[LIVRO] “Joyland” de Stephen King (áudio resenha)

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Devin Jones está prestes a levar um pé na bunda da namorada quando decide passar o verão de 1973 trabalhando num parque de diversões, onde conhece personagens excêntricos, descobre uma história perturbadora, e entra em contato com forças além de sua compreensão. Resumidamente é disto que trata Joyland, último livro de Stephen King publicado no Brasil pela Suma de Letras.

“Quando se trata do passado, todo mundo escreve ficção.”

Um dos pontos positivos do início do livro é a forma simples e sem demora como King estabelece a premissa da obra. Além disto, destaco a maneira exemplar como ele apresenta os personagens, dando à maioria deles poucas e marcantes características. Estas contrastam com a aparência ordinária e pouco notável de Devin Jones que, como tantos outros jovens, começa a história tentando sustentar um relacionamento que ele já adianta ao leitor que está fadado a terminar. Parte da conexão que estabelecemos com ele é devido ao início da trama abordar sua primeira decepção amorosa, “a mais dolorosa, a que demora mais para cicatrizar e a que deixa a cicatriz mais visível.”

Aliás, neste sentido, ajuda muito o fato do narrador ter um humor sarcástico e autodepreciativo que nos faz simpatizar com ele:

“Eu era um virgem de vinte e um anos com aspirações literárias. Tinha três calças jeans, quatro cuecas, um Ford velho (com um rádio bom), pensamentos suicidas eventuais e um coração partido.

Que fofo, hein?”

Outro detalhe usado por King para despertar curiosidade no leitor são alguns prenúncios do narrador sobre seu futuro (pois ele conta a história já com 60 anos). Além disto, só o fato de ambientar a trama num parque de diversões, e explorar a rotina de trabalho do local, foi o suficiente pra despertar meu interesse por ela, pois é algo pouco comum e raramente abordado em outras obras.

Também gostei do ar levemente fantasioso que marca a reunião inaugural do verão de 1973 em Joyland. Ela remete ao primeiro filme de Harry Potter e A Fantástica Fábrica de Chocolates. Também ajuda a reforçar essa impressão o comportamento jovial e levemente afetado dos funcionários veteranos do parque, que ao mesmo tempo geram simpatia e levantam suspeitas de que nem tudo é divertido naquele lugar. Isto leva o leitor a desconfiar de que o pior está por vir.

Outro recurso usado por King para imergir o leitor no microcosmo quase insólito do protagonista foi o emprego das várias gírias que formavam o Colóquio, o dialeto usado nos parques itinerantes dos EUA dos anos 70, que imagino ter dado um bocado de trabalho pra Regiane Winarski traduzir e adaptar, o que ela fez muito bem, devo dizer.

Essa imersão promovida por King através de sua escrita é o que torna tão única a primeira vez que Devin “veste a fantasia” (e prefiro deixar que você descubra por conta própria o significado da expressão). O que posso adiantar é que neste trecho King leva o leitor sentir-se na pele dele, ao ponto de contagiar-se com aquele momento mágico da obra, algo que dificilmente teria o mesmo resultado em um filme, por exemplo.

A relação familiar que logo se forma entre Devin e alguns coadjuvantes de Joyland é outro aspecto positivo da obra. Dificilmente você não simpatizará com alguns deles, como Lane e Mike, que são dois exemplos do ótimo trabalho de composição de personagens feita por King. Ambos continuam em nossa memória muito tempo após ter terminar a leitura de Joyland.

Embora tenha um ritmo lento, Joyland jamais se torna desinteressante. Creio até que o desenrolar mais “pacato” ajudou a tornar a história mais imprevisível, pois ela vai embalando o leitor ao ponto de acostumá-lo com o cotidiano de Devin, o que contribuiu pros trechos em que elementos fora do comum marcam presença e geram assombro. Essa sempre foi uma das especialidades de King, que a aperfeiçoou ao longo de sua carreira, e usou em Joyland com a precisão de um mestre no ofício.

O livro tem uma estrutura episódica que não considerei um demérito, mas uma vantagem. Isto deu à trama um aspecto de coletânea de memórias, além de facilitar sua leitura, que pode ser feita sem pressa, ao longo de vários dias. Eu até recomendo que o leia assim.

E King foi muito feliz em criar um protagonista e uma história cativantes, dividindo com o leitor suas experiências pessoais, íntimas e profissionais de maneira trivial e confessional.

Embora reserve algumas surpresas pro final, creio que Joyland se destaque como uma história sobre as diversas formas de libertar-se do passado, seja deixando a pessoa amada seguir seu próprio caminho, ou um fantasma descansar em paz. Também é uma história sobre amadurecimento, aceitação de perdas inevitáveis e iniciação sexual. Em suma, são os fatos de apelo universal que tornam Joyland uma obra tão envolvente. Há lições de vida em Joyland. Há amores, tragédias, amizades e despedidas e, claro, diversão e aprendizado. Uma obra simples, direta em sua execução, mas muito eficaz em sua realização, pois cumpre seus propósitos com todo o talento esperado de um autor da estatura de King.

Joyland, em temática e ritmo, aproxima-se de Conta Comigo. É quase uma “continuação” daquela jornada de autodescoberta infantil, agora mais focada no início da maturidade de jovens lutando para tornarem-se adultos. E ser adulto é começar a encarar com respeito a morte, o destino e definir um propósito para nossas vidas a partir de nossa interação com estes aspectos dela. Para abordar estes temas, King usou elementos sobrenaturais, como fantasmas e premonições, a fim de dar mais ressonância e significado às reflexões confessionais que transmitiu através dos relatos de Devin, provando, mais uma vez, que a ficção é um dos meios mais eficazes de passar adiante certos conhecimentos, compartilhando vivências disfarçadas de faz de conta.


nota-5


joyland stephen king suma de letras

Editora: Suma de Letras
Tradução: Regiane Winarski
Lançamento: 05/07/2015
16 x 23 cm
240 páginas

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