[LIVRO] Herdeiros de Atlântida – parte I – Arranhando o tecido da realidade

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O cenário da literatura nacional contemporânea, na última década, tem-se virado fortemente para o gênero da fantasia. Não é raro que encontremos nas livrarias autores que, fugindo ao clássico gosto literário ou ao realismo intimista dos autores brasileiros, ousam em falar de fadas, vampiros, zumbis, espíritos, batalhas épicas, mundos distantes e universos paralelos, envolvendo em suas páginas coloridas das nuanças estonteantes do inimaginável, assuntos transcendentais, lendários, metafísicos, etc.

E graças a esse movimento, ou devo dizer, graças a um abalo fortíssimo no denso tecido da realidade, pudemos ter a oportunidade de nos deleitar com as escrituras (quase sagradas) do autor carioca Eduardo Spohr (@eduardospohr), que não indiferente às distorções da membrana, decidiu falar de um universo à parte, mas totalmente nosso. Um universo do qual somos e não somos integrantes: o SPOHRVERSO.

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Com influências diversas do universo nerd, jogos de RPG e com uma boa dose de criatividade (bota criatividade nisso), Eduardo Spohr criou o que já existia (será?), organizando em palavras os mistérios mais profundos das intrigas e manobras políticas que permeiam os céus acima de nós e as castas angelicais. Batalhas épicas, cenas inacreditáveis, personagens profundos, núcleos que se entrelaçam para dar sentido a questões difíceis, manobras de massas… Tudo isso dentro de um universo espiritual capaz de englobar tudo sem gerar conflitos entre as diversidades de crenças.

O primeiro livro a ser lançado por Spohr foi o best-seller A Batalha do Apocalipse, tão profundo em seu enredo e tão complexo em sua trama, que foi capaz de conquistar milhares de leitores muito antes de atrair os olhos perdidos das editoras, como pode se comprovado nesta matéria d’O Globo (a garota tirando foto com o Spohr sou eu 😀 ).

Em 2011, nós leitores fomos agraciados com o primeiro livro de uma trilogia pertencente ao mesmo universo, mas independente d’A Batalha do Apocalipse. A Trilogia “Filhos do Éden” nasceu com o livro Herdeiros de Atlântida e, agora, no ano de 2013 teve continuação com Anjos da Morte.

O terceiro livro ainda está por vir. Mas enquanto nosso caríssimo Spohr não termina a trilogia, falemos um pouco desse mundo novo e ao mesmo tempo tão nosso, e tão complexo que nos faz perder a linha do pensamento em um vórtice de fascinação.

Falemos, pois, do primeiro livro da trilogia angelical: Herdeiros de Atlântida.

Can’t take my eyes off you
(ouça aqui a versão do Muse)

Durante toda a trama somos embalados por uma antiga canção, muito conhecida e já regravada por muitas bandas. Com o hit “Can’t take my eyes off you”, Spohr nos faz entrar no ritmo de um enredo íntimo que tem um fechamento em si mesmo, mas que (como um duplipensamento) é aberto para uma ampla continuação.

A música costura o livro do início ao fim, parecendo encaixar-se perfeitamente tanto em momentos de ação extrema (ex: quando da narrativa do ataque à família Arsen), como no que quase pode ser considerado um momento de tensão romântica entre Denyel e Kaira.

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Gente, eu disse QUASE

Spohr, em seu próprio blog (Filosofia Nerd), afirma que a música não foi escolhida com um propósito definido. Mas é difícil não pensar numa razão, ainda que inconsciente, para a escolha desta canção tão adequada ao livro.

Mente em Branco

No início do romance somos apresentados a Rachel (belíssimo nome, diga-se de passagem), estudante da Universidade de Santa Helena, que vive uma vida independente de sua família…

Independente até demais, uma vez que Rachel não tem muitas lembranças de seu passado ou de momentos com seus familiares. A moça tenta aceitar aquela estranha relação de distanciamento como a configuração normal de sua família: Todos fechados em sua própria vida, mas sem deixar de serem os Arsen (sobrenome da garota).

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Outra curiosidade que Spohr nos atira logo no momento em que conhecemos Rachel é o fato de a jovem ter estranhos sonhos, nos quais fica face a face com uma garotinha que flutua sobre seu corpo, parece lhe pedir socorro e está atada à jovem estudante por uma espécie de fio de prata.

Não quero dar spoilers, mas poderíamos, com relação à essa memória entrecortada de Rachel, fazer uma ligação com o filme Blade Runner, no qual a personagem também chamada Rachel tem a mente programada com memórias irreais.

O mesmo parece ter ocorrido a Rachel Arsen? Mas com que razão?

Por que Rachel Arsen teria tido memórias implantadas e talvez até trocadas?

Bem, para saber o melhor é ler o LIVRO.

A Jornada Do Anti-Herói – Denyel

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Tudo errado!

Se ao ler Herdeiros de Atlântida, cientes de que o livro trata do universo dos anjos, da natureza de suas castas e suas características, ficamos surpresos ao dar de cara com Denyel. Exatamente na página 95, nos deparamos com um sujeito mal encarado, com cara de durão, irônico, de caráter duvidoso, insensível e zombeteiro, trajando roupas surradas e morando num bunker lotado de armas e bebidas.

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Sim… Este é o herói, o co-protagonista de nossa história. Um querubim que muito pouco nos remete a um anjo no sentido tradicional da palavra. Muito menos ao herói clássico, o paladino, aquele que tem a vontade e o dever de servir e proteger, custe o que custar.

Designado a ficar na terra (e nela permanecer) por tempo indeterminado, o querubim Denyel acabou por absorver os vícios e características sórdidas do ser humano.

O resultado disso foi a formação de um anjo que barganha a vida de uma arconte por anistia, parece importar-se mais com sua bela moto do que consigo mesmo, não cumpre ordens, “dirige rápido, mantém-se bêbado e nunca dispensa uma boa briga”. Estranho personagem… Mas inegavelmente encantador o bastante para fazer com que nós leitores fiquemos desesperados por mais de suas desventuras nas aventuras vindouras escritas por Spohr.

Assim, o que temos é um anjo torto, um verdadeiro tapa na cara da ideologia ocidental maniqueísta, em que bem e mal existem sozinhos, sem que haja um meio termo.

Aliás, esse dualismo bem/mal como razão única da essência humana é quebrada a todo momento por Eduardo Spohr em todos os livros. Mas falaremos mais extensamente sobre isso no futuro.

Faísca / Centelha Divina

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Perdida em sua existência angélica e mal situada em sua existência física, Kaira é a protagonista de Herdeiros de Atlântida (cargo devidamente dividido com Denyel).

A arconte de fogo, parafraseando o próprio Denyel, não passa de uma “criança” que nada entende de política, das guerras celestiais ou mesmo de sua própria natureza.

Kaira tem, na minha opinião, um significado especial e talvez maior do que a primeira camada de leitura pode sugerir. Ao contrário do querubim torto que a acompanha ao longo das páginas do citado tomo, Kaira amadurece a cada página, transformando seus problemas em soluções, ou, quando nada, mostrando que, mesmo tendo sido afetada mentalmente, guarda em si a essência poderosa de uma verdadeira Ishim, capaz de derrotar os mais duros inimigos.

Kaira faz a jornada do herói, sempre proclamada pelo autor, ao se sentir imprópria para viver naquele contexto (sua nova “vida”), negando sua missão e em seguida aceitando-a. Ao aceitar sua natureza e tentar entendê-la, a Arconte é capaz de se desenvolver de tal forma que muito pouco resta nela da menina ingênua do início da trama.

Mais uma vez, Spohr surpreende ao traçar uma cuidadosa trajetória de crescimento pessoal representado em Kaira. Crescimento esse que tem continuação em Anjos da Morte.

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Dirija rápido e Mantenha-se Bêbado

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O enredo de Os Herdeiros de Atlântida é bem diferente daquele que nos é apresentado em A Batalha do Apocalipse. Embora estejam dentro do mesmo universo, temos em ABdA uma viagem por momentos e lugares dos primórdios da civilização humana, e uma missão a ser cumprida pelo perfeito herói, o anjo Ablon, o primeiro General. Seus atos são decisivos para toda a conjectura desse universo fantástico.

Já em HdA o que temos é um microcosmo do que ocorre em ABdA. Não há neste primeiro livro da trilogia, a busca (direta) pela salvação da humanidade.

Enquanto em ABdA temos a construção de um enorme casarão, em Herdeiros temos a montagem de um cômodo deste casarão. Um cômodo indispensável, menor, mas indispensável.

Sendo um livro menos político e menos histórico, embora seja mais didático, temos em HdA uma saga que nos leva a percorrer o Brasil dos dias atuais em busca da solução para o problema de Kaira – até nisso Spohr mostra sua maestria, exibindo um microcosmo. Em a Batalha, conhecemos o mundo, o que está totalmente de acordo com seu enredo que é mais complexo.

Junto com Denyel, entre confusões e cenas de ação de tirar o fôlego literalmente (sim, eu prendo a respiração quando a cena é pesada), os dois anjos fazem uma longa e empolgante jornada para a resolução de uma peça do imenso quebra-cabeças universal.

O Primeiro Anjo

Colocado aqui como sentinela, o Primeiro Anjo, e também o mais poderoso de todos, é descrito como um sujeito de meia idade, robusto, de feições e modos muito rústicos, asas cor de areia e uma força incrível.

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Também designado a ficar na terra no início da civilização humana, o anjo se envolve com os mortais, formando família, passando a fazer parte de um povoado.

Quando convocado a retornar, nega-se. Pior, entra em conflito com forças superiores em nome da defesa da raça humana. Em consequência de sua rebeldia, tem sua família e aldeia destruídas.

Spohr não fala muito do Primeiro Anjo em Herdeiros de Atlântida, mas deixa pistas o bastante para termos certeza como leitores que ele será mais do que importante ao longo das muitas e muitas páginas dos três livros… Ele é essencial para o enredo e muito possivelmente para a raça humana.

Urakin e Levih

Componentes dos exércitos rebeldes e designados a encontrar Kaira, Levih e Urakin, respectivamente um ofanim e um querubim, aparecem em partes do livro, deixando uma marca indelével.

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Urakin, o querubim mal encarado, mas muito orgulhoso de sua honra e subordinação como guerreiro celestial toma menos espaço no quesito emocional, como personagem que cativa. No entanto, como que para compensar sua objetividade, o poderoso guerreiro protagoniza cenas de “porrada sincera” como diz o próprio Spohr. Contra qualquer um, o enorme anjo mostra-se extremamente eficiente, um combatente cujos golpes merecem uma releitura (cada um deles).

Levih, proveniente da casta dos ofanins, remonta o perfil dos anjos clássicos que conhecemos ou imaginamos. Levih é o protetor, o amigo, o anjo de luz que jamais se envolverá em violência, que dará os conselhos sinceros e justos, que falará com cuidado, que usará compaixão e até mesmo suas potestades para gerar nas pessoas e entidades a sua volta uma empatia, quase uma amizade, poupando-o de usar violência. Até porque, mesmo que precisasse, Levih jamais usaria violência.

Guardei, pessoalmente, uma enorme simpatia pelo ofanim, tendo em conta sua personalidade doce e amistosa. Levo em conta também o papel preponderante que o anjo tem no livro e que só os mais atentos pescam…

E me pergunto agora se toda essa simpatia e carinho por esse personagem tão literalmente angelical não seria um truque dele…

Parece que até nisso Spohr soube mexer, fazendo com que boa parte dos leitores se afeiçoassem justamente ao anjo com poderes de causar simpatia em qualquer um.

Bela jogada, Spohr.

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Bem…

Essa foi a primeira parte de uma série que dedicarei aos livros de Eduardo Spohr. Aqui apenas arranhei o tecido da realidade, bem de leve. Não consegui sentir ainda seus abalos… Mas chegarei lá.

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Até a próxima.

Ficou interessado nos livros do Spohr? Compre-os nos links abaixo:

5 thoughts on “[LIVRO] Herdeiros de Atlântida – parte I – Arranhando o tecido da realidade

  1. Você abalou o meu tecido da realidade. Um ótimo livro, do tipo que você indica até ao seu inimigo, só para ver como ele reage. Meu encontro com a literatura do Spohr foi pelo meu irmão e como eu o agradeço, o Spohr me fez ver a possibilidade de poder ser escritora de fantasia no Brasil. Adorei seu post ^^.

  2. Comprei os Filhos do Éden faz dois dias, estava querendo ler esse livro desde o ano retrasado e confesso desde as primeiras páginas ter me apaixonado. Meus parabéns a este jovem tão talentoso e de profundos conhecimentos.

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