[LIVRO] “Império de Diamante” de J.M. Beraldo (resenha)

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Myambe é um continente em sua maior parte dominado pelo Império de Diamante, cujo líder é tido como um deus-vivo. Mas isto não o impede de fazer inimigos, como o mercenário Rais Kasim e o rebelde Mukhtar Marid. Em suas mãos, e nas do sacerdote Adisa e do governador Zaim Adoud, reside o futuro do Império e a sobrevivência de Myambe.

Império de Diamante é o primeiro livro da série Reinos Eternos, criada por J. M. Beraldo inspirado, especialmente, nas culturas e mitologias do continente africano. Ambientada num universo próprio, a história passa a acompanhar os quatro personagens principais num momento decisivo de seu mundo, quando todo status quo político e social está sob o risco de ser completamente mudado, afetando as vidas de todos os habitantes de Myambe.

Já no primeiro capítulo descobrimos que o início dessa possível mudança foi há 20 anos, durante um dos maiores conflitos armados da história de Myambe. Cheio de imagens impressionantes e vigorosas, Beraldo empolga o leitor logo nas primeiras páginas, imergindo-o de cabeça na história. Mesmo sem empregar uma narração em primeira pessoa, é notável sua capacidade de nos transportar para o meio de um combate de proporções épicas, a partir do ponto de vista de Rais Kasim, então um dos soldados do exército de Mahrus a combater as temíveis tropas do Imperador de Diamante. Apesar de não serem inéditas as estratégias de combate, as aparências de ambos os lados da guerra, muito bem descritas por Beraldo, destacam-nos pelas imagens exóticas que desenham na mente do leitor. Não bastasse iniciar a obra com um capítulo de tirar o fôlego, o autor o encerra com um acontecimento inesperado àquela altura, empurrando-nos para os capítulos seguintes, tamanha é a curiosidade que nos desperta para o que virá dali pra frente.

Sem dúvida o que mais se destaca nos capítulos iniciais é a desenvoltura com que Beraldo introduz seus personagens ao leitor. Ele emprega muito bem a técnica do narrador onisciente para examinar as motivações, crenças e ideologias dos personagens, deixando-se “impregnar” com sua psique, mas sem render-se à narração em primeira pessoa. Com isto ele, ao mesmo tempo, nos aproxima deles, e preserva o aspecto exótico do elenco e do universo imaginado.

No capítulo 2 acompanhamos o ritual de iniciação de Adisa, um jovem sacerdote do Imperador nascido com o dom de entender todas as línguas de Myambe. Isto o torna responsável por estudar manuscritos de civilizações extintas conquistadas pelo Imperador, que o enxergava como um bárbaro, ao contrário de Adisa, que o vê como um deus benevolente. “Não há verdade absoluta”, parece dizer Beraldo em seu texto, que também aborda na obra a velha máxima de que “os vencedores escrevem a história.”

Ainda no núcleo de Adisa, Beraldo encontrou espaço para falar de censura. Partindo da crença de que o conhecimento do nome verdadeiro de alguém – seu nome de batismo – dá aos seus inimigos poder sobre ele (como em Gênese), o autor justifica o trabalho principal de Adisa: apagar quaisquer menções ao nome do Imperador nos manuscritos que estuda, sutilmente apontando para o domínio do clérigo sobre as informações, e sua promoção de desinformação manipulativa.

Adisa vai tendo sua fé posta em cheque por Surna, uma serviçal herege que o salva de uma enrascada. Os debates entre eles criam um interessante conflito de crenças, que servem como provação ao sacerdote e sua fidelidade ao Imperador, conforme Surna vai plantando dúvidas em sua mente quanto à verdadeira realidade fora da capital do Império.

A importância de Adisa na trama vai crescendo conforme descobrimos quão essencial é seu papel na manutenção do Império. Igualmente interessante é ver seus conflitos internos se intensificando conforme ele se aproxima do Imperador, e descobre mais sobre o deus-vivo e a fragilidade de sua fé, que sustenta todo o Império. Beraldo soube trabalhar muito bem tais conflitos, tornando os capítulos focados em Adisa, que são mais reflexivos, tão envolventes quanto aqueles centrados em torno de personagens fisicamente mais ativos, como é o caso dos outros.

Através de Zaim Adoud, governador de Abechét, temos acesso ao aspecto mais político da história. Seu pragmatismo militar e sua ambição logo o tornam um personagem respeitável e temível. É em seu núcleo que Beraldo tece críticas pontuais a algumas formas de governo:

“Era como uma versão miniatura da vida política em Abechét. Você tomava algo que não lhe pertencia, mascarava as falhas, abusava do que lhe fosse útil e, um dia, outro predador faria o mesmo com você.” – página 34

Um ótimo exemplo da capacidade de Beraldo aumentar o envolvimento do leitor com seus personagens ocorre num dos capítulos centrados em Zaim Adoud, quando ele recebe a visita inesperada de um primogênito do Imperador. Neste trecho o diálogo que ocorre entre eles é usado para expôr o peso das responsabilidades sentido pelo líder militar, em sua luta para manter-se fiel ao seu superior hierárquico, ao mesmo tempo que o critica por sua negligência aos domínios distantes da capital do Império. O embate verbal entre eles revela muito das preocupações e motivações de Adoud, sem o emprego de uma narração em primeira pessoa, algo admirável num escritor. Beraldo ainda aproveita este acontecimento para demonstrar a capacidade de Adoud empregar uma estratégia política e militar diante de um inimigo fisicamente mais poderoso, manipulando a seu favor os problemas que o primogênito lhe apresenta. Mais adiante no livro ele ainda exibe com desenvoltura as ações de Adoud para começar a exploração da Floresta de Kwindago, conseguindo coordenar vários grupos de diferentes classes e interesses em prol de um objetivo comum, aumentando ainda mais nosso respeito por ele.

É na Costa Livre, território de Myambe não dominado pelo Imperador, que o leitor reencontra Rais Kasim, já na casa dos quarenta anos, agora líder de um grupo de mercenários. Chama atenção a curiosa inversão que Beraldo faz, ao tornar os companheiros de Kasim, todos caucasianos, vítimas do preconceito dos habitantes de Myambe, e subordinados a um líder negro. Através de Kasim, Beraldo abordou um dos grandes problemas sociais dos países africanos: o sequestro e o recrutamento de crianças como soldados de governantes inescrupulosos, que não hesitam em fazer lavagem cerebral nos infantes a fim de lutarem por suas causas sem questionar.

Entre os companheiros de Kasim, quem mais se destaca é Inessa, que além de ser branca, tem os cabelos loiros, e poderes mágicos, o que a torna um alvo maior de preconceito. Por meio da personagem Beraldo tece comentários nada velados sobre a discriminação das mulheres, e reforça o respeito merecido por elas. Apesar de todos os terríveis traumas que vivenciou, Inessa é uma mulher segura de si, poderosa e temível. Embora use sua feminilidade como instrumento contra seus adversários, Inessa também tem seus momentos mais dramáticos, quando expõe seus sentimentos ao reconhecer-se diante de um companheiro capaz de entendê-los. Um de seus melhores momentos acontece durante sua missão com Kasim, quando se infiltram numa vila de miseráveis na periferia de Abechét, e salvam uma menina de estupradores. Ali, ambos encaram seus traumas, pois foram vítimas de abuso na infância. É um dos trechos mais poderosos do livro.

Mukhtar Marid é o líder dos rebeldes, e a quarta “peça” do “jogo de tabuleiro” armado por Beraldo (algo que é literalmente representado por Zaim Adoud em seu quartel general). Com Mukhtar o autor explora parte das superstições de Myambe. É interessante observar que, apesar da selvageria e violência que ele e os rebeldes perpetram, sua crença religiosa os impede de matar uma oráculo, com medo da ira de seu espírito, mesma crença que os faz levar consigo o coração dos companheiros mortos, a fim de enterrá-los em suas terras natais para que seus espíritos encontrem paz no pós-vida. Esse contraste é muito bem transmitido pelo texto de Beraldo.

Um ponto a ser destacado na escrita do autor é seu cuidado na concepção dos personagens. Até mesmo os que normalmente receberiam um tratamento mais “superficial” e bidimensional transparecem, em atitudes e diálogos, alguma personalidade, ao invés de serem meros peões ou artifícios funcionais a serviço do autor. Isto é incomum em obras de fantasia, e louvável quando ocorre.

Outro detalhe elogiável é a mistura de elementos sobrenaturais, como o interrogatório do espírito de um criminoso morto, e problemas sócio-políticos reais, como o surgimento de favelas sem planejamento nas periferias de grandes cidades, que é feita de forma exemplar. Tudo soa orgânico no contexto social, histórico e cultural imaginado por Beraldo, indicando um cuidadoso estudo anterior à composição da obra.

A maneira como Beraldo vai trafegando de um ponto a outro de Myambe, a fim de nos inteirar do cenário através dos quatro personagens principais, é digno de nota. Seus conflitos políticos e religiosos refletem outros que conhecemos de nosso mundo, formando uma alegoria inteligente e bem arquitetada por palavras escritas com precisão e segurança. E ele soube conduzir tudo de maneira natural, tornando os cruzamentos das tramas inevitáveis, e nosso interesse por elas cada vez maior, sem torná-las dependentes de grandes acontecimentos, mas sustentado-as com personagens bem construídos e desenvolvidos.

Mukhtar, Adisa, Rais e Adoud reunidos diante da máscara do Imperador

Mukhtar, Adisa, Rais e Adoud reunidos diante da máscara do Imperador

Na metade do livro, já fica bem claro o modo como as quatro tramas principais irão se entrelaçar em conflitos físicos e ideológicos, envolvendo diferentes crenças e motivações. Assim, temos Kasim diante da chance de atender ao “chamado do destino” e tornar-se um “salvador”; Mukhtar, um homem devoto e disposto a arriscar sua vida por suas crenças; Adisa, um jovem sacerdote, envolvido em conflitos internos e prestes a ser o pivô de um conflito externo que ainda é incapaz de compreender em sua totalidade; e Zaim Adoud, um líder disposto a provar seu valor e o da região que governa, mesmo que, para isto, precise defender segredos que não entende, e que podem levá-lo a um conflito direto com todos os demais personagens.

Do descrito acima, dá pra deduzir que há muitos confrontos físicos também, os quais Beraldo é hábil em narrar. Todos os embates são empolgantes e variados, partindo da guerra entre rebeldes e tropas imperiais que abre o livro, passando por ataques furtivos e embates contra monstros, até confrontos contra guerreiros capazes de feitos inumanos com o uso de poderes “divinos.” Destaque para a batalha contra um primogênito do Imperador mais próxima do final, uma das mais tensas e emocionantes do livro, que é quase inteiramente silenciosa, muito bem descrita e “coreografada” por Beraldo, envolvendo várias frentes que se alternam por toda a sua duração. Mas o autor também soube conduzir os momentos de calmaria. Nestes ocorrem os confrontos de egos, como os embates verbais entre Adoud e o primogênito, ou entre Kasim e Mukhtar, que mantém o desenrolar da história interessante e envolvente.

A divindade do Imperador e seus guerreiros é apenas um dos muitos mistérios do Império de Diamante. Num mundo ainda não totalmente explorado, há espaço para muitos outros. A real origem do Imperador é um deles. E parte da resposta reside nas enigmáticas ruínas da Floresta de Kwindago, que Zaim Adoud é incumbido de proteger. Essa amplitude geográfica da obra torna a trama instigante para o leitor, que ainda tem sua curiosidade atiçada por rumores de outras criaturas perigosas vivendo perto das ruínas, e evidências de povos perdidos e culturas desconhecidas. Claro que o mapa de Myambe no início do livro também convida-nos a continuar lendo para desvendar todos os domínios ali indicados.

Resumindo, em Império de Diamante, J.M. Beraldo nos conduz por cidades paradisíacas e desertos escaldantes, por templos ancestrais encrustados em florestas densas, e mistérios milenares sobre pactos entre homens e deuses, enquanto nos apresenta à miséria e a riqueza de vários povos, suas crenças e culturas distintas. É um mundo vasto o de Myambe, e este primeiro volume da série Reinos Eternos instiga o leitor a continuar de olho nas próximas incursões de Beraldo a este universo fantástico. Já estou ansioso pela próxima viagem.


nota-4


Em agosto Império de Diamante ganhou uma versão impressa publicada pela editora Draco, após lançá-lo no início do ano no formato e-book. Além da bela arte de capa feita por Frank William, as páginas são de gramatura alta, que tornaram o livro mais resistente e vistoso. Infelizmente a revisão do texto deixou um pouco a desejar, pois encontrei alguns erros de digitação que seriam evitáveis caso feita com maior atenção (tem um deles logo na primeira linha de um capítulo!). Apenas por isto não dei nota máxima para esta edição.


imperio de diamante j m beraldo editora dracoEditora Draco

14 cm x 21 cm

312 páginas

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