[LIVRO] Filhos do Éden: Paraíso Perdido, de Eduardo Spohr (resenha)

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Chegou a hora de Kaira e Urakin enfrentarem seu maior desafio: Metatron, o Primeiro Anjo. Mas antes de o confrontarem, eles terão que encontrar Denyel, o Anjo da Morte, em Asgard. E antes da batalha final, descobriremos como Ablon, o Anjo Renegado, capturou o mais poderoso dos Sentinelas há 35.000 anos antes de Cristo.

O parágrafo acima é uma sinopse muito resumida de Paraíso Perdido, terceiro livro que encerra Filhos do Éden, saga iniciada por Eduardo Spohr em Herdeiros de Atlântida. Nem de longe ela consegue evocar o tom e amplitude épicos da obra, que não apenas encerra várias tramas iniciadas nos dois livros anteriores, como as integra com mais clareza ao primeiro livro de Spohr, o igualmente épico A Batalha do Apocalipse.


ATENÇÃO: daqui pra baixo citarei alguns spoilers do livro. Creio que eles não estragarão a experiência da leitura, pois estou falando de um livro de mais de 500 páginas num texto de 3 páginas, que mal engloba todos os acontecimentos da obra resenhada. Mas, considere-se avisado(a).


O último tomo de Filhos do Éden começa recapitulando os eventos mais importantes da saga, desde a origem do universo até o ponto em que os personagens terminaram o livro anterior, Anjos da Morte. Isto nos reambienta à grandiosa complexidade do universo imaginado por Spohr.

Aliás, se tem uma coisa que Spohr não tem a menor preguiça de fazer é enriquecer ainda mais seu universo ficcional. Em Paraíso Perdido temos, logo no início, uma reinterpretação muito criativa do Gênese. É fascinante a ideia de que Metatron seria o “Deus” do Antigo Testamento, e de que Adão e Eva foram “cobaias” de um tipo de experimento social realizado pelo Primeiro Anjo com o intuito de mantê-los isolados do resto da humanidade daqueles tempos de barbárie. A partir do mito bíblico, Spohr realizou uma dramatização moderna, com viés filosófico e psicológico. Além disto, é ótima a sacada de estabelecer uma posição geográfica para o Jardim do Éden, levando em conta o que sabemos das origens da espécie humana. Esse sincretismo de ciência, religião e fantasia é o que torna toda a obra de Spohr um feito literário digno de apreciação.

Outro aspecto admirável da escrita de Spohr é sua capacidade de integrar diferentes mitologias a uma mesma cosmologia, recapitulando fatos já estabelecidos nas obras anteriores ao mesmo tempo em que apresenta novas dimensões e personagens que enriquecem ainda mais seu universo fantástico. A rápida apresentação que faz de Asgard e dos Nove Reinos é um ótimo exemplo disto. E a forma como combinou a mitologia nórdica com a judaico-cristã é um dos muitos pontos positivos de Paraíso Perdido.

Asgard por Andrés Ramos

Asgard (arte de Andrés Ramos)

Gostei muito da Asgard imaginada por Spohr, com as terras dos elfos e dos anões abandonadas; uma aliança entre o dragão Nidhöggr e os trolls, e entre os gigantes e os lobisomens, tudo isto gerando um clima desolador. É como se a proximidade do Apocalipse na Terra de alguma forma tivesse iniciado os eventos que levarão ao Ragnarok, o Crepúsculo dos Deuses Nórdicos. Mas o que realmente chama atenção é Asgard, anteriormente governada por deuses masculinos, agora sob o comando da deusa Sif e suas valquírias.

A feminilidade jamais esteve tão presente nas obras de Spohr como em Paraíso Perdido. Logo no início Kaira duela com a valquíria Hildr, numa batalha que certamente agradará leitores de ambos os gêneros. Mais adiante há outras personagens femininas que desempenham papeis essenciais na trama, como Ishtar, Yaga, Sophia, Titânia, Inanna, entre outras.

Ainda na Parte 1, acompanhamos Kaira, Denyel e Urakin numa aventura envolvendo elfos mortos-vivos, bruxarias, uma ninfa e um dragão, cujo objetivo é desobstruir a Bifrost, a Ponte do Arco-Íris, único caminho de volta para a Terra. É notável o quanto Spohr se divertiu escrevendo este trecho da obra, cheio de sequências de suspense e ação bem narradas e empolgantes.

Não contente em jogá-los contra um dragão, Spohr ainda os fez enfrentar gigantes e lobisomens. Só a Parte 1 já é, por si mesma, um ótimo e épico livro de fantasia, e uma aula de como conduzir esse tipo de história com palavras poderosas e retumbantes. Sua narrativa é muito segura e desenvolta durante o enorme confronto que encerra a Parte 1, levando o leitor de um ponto a outro dos focos de batalha, jamais permitindo que algum dos núcleos fique desinteressante.

a batalha do apocalipse ablon por andres ramos

Ablon, o Anjo Renegado (arte de Andrés Ramos)

A segunda parte de Paraíso Perdido é um prelúdio de A Batalha do Apocalipse, no qual são revelados mais detalhes sobre o passado de Ablon, Ishtar e Orion, além de novas informações sobre os misteriosos obeliscos, que vêm aparecendo desde Herdeiros de Atlântida. Nela retornamos à era das civilizações lendárias, como Atlântida e Enoque, quando a magia ainda estava mais presente no dia-a-dia dos seres humanos, enquanto acompanhamos a caçada de Ablon e Ishtar aos quatro sentinelas restantes, a fim de impedi-los de dominar a Terra.

Um detalhe que Spohr volta a salientar, tanto no trecho protagonizado por Ablon e Ishtar, como em toda a relação entre Kaira e Denyel, é o quanto o plano material afeta os anjos, levando-os a “sucumbir” aos seus sentimentos e desejos. Isto esteve presente desde A Batalha do Apocalipse, e sempre foi uma bem sacada forma de humanizar os alados. Em Paraíso Perdido esta “fraqueza” dos anjos tem um papel fundamental nos conflitos centrais.

Entre as batalhas contra os sentinelas, destaco a que Ishtar enfrenta Muzhda. É um dos embates mais viscerais do livro, especialmente pelo que ela sofre nas mãos de Muzhda antes da luta. O fato de ambos lutarem nus aumentou ainda mais a tensão do conflito.

Mas se eu for falar de tensão, também preciso dividir com vocês algumas impressões sobre a Parte 3. Achei muito satisfatória a maneira como Spohr convergiu os maiores eventos e revelações da obra para os capítulos finais. Sim, é um grande clichê esta decisão, mas ele fez isto sem correr e se atropelar pelo caminho. Tudo é respondido e se desenrola sem tropeços, o que por si só é um mérito.

Metatron defendendo o obelisco central (arte de Andrés Ramos)

Metatron, o Primeiro Anjo, defendendo o obelisco central (arte de Andrés Ramos)

Gostei particularmente da resolução do mistério dos obeliscos, e sua conexão com um conceito do qual gosto muito, a Hipótese de Gaia, que defende a ideia da Terra ser um organismo coletivo vivo, dotado de um “coração” que pulsa, bombeando energias diversas através de uma “rede energética/sanguínea”. Spohr conseguiu incorporá-la muito bem à trama central de Filhos do Éden, sendo ela uma analogia bem poética sobre como o Universo replica-se em escalas menores de sua constituição.

Também merece menção a breve, porém memorável, participação de Lúcifer na história. Spohr claramente se divertiu muito escrevendo as falas do Anjo Caído, que é um dos personagens mais fascinantes e engraçados de todos os livros da saga. Até Kaira se rende ao seu humor: “Foda-se o politicamente correto, a propósito. É uma praga dos tempos modernos.”

Antes de encerrar esta resenha, sinto-me no dever de elogiar o modo como Spohr intercalou o confronto de Kaira e o de Ablon contra Metatron, ela no presente, ele no passado. Isto prolongou o clímax de maneira arrebatadora e digna de figurar em nossa memória com alguns dos embates mais épicos já narrados numa série de fantasia. E digo isto sem medo de estar me exaltando. É realmente admirável os rompantes de “epicidade” dos capítulos finais.

Paraíso Perdido é um desfecho grandioso para uma trilogia que começou como uma aventura pouco pretensiosa, tornou-se uma jornada pela história do século 20, e concluiu-se amarrando diversas pontas soltas espalhadas por Spohr ao longo de sua obra. A convergência de todas elas foi conduzida de maneira exemplar, com muita segurança e, acima de tudo, com muita paixão pelos personagens e empolgação pelos eventos narrados. Isto foi essencial para tornar o livro não apenas o trabalho de maior fôlego e vigor de Eduardo Spohr, como também seu melhor até aqui. Arrisco dizer que Filhos do Éden, ao lado de A Batalha do Apocalipse, está destinada a tornar-se um clássico futuro. Desde já estou ansioso para ler os próximos trabalhos de um dos melhores autores de fantasia da atualidade.


Nota do editor: ouça aqui a entrevista que fizemos com Eduardo Spohr antes do lançamento de Paraíso Perdido.


nota-5


filhos do eden paraiso perdido eduardo spohr capaVerus

Capa comum

22,6 x 15 x 3,8 cm

560 páginas

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