[LIVRO] H. P. Lovecraft: A Tumba e Outras Histórias

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Esse livro, em uma versão de bolso lançada pela L&PM em 2007, foi o meu primeiro contato com a obra de Lovecraft. Portanto, é também o que mais indico para neófitos. Trata-se de uma coletânea de contos e fragmentos, separados em 3 partes: “A Tumba e Outras Histórias”, “Primeiras Histórias” e “Fragmentos”.

Longe de qualquer pretensão em fazer algum tipo de crítica literária, resumirei e resenharei abaixo os contos presentes no livro. Espero que isso sirva para aguçar a curiosidade de quem ainda não teve nenhum contato com o universo de horror cósmico do autor.

Lovecraft escrevia bem. Dono de um estilo que se aproximava do barroco, sua escrita rebuscada lembra a de escritores de dois séculos antes do seu e causa até mesmo uma necessidade de adequação para leitores desavisados. Como é dito no documentário “Lovecraft, Medo do Desconhecido”, não só a escrita, como os ideais e toda a postural moral e cultural de Lovecraft são baseados em uma era anterior, que não era a dele. Foi um homem que nasceu no tempo errado. A literatura Lovecraftiana tem seus defeitos, (a repetição, o excesso de adjetivos) mas tirando os formalismos e análises puramente estruturais, o autor conseguiu algo que poucos conseguem: criar uma mitologia particular, um mundo imenso, cheio de criaturas com nomes impronunciáveis e de medos inimagináveis. Se hoje em dia ele não é mais conhecido a não ser por quem gosta do gênero, é porque a literatura de ficção é comumente considerada pelos acadêmicos como uma literatura menor, sem valor artístico/literário significante, o que está longe de ser a verdade.  

Sinopse da contracapa da edição: “Este volume reúne histórias exemplares dos variados estilos de narrativa que tornaram o escritor norte-americano H. P. Lovecraft (1890-1937) um dos autores cult mais apreciados em todo o mundo. De “A tumba”, um verdadeiro conto clássico de horror, a “Entre as paredes de Eryx”, uma história de ficção científica passada em Vênus, o leitor terá uma amostra do melhor da fantasia gótica, do flerte com o sobrenatural e com o oculto, de personagens que são jogados no coração da loucura. As horripilantes histórias de Lovecraft seduzem pelo crescente medo que inspiram e emergem, quase todas, num clímax surpreendente. O livro traz, também, fragmentos e alguns dos primeiros contos escritos pelo autor, durante a adolescência. Os conhecedores de Lovecrat ficarão impressionados com a precocidade do estilo – que consagraria o artista maduro – e o tratamento de temas que tornariam célebre a sua obra posterior. Para os fãs do gênero, uma razão para comemorar. Para os não-iniciados, uma ótima porta de entrada.”

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A Tumba e outras Histórias

  • A Tumba: Agora em um sanatório, Jarvas Dudley, outrora uma criança solitária e de imaginação fértil, conta a história da descoberta de uma tumba abandonada em um local próximo a sua casa e de toda a paranoia, terror sobrenatural e loucura que decorre dessa descoberta. Um autêntico conto de horror gótico.
  • O Festival: Um homem é enviado pelos pais a um vilarejo para participar de “uma celebração mais antiga que Belém e a Babilônia, e mais antiga que Mênfis e a humanidade”. Uma vez acolhido por um casal de estranhos anciãos em uma confortável casa, ele vê em cima da mesa alguns livros, dentre eles o Necronomicon, escrito pelo árabe louco Abdul Alhazred. Ao dar prosseguimento ao ritual, o homem entra em uma espiral de purro terror, vê coisas horrendas e um verdadeiro “inferno” subterrâneo. Esse foi o primeiro contato que tive com o Necronomicon – que é mencionado em diversos contos – na literatura de Lovecraft. Interessante notar que, com o tempo, diversos artistas incorporaram o livro em suas próprias obras, o que contribuiu para que muitos pensassem se tratar de algo que realmente existiu. Outra importante criação que permeia toda a obra do escritor também é mencionada neste conto: A Universidade Miskatonic. E, por fim, há ainda mais um elemento clássico do universo do autor: o terror que vem do subsolo, de debaixo da terra.  
  • Aprisionado Com Faraós: Um conto narrado por Harry Houdini, famoso escapista, ilusionista e amigo de Lovecraft. Em uma viagem com sua esposa para o Egito, Houdini é amarrado por um bando mal intencionado e jogado dentro de uma pirâmide totalmente escura. Na tentativa de fuga do lugar labiríntico, o ilusionista vê coisas aterradoras: “Eu vi o horror e a antiguidade perniciosa do Egito e a afinidade pavorosa que ele sempre teve com as tumbas e os templos dos mortos.Vi procissões fantasmagóricas de sacerdotes com cabeças de touro, falcões, gatos e íbis; procissões fantasmagóricas que marchavam interminavelmente através de labirintos subterrâneos e avenidas com pórticos gigantes ao lado das quais o homem é uma mosca, e oferecendo sacrifícios indizíveis para deuses indescritíveis. Colossos de pedra marchavam na noite sem fim e conduziam hordas de androsfinges arreganhando os dentes até as margens de rios estagnados e infinitos de piche. E atrás de tudo vi a maldade inefável da necromancia primordial, sombria e amorfa, balbuciando vorazmente atrás de mim na escuridão para estrangular o espírito que havia ousado escarnecê-la ao competir com ela.” E ao longo do conto tudo isso é detalhado com a riqueza descritiva única de Lovecraft.
  • Ele: Um homem desiludido e solitário se encontra com um estranho na cidade de  Nova York durante a madrugada. O estranho o leva para uma viagem através do tempo e do espaço, mostrando coisas incríveis de um passado esquecido.
  • O Horror Em Red Hook: É a história de um detetive que investigou casos de assassinatos e imigração ilegal na região de Red Hook, no Brooklyn. Neste conto, como sempre, a história se torna uma profusão de terror e caos e medo, onde quanto mais o relato se aprofunda e chega próximo ao fim, mais horrendos e assustadores são os acontecimentos e criaturas. Seitas ocultistas e divindades antigas, rituais macabros e o mundo subterrâneo – o conto tem tudo isso. Algo interessante nesse conto é a forma como Lovecraft mostra os moradores e a periferia em si: “hordas de vagabundos”, “rostos morenos e marcados pelo pecado”, “as blasfêmias de uma centena de dialetos que investem contra o céu” e “confusão de putrescência material e espiritual” são alguns dos termos. Lovecraft era um xenófobo conservador assumido, então é natural que tenha colocado suas convicções e ideais quanto a isso em algumas de suas obras.
  • A Estranha Casa Que Pairava Na Névoa: Um filósofo passa as férias na cidade de Kingsport e fica curioso ao saber das histórias locais sobre uma casa solitária  onde todas as noites as luzes se acendem e que fica no alto de uma montanha, com uma porta para o abismo que termina no mar. O filósofo decide então escalar a montanha e, como nesse ponto do livro você já deve imaginar, ele vê coisas incríveis de outras dimensões. “A casa antiga sempre esteve lá, e as pessoas dizem que o homem que mora nela conversa com a névoa matutina que sobre das profundezas e talvez veja coisas extraordinárias na direção  do mar naqueles momentos em que a beira do penhasco se torna a beira da terra e as boias solenes dobram livres no espaço  celeste de um conto de fadas”.
  • Entre As Paredes De Eryx: Aqui o livro dá uma inesperada quebrada na temática e somos apresentados a uma ficção científica que se passa no planeta Vênus. Um cientista tem a tarefa de procurar por cristais de energia com seu detector de cristais. Apesar do perigo apresentado pelas tribos de seres reptilianos que habitam o local, ele sai em sua missão. Ao detectar um cristal de melhor qualidade e ir ao seu encontro, o cientista bate em alguma barreira invisível. Após examiná-la ele a contorna e vê o cristal nas mãos de um cientista morto. Ao adentrar uma fenda na barreira para obter o cristal e examinar o colega, ele se vê preso em um complexo labirinto invisível, de onde tenta em vão escapar enquanto os seres do planeta se reúnem para assistir à cena. O relato é contado pelo próprio cientista, em forma de anotações, e termina com um relatório.
  • O Clérigo Diabólico: Um homem é levado por outro a um sótão de uma casa, onde é deixado sozinho. Ali toda a história acontece. Alquimia e mistério dão o tom no último conto da primeira parte do livro, o mais fraco, na minha opinião – talvez por ser apenas o trecho de uma carta de Lovecraft a um amigo, contando um sonho que teve (foi somente publicada como conto depois de sua morte). Mas a história vale pelo final, uma reviravolta inesperada. 

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Primeiras Histórias

  • A Fera Na Caverna: À partir daqui os contos ficam cada vez mais curtos. Nessa história, a minha segunda preferida dessa parte do livro, um turista que explora uma caverna com outras pessoas e um guia se perde e, na quase total escuridão, percebe que não está sozinho. 
  • O Alquimista: Um alquimista, uma família nobre, uma maldição que dura séculos. Esses são os elementos desse  pequeno conto gótico que, ao meu ver, não figura entre os melhores do livro. Mas está longe de ser ruim.
  • Poesia E Os Deuses: Uma mulher “sozinha e com pensamentos estranhos” começa a ler uma revista para “dispersar o estado de ânimo que a tragava cada vez mais para o fundo a cada momento que passava”. Ao começar a leitura ela entra em uma espécie de transe ou sonho, em uma mistura de poesia onírica com a presença de diversos Deuses da mitologia grega.
  • A Rua: Tenho certeza que a mente de Grant Morrison tirou parte da ideia de Danny The Street daqui. Mas vamos nos ater ao conto: “Existem pessoas que dizem que os lugares e as coisas têm almas e existem aquelas que dizem que não; não me atrevo a dar uma opinião, mas vou contar-lhes da Rua”. É é isso mesmo, a história da Rua (e não de uma rua qualquer) através dos séculos.
  • A Transição De Juan Romero: Meu conto preferido dessa parte do livro e o único que aborda, de certo modo, a mitologia lovecraftiana. Um mineiro conta a história de Juan Romero, um colega de trabalho que ficou fascinado, primeiramente, com um anel de origem hindu que o narrador carregava consigo. Depois de uma explosão de TNT na mina onde trabalham, uma estranha cratera – um abismo sem fim – se abre. Nessa altura da leitura você já sabe que se tem alguma coisa no subsolo e algum elemento religioso na literatura de Lovecraft… Coisas estranhas começam a acontecer.

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Quatro Fragmentos

  • Azathot: A última parte do livro apresenta curtíssimos fragmentos sem conexão. Segundo a introdução do capítulo, “esses fragmentos encontrados entre os papéis de Lovecraft são presumivelmente as suas tentativas de tomar notas de alguns dos seus sonhos, de forma rudimentar, com o intuito de desenvolver histórias mais longas. Nenhuma foi desenvolvida. As chaves para as fontes dos sonhos de alguns desses fragmentos podem ser encontradas nas cartas de Lovecraft”. Azathot fala sobre “um homem que viajou para fora de sua vida numa busca dos espaços para onde fugiram os sonhos do mundo”.
  • O Descendente: Um homem narra, de seu leito de morte, a história de Williams, um “sonhador” de 23 anos. Williams tinha um gosto pelo bizarro e procurava sempre por algo “profundo ou escondido”. Então em um belo dia ele consegue uma cópia do Necronomicon… o resto é história – ou melhor, fragmento.
  • O Livro: Um homem lê um determinado livro em seu sótão (qual livro, hein?) e então evoca alguma criatura.
  • A Coisa No Luar: Morgan, um sujeito comum sem habilidades de escrita, sente um desejo invencível de escrever.  Então começa, sem saber o que ou por que está escrevendo: “Meu nome é Howard Phillips. Moro na College Street, 66, em Providence. no Estado de Rhode Island. No dia 24 de Novembro de 1947 – pois nem sei em que ano estamos agora – peguei no sono e sonhei, e desde então não consigo acordar”. Com esse fragmento de apenas duas páginas o livro se encerra. Obrigado por sonhar, Howard Phillips Lovecraft.

O livro “A Tumba e Outras Histórias” pode ser adquirido em formato físico ou em PDF através do site da L&PM.


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