[LIVRO] Mauricio – A história que não está no gibi (resenha)

Sobre Mauricio – O pai da Turma da Mônica

“- Mauricio, não estou bem…

Olhei para o lado. Dudu estava verde, passando mal, mole, desmaiando, sem condições de dirigir e precisando de atendimento médico. Não teve outro jeito. Embora minha primeira lição de direção não tivesse durado nem cinco minutos, levei o carro de volta para o centro da cidade, só em primeira e segunda, passando por avenidas movimentadas, fazendo curva, virando a esquina, subindo a ladeira, o carro morrendo, engasgando, dando pulo. Levei buzinada do começo ao fim. Não foi o meu momento mais glorioso, mas mesmo assim fiquei entusiasmado por ter trazido o carro de tão longe.”

Pág. 112

Quando abri a caixa e notei o volume cuidadosamente embalado de Mauricio – a história que não está no gibi, não comecei a leitura de imediato. Por impulso, simplesmente apanhei meu caderninho e anotei: “sinto que este livro me fará bem”. Pois bem. Demorei quatro dias para tomar coragem e lê-lo. Um tiro. Foram cem páginas de uma vez. A escrita dinâmica e leve, capítulos curtos, não me deixaram os olhos fugir. Senti como se Mauricio estivesse ali, ao meu lado, me contando com ótimo humor, mesmo nas partes mais sérias, a respeito das conquistas de uma vida repleta de percalços e dificuldades para realizar seu sonho, um sonho que, como uma família, não parou de crescer e crescer até hoje.

“Enquanto minha avó me introduzia no mundo das histórias, minha mãe me apresentava o mundo real e meu pai me mostrava o que fazer com ele.”

Pág. 21

A história começa muito antes de Mauricio nascer. Seus avós maternos, os latifundiários Francisco e Maria, devido a desavenças políticas na Paraíba, tiveram de fugir com poucos pertences além da roupa do corpo. Andaram por meses até chegarem ao interior de São Paulo, vindo a falecer pouco depois, deixando Petrolina, mãe Mauricio, aos cuidados da tia-avó em Mogi. Já o pai, Antonio Mauricio de Sousa, nascera da relação de sua avó, a roceira Benedita, com um misterioso sírio, herdeiro comercial da região. Para evitar escândalo, o nome do avô permaneceu anônimo, – apesar de ser evidente que dona Benedita recebia sua ajuda para viver. Então, Antonio e Petrolina se conheceram gerando, assim, Mauricio de Sousa.

No interior de São Paulo, entre as brincadeiras de infância e leituras de gibis, inicia-se uma verdadeira saga com todo tipo de peripécias na vida do rapazinho. Para quem imagina a roça como entediante e bucólica, sua criação foi bastante agitada. A começar pela fuga para São Paulo. Temendo retaliações devido a críticas feitas a políticos locais, seu pai levara toda a família para capital. Desde então, começaram as idas e vindas do interior para a capital, e assim Mauricio foi adquirindo experiência, que incluía participar de concursos de cantor infantil (dos quais, a certa altura, tivera que ser vetada a participação, por sair vitorioso em todos), de programas de rádio e os primeiros trabalhos como ilustrador, fosse na barbearia do pai, onde vendia seus quadrinho e recebia as primeiras lições de empreendedorismo, ou produzindo desenhos para placas de lojas. Chegou até a aprender piano, e também criou um cineminha com caixa e papel para os amigos, já demonstrando o talento desde cedo. Mauricio, mesmo não conseguindo concluir o ensino formal (um curioso caso que envolvia a caricatura e vingança de um professor que você precisa saber!), num mundo de futebol no campinho e brincadeira com os pés na terra, a alma de Mauricio se formou e seus talentos se aprimoraram, tornando-se, acima de tudo, um grande observador.

“Isso ajuda a explicar por que eu nunca quis fazer charges ou caricaturas. Toda vez que me metia nisso, a história terminava mal. Primeiro foi a caricatura do professor de matemática, que, sentindo-se insultado, me fez repetir o ano tantas vezes. Agora era o prefeito, que, melindrado com um desenho, colocara na geladeira os jornalistas de três jornais durante 30 dias. Caricatura nunca mais.”

Pág. 58

[…]

No início, se algum jornalista se perguntasse o que um caipira estava fazendo na redação de um dos principais jornais da capital, bastava eu conversar por 10 minutos com ele para ganhar respeito. Sim, eu era inexperiente, tímido e desmaiava se via sangue, mas também era jovem, cheio de empolgação e energia, minha bagagem cultural era respeitável, e eu não tinha namorada nem nada que me distraísse. Eu só trabalhava.”

Pág. 56

A vida adulta de Mauricio foi recheada de circunstâncias imprevistas, que muitas vezes ele sabidamente transformou em oportunidades, a exemplo de quando, depois de entrar na lista negra do governo por ser acusado de comunista, teve de se mudar para Mogi com a família. Ele não desistiu. Lá teve a ideia de publicar suas tirinhas em semanários de diversas cidades, montando um sistema próprio de distribuição. Chegou à soma de 400 tachinhas, que marcavam cada local no mapa onde as pessoas desfrutavam de suas histórias. Porém, também houve eventos bastante desagradáveis. Foi pouco antes, no período em que se estabelecia como artista profissional, e participara da Associação de Desenhistas de São Paulo. Mauricio se negou a participar de certa cooperativa de desenhistas financiados pelo governo Brizola. As lideranças do grupo desejavam submeter seus personagens a ideologias de esquerda, o que se negou prontamente, por se precaver, a exemplo do que ocorrera com seu pai e avô, ao se envolverem com política. Chegou a ser ameaçado anonimamente de ter os membros invalidados, e assim não poder desenhar mais:

“- Veja, Mauricio, acredito que reconsiderar sua posição seja uma decisão mais sábia. Caso contrário, estará por sua conta e risco. Já imaginou se você está andando na rua e sofre um acidente? Se quebra o braço ou machuca a mão de um jeito que você não vai conseguir desenhar nunca mais?

O jogo tinha ficado pesado, para dizer o mínimo.

Antes de desligar, deixei claro que não ia mudar de ideia e pedi que eles me deixassem em paz.

Deixaram, felizmente! Um problema a menos.”

Pág. 78

Além de ter me sentido em um agradável bate-papo, a leitura foi também uma verdadeira viagem através da história. A vida do artista me serviu de janela panorâmica pela qual avistei transformações no cenário artístico, político e econômico do Brasil, ao mesmo tempo em que pude acompanhar a evolução da turminha, que saltou de tirinhas simples para a forma de peças de teatro, brinquedos e animações, chegando até a compor um grande parque temático da Turma da Mônica. Ressalto aqui as animações, tanto pelos percalços e dificuldades que ele enfrentou, quanto pela ousadia que consagraram os estúdios de Mauricio no cinema.

Mauricio também me levou em suas viagens para outros países, como Itália (onde fez uma jogada de marketing genial, embelezando a cidade com ilustrações da turminha, e também foi premiado pela primeira vez), Japão (lugar onde teve um romance bastante complicado com a jovem desenhista Alice, e onde conheceu Osamu Tesuka, com quem faria amizade), Estados Unidos (lá pôde finalmente encontrar um dos artistas de maior influência: Will Eisner, autor de Spirit, além bater um bom papo com ninguém menos que Stan Lee!)

Dentre tantas lições que aprendi durante a viagem pela vida de Mauricio, a mais valiosa foi constatar o valor da família. Mauricio jamais abandona os valores sólidos passados pelos seus antepassados e que fundamentam a empresa, desde as mais simples diretrizes até o relacionamento com seus funcionários. Para mim, é evidente que este seja o segredo, se é que podemos considerar segredo, do sucesso de Mauricio. Aquele toque além da perseverança, prudência e visão. Mauricio é familiar, não apenas no sentido de afeito, singelo, mas familiar como um pai, um patriarca no sentido essencial, aquele sujeito que dá tudo de si, custe o tempo que custar, para que um sonho se tornasse algo como uma sólida árvore de raízes profundas e possa partilhá-lo conosco na forma do universo da Turminha da Mônica, que ainda será visitado por muitas gerações por vir, estamos certos disso.


Sextante

Brochura

22,8 x 16 x 2 cm

336 páginas

Disponível nas livrarias:

Amazon

Saraiva

Cultura