a tradição, aos 3 anos e 3 dias de idade. As que haviam começado tão jovens em geral eram filhas de gueixas, criadas de tal modo que a dança e cerimônia de chá eram parte do seu cotidiano tal como nadar no lago fora parte do meu.”

Página 152

Apesar do sucesso de crítica, de ter dado origem a um belíssimo filme homônimo em 2005, que inclusive foi premiado pela academia, Memórias de uma gueixa é cercado de polêmicas devido a acusações de violação de contrato por parte de Mineko Iwasaki, a gueixa aposentada que Golden entrevistara para pesquisa de sua obra. Além do rompimento de sigilo, Iwasaki declarou que o autor cometeu incongruências sobre a vida das gueixas em sua obra.

Enfim. Diante das críticas sobre banalização dos costumes japoneses e sexualização das gueixas pelos olhos ocidentais, prefiro me ater ao fascínio que sua tradição desperta. E se porventura surgir a dúvida a respeito disso ou daquilo, lembre-se de que não existe voto de silêncio por mero acaso. De todo modo, seja qual for a suspeita, suponho que jamais saberemos o que de fato é uma gueixa.


Arqueiro

Brochura

22,8 x 15,8 x 2,2 cm

448 páginas

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