[LIVRO] “História Zero” de William Gibson (resenha)

historia zero william gibson collection

Hollis está em busca do designer de uma jaqueta de marca misteriosa. Enquanto isto, Milgrim tenta descobrir quem desenhou uma calça para militares norte-americanos. Ambos trabalham para o ambicioso empresário Hubertus Bigend, neste thriller sobre a indústria da moda, marketing e espionagem industrial escrito por William Gibson.

Se a breve descrição acima despertou sua curiosidade, por mais estranha que ela pareça, significa que consegui transmitir parte da essência de História Zero, terceira e última parte da Trilogia Blue Ant, publicada no Brasil, assim como os dois livros anteriores, pela editora Aleph.

Num primeiro instante pode soar um tanto… peculiar que o mesmo William Gibson que concebeu Neuromancer, tenha se interessado em explorar a fundo o universo da moda. Porém, conforme avançamos na leitura de História Zero, as pretensões do “pai do cyberpunk” se tornam mais claras, especialmente quando se descobre a ligação entre as ações de Hollis, Milgrim e Hubertus com a vertente da indústria responsável por desenhar e confeccionar uniformes militares para os Estados Unidos. Mas estou me adiantando aqui. Antes que tal informação chegue ao leitor, há um bocado de outras peculiaridades na trama imaginada por Gibson que merecem nossa atenção.

A surrealidade da indústria da moda

historia zero gabriel hounds logo

Ler História Zero chega a ser surreal em vários momentos. Um exemplo disto podemos encontrar logo no início, no capítulo em que a equipe de especialistas a serviço de Bigend examina as cópias fotográficas que Milgrim fez da calça que, supostamente, é o protótipo de um modelo desenhado para o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Todo o trecho é escrito por Gibson como se a equipe estivesse estudando a planta baixa de alguma base inimiga que pretende invadir. Com exceção dos termos técnicos de moda e costura usados, a forma como ele descreve as ações e reações lembram o ambiente de um quartel-general de alguma organização secreta especializada em espionagem. Esta é parte da estratégia usada por Gibson para nos deixar curiosos sobre algo que muitos de nós não entendemos em profundidade. Seu texto desperta nosso interesse por uma jaqueta ou uma calça pela maneira meticulosa como são descritas, usando termos que desconhecemos que dão a elas um aspecto meio alienígena.

historia zero cabinet club

Essa “alienação” também ocorre nas descrições de objetos e cenários cotidianos, o que faz de História Zero uma reinterpretação da realidade contemporânea, gerando momentos de subjetividade quase poética e surreal, que, por sua vez, faz parte do estilo característico de Gibson. E embora desperte estranheza em vários pontos do texto, em outros o autor exibe uma visão bastante acurada do mundo em que vivemos atualmente, como comprova o trecho abaixo:

historia zero camera de vigilancia[Milgrim] Lembrou-se de Bigend dizendo que [as câmeras] eram o sintoma de uma doença autoimune, os mecanismos protetores do estado ficando bombados e crescendo até se tornarem ativamente destrutivos, crônicos; olhos vigilantes que erodiam a saúde daquilo que ostensivamente protegiam.

E mesmo que um dos temas do livro seja os bastidores da indústria da moda, Gibson escreveu sobre o assunto de uma forma intrigante e misteriosa. As conversas a respeito da carreira de Meredith, por exemplo, uma ex-modelo que virou designer de sapatos, não soam enfadonhas, mas bem envolventes, pois seguem o fluxo constante de informações já estabelecido anteriormente pelo autor através da exploração do mundo que apresenta a nós através de seus personagens. Desse modo, ele consegue despertar nossa vontade de entender mais a respeito do assunto.

historia zero jacket koreanHá ainda um debate bem interessante e pertinente sobre a qualidade dos produtos atuais e a dos produtos manufaturados do início do século passado, e o quanto os primeiros são inferiores quando comparados aos últimos. Isto é levantado pelo(a) misterioso(a) designer da Gabriel Hounds, a marca misteriosa que representa o exato oposto do marketing de guerrilha usado por Bigend na Blue Ant. Enquanto ele faz o possível para que seu produto seja, ao mesmo tempo, conhecido e exclusivo, o(a) criador(a) da Gabriel Hounds preza pela qualidade rara e pouco conhecida que oferece, a qual não depende de nenhuma publicidade, e o máximo possível de discrição, o que é justa e paradoxalmente o aspecto que atrai a curiosidade de Bigend.

Outro tema interessante é a teoria de que grande parte das roupas masculinas de hoje descendem dos desenhos militares dos EUA, o que fez Bigend querer explorar tal mercado, que ele considera a base de toda a indústria de moda masculina ocidental.

Em meio a todo esse universo de designs de roupas, Gibson usa sua já conhecida e acentuada capacidade de mergulhar o leitor num universo de muita “riqueza sensorial”, que por vezes atordoa pelo detalhamento com que descreve o ambiente que cerca seus protagonistas. E isto não é um demérito, mas um aspecto da narrativa que torna a surrealidade daquele universo ficcional mais imersiva.

O elenco

historia zero hollis henry by lorenzo ceccottiUma coisa é certa: 25 anos depois de Neuromancer, William Gibson evoluiu muito como criador e desenvolvedor de personagens. Os de História Zero são mais autênticos e relacionáveis, no lugar de meras marionetes da narrativa, como ocorria com o elenco de seu romance de estreia.

No começo chama atenção as poucas características físicas que ele descreve de Hollis e Milgrim, cujo motivo fica mais claro ao avançamos na leitura: todo o livro é contato, alternadamente, sob os pontos de vista de Hollis e Milgrim. Essa estrutura metódica de distribuição dos capítulos acaba ajudando a dar à obra um ritmo que não cansa, justamente por Gibson não se demorar tanto em um núcleo de personagens em detrimento de outro.

A dinâmica entre Milgrim e Hollis é tão peculiar quanto interessante de acompanhar, pois a dupla se entende muito bem, apesar de terem personalidades muito diferentes. Enquanto ele é pura lógica e raciocínio levemente paranoico, ela é mais instintiva e emocional. Ambos se complementam, dando um equilíbrio agradável à interação deles.

Hollis, a ex-roqueira e jornalista, é uma personagem muito legal e carismática. É o tipo de mulher que você gostaria de ter como amiga, pela forma como ela trata as pessoas no hotel onde está; tenta endireitar sua amiga maluca, que acabou de terminar um casamento; ou buscar informações sobre seu ex-namorado, que sofreu um acidente grave.

“Ele parecia genuinamente calmo, amigável, mas também singularmente alerta, de um jeito torto, como se houvesse mais alguma coisa despontando pelos cantos, ligeira e periférica.” – impressões de Hollis sobre Milgrim.

historia zero milgrim by lorenzo ceccottiMas quem se destaca é mesmo Milgrim, que não demora a conquistar nossa simpatia com seu jeito meio largadão e zen, sua história tragicômica, e seus rompantes de paranoia. Por ser um ex-viciado em calmantes, ele sofre algumas recaídas, com picos de ansiedade, que Gibson conseguiu captar com muita vivacidade em seu texto. Milgrim parece uma criança assustada, o que faz dele o personagem mais ingênuo de História Zero. Ele é mais protagonista do que Hollis, estando envolvido na maior parte da trama, embora sem saber ao certo no que está envolvido. Os capítulos estrelados por Milgrim são os de maior fôlego. Dá pra lê-los num só repente.

Além disto, são as interações de Milgrim com outros personagens que rendem as passagens mais divertidas de História Zero. Por exemplo, a primeira conversa que ele tem com a Agente Especial Winnie Tung Whitaker – outra figuraça criada por Gibson – chega a ser tão surreal que parece saída de um filme do Wes Anderson. O humor meio torto que sublinha todo o diálogo, e a forma quase trivial como ela o convence a ser seu informante sem que ele sequer note isto até ser tarde demais, quase como uma atendente de telemarketing levando um cliente a contratar um serviço sem ter pedido por ele e sequer concordado em aceitá-lo, é um dos melhores momentos de Gibson no livro. Enquanto Milgrim é “relaxadão” e meio indiferente a tudo, Winnie age de maneira fofa, e parece sempre movida a base de cafeína. E por ambos se comunicarem por frases curtas, isto dá um ritmo muito dinâmico aos seus diálogos. Muito gostoso de acompanhar.

Também é graças à presença de Milgrim que Gibson oferece ao leitor uma das melhores metáforas que alguém já criou para explicar como funciona um vício, seja ele de qual tipo for. Merece ser compartilhada:

Vícios começavam como bichinhos de estimação mágicos, monstros de bolso. […] Faziam truques extraordinários, mostravam-lhe coisas que você não tinha visto, eram engraçados. Mas acabavam, por meio de alguma gradual alquimia maligna, tomando decisões por você. No fim, estariam tomando as decisões mais cruciais da sua vida. E eles eram […] menos inteligentes que peixinhos dourados.

Também desperta curiosidade (talvez só em quem não leu os livros anteriores), a forma respeitosa e atenciosa como Bigend trata e conversa com Milgrim. Claro que há todo um interesse por trás desse tratamento, mas não deixa de tornar Bigend uma figura enigmática e fascinante, dadas as participações anteriores dele.

historia zero hubertus bigend klein blue suitE já que mencionei o dono da Blue Ant, devo dizer que, mesmo para quem não leu os dois livros anteriores da Trilogia Blue Ant, Gibson fez um ótimo trabalho de caracterização de Hubertus Bigend, que consegue fascinar o leitor tanto quanto ele fascina Hollis quando ela o encontra no restaurante do hotel onde está hospedada. Tudo é feito por meio da descrição de suas roupas, penteado, gestual, e da maneira como ele devora seu café da manhã enquanto a convence de aceitar um trabalho dele. É como se a proposta fosse tão irresistível quanto o alimento que ele ingere com voracidade quase animal.

Aliás, um fato recorrente em História Zero são as interações do elenco que ocorrem durante refeições (café da manhã, almoço ou jantar). Gibson parece sugerir que os personagens se expõem mais uns aos outros enquanto se alimentam.

Outra peculiaridade do texto de Gibson é o modo como ele escreve sobre os relacionamentos humanos de um ponto de vista quase alienígena. É como se alguém que não entendesse muito bem o que está testemunhando descrevesse o ato sem saber ao certo do que se trata. Isto tanto cria um distanciamento entre o narrador e seus personagens, como tem um efeito cômico, quando entendemos o que exatamente ele está descrevendo. Um exemplo:

A maioria dos animais, [Garreth] disse a [Hollis] com aparente seriedade, preferia parceiros simétricos – o que funciona como uma espécie de linha de corte da natureza -, e que ele entenderia se ela sentisse a mesma coisa. Ela respondeu que, em sua opinião, a linha de corte eram homens que não soassem como completos idiotas, e o beijou. Depois disso, mais beijos, muito mais coisas, risos, algumas lágrimas, mais risos.

E se em Neuromancer havia Molly, uma “samurai urbana”, aqui temos duas mulheres que podemos considerar ninjas: Heidi e seus dardos, e Fiona e sua moto, sempre aparecendo para resgatar Milgrim e Hollis, o “príncipe” e a “princesa” em apuros, o que comprova que Gibson gosta mesmo de personagens femininas fortes e destemidas.

Espionagem industrial e as “altas aventuras” de Milgrim e Hollis

historia zero hollis desktop

Sem dúvida o que torna História Zero uma leitura divertida é toda a paranoia de Milgrim, que contagia Hollis, e faz da história uma curiosa trama de espionagem, com direito a escutas, agentes duplos, conspiração de forças desconhecidas, e perseguições pelas ruas de Londres e Paris.

No início tudo parece ter mais relação com o rebote enfrentado por Milgrim, efeito colateral similar às crises de abstinência sofridas por ex-viciados em cocaína, por exemplo, que pode levar algumas pessoas a cometer suicídio. Em História Zero a abordagem é mais leve, com o intuito de preservar o ritmo mais frenético da narrativa. Toda a minúcia com que Gibson descreve as ações de Milgrim transmite ao leitor sua paranoia, como se tudo ao redor dele pudesse revelar-se importante em algum momento do futuro, embora na maioria das vezes não seja este o caso. Há um ritmo metódico e “staccato” nas descrições dos capítulos estrelados por Milgrim, que difere do ritmo mais “ondulante” e fluído dos capítulos de Hollis.

Entre uma interação e outra da dupla com os outros personagens, Gibson pontua o livro com passagens enigmáticas que retomam a atmosfera levemente paranoica e inquietante de um filme de espionagem. O que no início soa mais como um toque de surrealidade, torna-se mais concreto conforme alguns mistérios são desvendados, e descobrimos que há uma ameaça real por trás das perseguições sofridas pela dupla principal. Mas a natureza dessa ameaça só é esclarecida na metade do livro, gerando o conflito principal da trama dali pra frente.

A segunda metade de História Zero é mais movimentada, e Gibson soube imprimir muito bem esse ritmo mais frenético à narrativa. Neste aspecto é evidente a evolução do autor, quando comparamos este com seu trabalho em Neuromancer. A sequência da perseguição ao carro que está levando Hollis e Milgrim é bem escrita e dinâmica, assim como o capítulo em que Hollis anda na garupa da moto de Fiona. Gibson conseguiu transmitir ao leitor a confusão provocada pela velocidade e adrenalina.

Não esse tanto de adrenalina...

Não esse tanto de adrenalina…

E é depois da sequência dos capítulos focados nessa perseguição a Hollis, Milgrim e Heidi pelas ruas de Londres que a trama dá uma desacelerada, e começa a preparar o leitor e os demais personagens para uma operação final contra os perseguidores, coordenada por Garreth, ex-namorado de Hollis. Aqui foi onde começaram os problemas de História Zero

O terço final do livro é um tanto maçante e desinteressante. Gibson fez parte de seus personagens falarem através de enigmas que, no lugar de despertar nossa curiosidade, acabaram nos afastando um pouco da realidade apresentada pela trama.

Já a operação em si, quando finalmente ocorre, sofre de um problema semelhante ao clímax de Neuromancer. O texto de Gibson parece meio corrido e um tanto confuso, o que comprova que, mesmo passados 25 anos desde seu primeiro livro (só lembrando que História Zero é de 2010, apesar de ter saído no Brasil este ano), o autor ainda não aprendeu a escrever sequências de ação mais elaboradas sem causar confusão em seus leitores, que aqui penso não ter sido proposital.

Não fossem os problemas de ritmo de seu último ato, História Zero seria um livro bem melhor. Infelizmente William Gibson pecou ao preparar demais um clímax que fica longe de empolgar o leitor…

Ainda assim, é uma leitura que recomendo, pelo divertimento e conhecimento que ela oferece de um universo com o qual poucos de nós temos afinidade. A indústria da moda pode ser tão interessante quanto um filme de espionagem, e William Gibson consegue nos convencer disto durante a maior parte de História Zero.

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nota-4Tradução: Fábio Fernandes
Edição:
Ano: 2015
Número de páginas: 504
Acabamento: Brochura
Formato: 14x21cm

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