[LIVRO] Herói: Chamado (trecho da obra)

O Chamado – Maio de 2013

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Penumbra.

O quarto estava de tal modo mergulhado nas sombras cor de griz que todos os objetos nele contidos pareciam ter sido esculpidos em rocha, cinza, em tons diferentes de imobilidade.

Também a imobilidade e o silêncio quase absoluto da cena serviam para montar aquela composição pétrea. Os corpos abandonados sobre a cama pareciam não ter vida, mergulhados entre lençóis e almofadas brilhosas, como dois sacos de batatas jogados ao chão; sem movimento e sem graça nenhuma.

Subitamente, a imobilidade da cena é quebrada por um despertar violento, daqueles que se seguem aos pesadelos mais medonhos.

O rapaz acordou tonto, tentando localizar-se no tempo e espaço. Apertou os olhos, numa tentativa de otimizar a visão no ambiente pouco iluminado. Já sentado na cama, observou o cômodo; estavam nele a desconhecida que dormia pesadamente a seu lado em um quarto ordinariamente decorado. Cortinas brilhosas, tapetes felpudos e velhos, uma “arara” para pendurar roupas completamente enferrujada, quadros medonhos retratando naturezas-mortas malfeitas e uma mesinha de cabeceira feita de compensado bem ao lado da cama redonda onde eles estavam.

“Mas que porra…” pensou o rapaz, que agora tomava cuidado extremo para que o som de sua respiração não pudesse acordar a acompanhante adormecida.

Foi só quando olhou para o teto recoberto por um espelho, também redondo em consonância com a cama, que Ariel se deu conta de que estava em um dos motéis de beira de estrada para os quais costumava levar as mulheres com quem saía.

Feita esta constatação, o rapaz sentiu correr-lhe um calafrio por todo o corpo. Estudou as feições da moça que roncava ainda profundamente adormecida e a visão que teve fez a sensação de mal estar aumentar exponencialmente.

“Acho que dessa vez exagerei de verdade na Vodka”, pensou Ariel, enquanto uma náusea dolorida parecia comprimir-lhe o abdômen. Estava acostumado a beber quantidades consideráveis de álcool em uma noitada. Também não era incomum que acordasse acompanhado por uma estranha qualquer em algum motel barato.

No entanto, pela primeira vez em muito tempo, o rapaz sentia o amargo sabor da ressaca da bebida destilada. Pela primeira vez em muito tempo também, o rapaz tinha como companhia uma mulher, digamos, não tão privilegiada no quesito beleza. Para descrever com maior precisão, a estranha que dividia o leito com o ex-policial era, com o perdão da palavra, uma verdadeira “baranga”. E das mais caprichadas.

“Valha-me, São Jorge!”, pensou o rapaz, estudando a aparência de sua parceira de noitada. Ariel sentiu urgência em desaparecer dali, além de prometer a si mesmo mentalmente que jamais tornaria a beber daquela forma.

Tudo bem que o álcool arrancasse sua memória, destruísse seu fígado, agredisse hediondamente seu estômago. Este era o preço justo que se pagava pela alegria tão imediata proveniente da embriaguez. O que Ariel não podia aceitar era que o álcool, tão considerado companheiro das noites e madrugadas, fosse capaz de lhe tirar a completa noção de bom gosto no momento da sedução.

Solteiro convicto, o rapaz aprendera cedo que tinha facilidade em chamar a atenção feminina, onde quer que fosse. Desde os primeiros anos de puberdade experimentara o sucesso com o sexo oposto, de forma que podia assumir uma postura mais seletiva ao escolher suas parceiras. Assim, o ex-policial estava acompanhado de belas moças, mulheres atraentes, sem nome e de personalidade nula. Uma a cada dia. Não raro, mais de uma por dia.

Desta forma, ao olhar a mulher deitada na cama, despida, descabelada e dolorosamente feia, Ariel espantou-se.

Prendendo a respiração ao ponto de sentir o coração falhar o ritmo, Ariel levantou-se da cama tão lentamente quanto pôde. Já de pé, buscou as roupas na escuridão, chegando a quase vestir a blusa feminina, que como a sua, era negra. Tentando não se atrapalhar ainda mais, pescou as próprias roupas de maneira célere, movendo os olhos a todo momento para ter certeza de que o dragão adormecido não despertaria. Vestiu-se o mais rápido que pôde, enfiou os pés nos coturnos desajeitadamente e, ainda no mais absoluto silêncio, vasculhou os bolsos de sua calça jeans à caça de dinheiro.

Uma vez com o dinheiro nas mãos, intentava deixá-lo em cima da mesinha de cabeceira, a fim de pagar a conta do motel, e para que a moça pudesse pegar um táxi – afinal de contas, era um cafajeste, mas não um caloteiro.

Quando fez menção de deixar as notas sobre a mesa (porque era de fato um cafajeste, a ponto de deixar a moça ali sozinha sem maiores explicações, mas não um safado que deixasse uma mulher pagar suas contas), a mulher moveu-se na cama, como se estivesse prestes a acordar.

Nenhum solteiro convicto consegue se manter solteiro sem ter para isso muito talento e habilidade, além de uma boa dose de cara-de-pau.

Ao ver que a mulher horrivelmente feia estava de fato acordando lentamente do sono torpe e cheio de roncos barulhentos, o jovem não pensou duas vezes: largou o dinheiro em qualquer lugar – literalmente abrindo a mão e deixando as notas caírem livremente em qualquer lugar – apanhou a chave, destrancou a porta e abandonou-se à sua imaturidade e falta de bom senso, iniciando uma fuga ridícula, correndo como um moleque, com os coturnos desamarrados e as calças parcialmente fechadas, pelo pátio do motel.

Com a agilidade de um felino, saltou sobre a Shadow Negra, estacionada próxima ao quarto em que passara a noite, e arrancou para fora do motel. Os funcionários, já velhos conhecidos de Ariel, deixaram-no passar, sabendo que o dinheiro estaria no quarto, junto com alguma mulher revoltada. A única coisa estranha foi ver o ex-policial sair daquela forma desembestada, como quem foge de um monstro lovecraftiano.

Alguns quilômetros e algumas ondas de adrenalina depois, Ariel estacionou a Shadow próxima a uma loja de conveniências. Precisava parar para respirar, para recuperar-se do susto, para comer ou beber qualquer coisa que lhe amortizasse o mal-estar. Precisava também recompor-se, amarrar os coturnos, lavar o rosto, e, é claro, fechar o zíper da calça.

E mais que isso tudo, precisava parar porque seu celular berrava, e aquela ligação não poderia ser rejeitada.

– Alô? – atendeu Ariel. A voz normalmente grave saiu rouca. Era sua primeira palavra naquele dia já tão agitado.
– Lamarca? – do outro lado da linha, a voz de Adrian soou mais enérgica que de costume.
– Bom dia, Doutor. Tudo bem? – Ariel sabia que um telefonema do amigo àquela hora e em dia de folga só podia ter relação com algum trabalho extra.
– Lamarca, estou precisando de uma ajuda sua. É um assunto delicado. Será que você teria tempo hoje? – perguntou o homem, que apesar de amigo íntimo de Ariel, preferia chamá-lo pelo sobrenome. Aliás, o próprio Ariel preferia ser chamado de Lamarca, implantando essa alcunha onde chegasse.
– Claro que tenho. Onde te encontro?
– Onde mais? No lugar de sempre.

***

Continua…

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