[LIVRO] “Fábrica de Vespas”, de Iain Banks (resenha).

Fábrica de Vespas” é um livro que suscita opiniões polarizadas. Há quem adore e quem desgoste do estilo de narrativa de Iain Banks, um escritor escocês capaz de flutuar entre aquilo que é eletrizante, intrigante, visceral, escatológico e surpreendente!

Histórias de psicopatas protagonizadas e narradas em primeira pessoa pelo próprio algoz já não são novidade, e logo deverão se transformar numa sorte específica derivada do horror com a sua própria prateleira.

Pode-se mencionar, por exemplo, “O Psicopata Americano”, “Monstros Invisíveis” e “Dexter”, títulos que entretêm, oferecerem soluções criativas bastante estimulantes, possuem linguagem acessível e lidam com personagens complexas que desprezam certos filtros sociais e não têm qualquer apreço pela vida humana. No entanto, o que faz de “Fábrica de Vespas” uma obra sui generis é o seu aspecto “naturalista”.

É digna de nota a forma com que o comportamento do protagonista, Frank Cauldhame, de 16 anos, sofre influência do meio, de seu próprio corpo e características fisiológicas, além de sua época.

Outro ponto que a distingue das demais é o fato de a trama não girar unicamente em torno das atrocidades que a mente de um psicopata é capaz de construir; é algo um tanto mais bizarro.

Embora aqueles que sofram desta psicopatia sejam, em regra, calculistas e manipuladores, e Frank também possua estas características, alguns de seus assassinatos nem sempre são premeditados; acontecem por ocasião, no calor do momento, e beiram ao surreal. Para citar apenas dois casos análogos: 1) o rapaz se aproveita da passagem de uma cobra para colocá-la dentro da perna protética de um deficiente, 2) utiliza-se de uma pipa gigante para levar uma criança ao céu e fazê-la desaparecer no mar.

“Uma morte é sempre excitante, sempre faz com que você perceba quão vivo e vulnerável está, mas quão sortudo é. Mas a morte de alguém próximo dá uma boa desculpa para que você fique um pouco doido por um tempo, e faça coisas que de outro modo seriam indesculpáveis. Que maravilha seria agir feito um alucinado e ainda assim ganhar a simpatia de todos! ” Pg. 59.

Apesar de muitos assassinos em série terem como principal motivação para seus crimes os delírios, decorrentes de uma perturbação patológica, este também não é o caso de Frank. Ele não ouve uma voz estranha em sua cabeça. A mente de Frank é racionalmente perversa e temerosa.

“Nossas vidas são símbolos. Tudo que fazemos é parte de um padrão que, pelo menos em parte, decidimos. O forte cria o seu próprio padrão e influencia o de outras pessoas, o fraco tem seus caminhos traçados por alguém. ” Pg. 154.

Vê-se a todo instante ações repetitivas e rotineiras do garoto. Ele tortura animais indefesos, tem um único amigo (um anão), toma todas num pub local e faz de sua higienização qualquer coisa deveras compulsiva. Ao mesmo tempo, como traços da sua personalidade, um hilário senso político e crítico…

“Muitas vezes, eu pensava em mim mesmo como um território. Um país ou, no mínimo uma cidade. Era como se as ideias que eu tinha, os cursos de ação que tomava, fossem que nem as diferentes medidas políticas que os países assumem. Sempre me pareceu que as pessoas não votam num novo governo porque elas realmente concordam com a nova política. De alguma forma, elas acham que as coisas vão ser melhores com um pessoal novo. Bom, as pessoas são estúpidas, mas essas coisas sempre parecem ter mais a ver com humores, caprichos e atmosfera social do que com argumentos bem-pensados. Consigo sentir o mesmo tipo de situação se passando pela minha cabeça. Às vezes, os pensamentos e as sensações que tenho não concordam uns com os outros, então acho que devo ter um monte de gente diferente no meu cérebro. ” Pg. 85.

E uma inquietante aversão pelo sexo oposto:

“Odeio ter que sentar na privada o tempo todo. Com essa minha deficiência infeliz, eu sempre tenho que fazer isso como se fosse a desgraçada de uma mulher, mas odeio. Às vezes, no Cauldhame Arms, fico de pé no mictório mas acaba tudo escorrendo nas minhas mãos ou pernas.

Faço força. O cocô cai na água. Um pouco de água cai na minha bunda, e é aí que o telefone toca. ” Pg. 29.

O adolescente vive numa distante ilha da Escócia, sendo criado e educado exclusivamente por seu pai, alguém de hábitos nada convencionais como: anotar as medidas de tudo, manter um escritório trancado e descobrir o que os outros comeram no café da manhã através de suas flatulências.

Ainda convém lembrar do Eric, irmão de Frank. Tal qual seu progenitor, é dono de manias esquisitas; tocar fogo em cachorros e ameaçar crianças da vizinhança são algumas destas. É quando Eric foge de um manicômio e ameaça voltar ao lar, telefonando durante a madrugada para seu irmão que a história começa.

Um ponto negativo é o lento ritmo da introdução. É incômodo ao ponto de se tornar maçante. Porém, é preciso estar preparado para superar cerca de 180 páginas; as boas ondas costumam vir depois da rebentação, e, do meio para o final, por meio da alternância de tempo passado e presente, uma profusão frenética de ganchos, revelações acerca dos Cauldhame e mind-blowings inesquecíveis chegam como tsunamis arrebatadores, compensando em muito a tarefa de leitura.

Levando-se em conta o que foi observado, eis perguntas cujas respostas somente poderão ser encontradas por quem se atrever a ler: o que esperar de alguém que todos os dias acorda cedo, antes de o despertador tocar, apenas para presenciar, ao soar do alarme, a morte de uma vespa inserida por ele mesmo no interior do aparelho no dia anterior? De uma pessoa que faz do terreno de casa a sua fortaleza pessoal, delimitada com cabeças de animais fincadas em estacas? E que utiliza dessa “fábrica” como uma espécie de oráculo para decidir sobre seu próprio destino? Que segredos guarda essa família nada ortodoxa?


DarkSide Books

Tradução: Leandro Durazzo

Capa dura

21,4 x 14 x 2,2 cm

240 páginas

Disponível nas seguintes livrarias:

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Saraiva

Submarino