[LIVRO] Eu Sou o Mensageiro – O livro que tira seu fôlego e o narrador impossível.

Esqueça “A Menina que Roubava Livros“. Se você o leu e amou como eu, apenas esqueça. Creia em mim: HÁ NARRADORES MAIS INCRÍVEIS QUE A MORTE.
Você pode considerar sua vida chata, mediana, ou até muito sem-graça mesmo. Mas acredite: sua vida não é tão insossa quanto a de Ed Kennedy, o protagonista de Eu sou mensageiro, obra-prima de Markus Zusak.

O jovem taxista Ed leva uma vida medíocre. Nada ocorre de diferente, nada é realmente novo. Os dias de sua juventude transcorrem um após o outro como cópias indignas de serem vividas. O rapaz trabalha como motorista de táxi, joga cartas com cúmplices do tédio, apaixona-se por uma amiga que dorme com todos os vizinhos do subúrbio (ela dorme com todo mundo do livro, praticamente, menos com Ed), e divide apartamento com um cão velho. Filho de um alcoólatra falecido há pouco tempo o bastante para ainda doer-lhe a perda, Ed até gostaria de ter qualquer coisa de sua mãe, além de indiferença. Ao menos se brigassem…

Mas a vida de uma pessoa entediada e fadada ao absoluto nada pode mudar completamente quando, mexendo com o rumo de sua história de vida, o jovem taxista impede um assalto. O que era para ser um ato heroico torna-se um ponto de reinício de sua vida. Logo depois do incidente heroicamente impedido, Ed recebe enigmáticas cartas de baralho pelo correio: uma sequência de ases de ouros, paus, espadas, copas, cada qual contendo uma série de endereços ou charadas a serem decifradas.

É óbvio que nenhum herói entrega-se ao chamado de início, e claramente o jovem taxista ignora sua missão de primeira. Mas, após certa hesitação, rende-se ao desafio. Misteriosamente levado ao encontro de pessoas em dificuldades, devassa dramas íntimos que podem ser resolvidos por ele e até os próprios dramas.

Dessa pequena sinopse surgem perguntas, e até dúvidas, que não podem ser replicadas de forma frasal.

Quem entrega as cartas?

Esse é um livro de mistério?

Esse é um livro de espionagem?

Na verdade eu não saberia dizer que tipo de subgênero textual abarca “Eu sou o Mensageiro” além de drama. Mas sei que há tão mais que isso que o drama fica apenas nessa pequena síntese que apresentei.

Conforme dito, o protagonista da história sai de sua rotina infinitamente fotocopiada quando se envolve em um assalto. 

A partir daí, quem ler o livro passa a notar que o assalto não foi apenas um incidente, mas uma espécie de destravamento mágico de possibilidades narrativas.

Como se, de repente, Ed tivesse reescrito sua linha temporal, não sendo capaz de viajar no tempo, mas de modificar todo o seu futuro. Mas a chave para desatar os nós de cada setor de seu destino está escrito nas cartas – talvez o modo mais sutil de Zusak de misturar literatura, misticismo (tarô) e teorias físicas.
A cada carta recebida de forma extremamente misteriosa, Ed Kennedy se vê com uma nova missão nas mãos.

Cada carta é direcionada a uma pessoa que faz ou fez parte de sua vida, e cada naipe significa um tipo de atitude.

É curioso como o uso dos naipes é utilizado de maneira concordante com a lógica que rege a leitura do Tarot Universal. Da mesma forma que no jogo de cartas, o naipe de paus tem relação com problemas relacionados ao ego ou espiritualidade, copas relaciona-se com as paixões mundanas, ouros está atrelado às conquistas e perdas materiais, e espadas a desafios duros. Não é por acaso que no fim de suas missões, Ed está de cara quebrada (literalmente).

Mas livre…
E o que isso teria a ver com viagem no tempo ou modificação de linha temporal?

É necessário realmente ler toda a história e compreender o fantástico artifício narrativo utilizado pelo autor, que é capaz se colocar no enredo ativamente, embora nem seja ele o narrador. Toda a história é contada em primeira pessoa, por Ed.

Se eu me estender, acabarei dando spoilers.

Só posso dizer que certamente valerá cada página desse destino de um anônimo reescrito pelas cartas, literalmente.


Intrínseca

Tradução: Antônio E. de Moura Filho

Brochura

22,8 x 15,6 x 1,8 cm

320 páginas

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Raquel Pinheiro (Raposinha) é míope profissional, CANCERIANA, redatora, revisora, tradutora, escritora, professora de língua inglesa, viciada em café e artista plástica. Além disso é troll nas horas vagas e é viciada em cheirar livros.