[LIVRO] Eu sou a Lenda, de Richard Matheson (resenha)

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É 1976. Sete meses atrás uma pandemia transformou os seres humanos em predadores movidos pela sede de sangue. Até onde sabe, Robert Neville foi o único não afetado pela doença. Esta é a história de sua sina, e de como ele convive com ela.

Eu sou a lenda não é um livro tão influente à toa. Pra começar, as 16 páginas iniciais foi tudo que Richard Matheson precisou para nos mergulhar na rotina monótona e solitária de Robert Neville, e nos tornar tão prisioneiros quanto ele do inferno que o cerca quando a noite cai e “eles” voltam a amotinar sua casa. De cara dá pra notar o quanto a história influenciou desde os filmes de George Romero até as obras de Stephen King, que escreveu o prefácio da edição da Aleph.

Matheson traçou um cuidadoso retrato da dolorosa e claustrofóbica solidão de um homem que se vê como o único dotado de racionalidade e livre arbítrio em seu mundo. O realismo com que descreve o cotidiano solitário de Neville é o que faz do livro uma jornada literária inesquecível. Sua escrita possui uma sobriedade pungente e uma precisão exemplar, e jamais perde de vista o ser humano cuja história está narrando.

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“De novo aquela sensação inquietante; a sensação de que ele estava se expandindo enquanto a casa se contraía, como se a qualquer momento ele fosse irromper da construção em uma explosão de madeira, gesso e tijolos.”

Neville não pode se afastar de sua casa por muito tempo, sob o risco de estar fora de seu refúgio ao anoitecer, o que o forçaria a enfrentar os vampiros no auge de suas forças. Isto o obriga a cronometrar suas saídas de forma que dê tempo de ir e voltar pra casa antes do sol se pôr. O maior problema nisto é confiar em aparelhos que podem parar de funcionar no meio do caminho, como um relógio de pulso movido a corda.

Nas palavras de Matheson sentimos os tormentos de Neville em sua luta constante para encontrar motivos para sobreviver. Para preencher sua necessidade de um objetivo, Neville inicialmente toma para si a missão de oferecer um “descanso” para aqueles que foram “vampirizados”.

Um ponto que Matheson faz questão de salientar é a dificuldade que Neville tem de matar as vampiras. Isto é devido a dois fatores: a lembrança que elas despertam de sua falecida esposa; e a atração sexual que todas exercem sobre ele. Sua abstinência sexual é um dos muitos obstáculos que ele enfrenta durante boa parte da história, o que achei muito adequado dentro de todo o cenário imaginado pelo autor.

Mas Eu sou a lenda é menos sobre um homem matando vampiros sozinho, e mais sobre seus esforços para entender a origem das fraquezas de seus adversários. Esta é a segunda missão que Neville assume: descobrir a verdade por trás da pandemia de vampirismo com a ajuda da ciência.

Nos flashbacks de Neville temos acesso a indícios da possível causa da epidemia de vampirismo e sua amplitude. Matheson foi sabiamente vago, estabelecendo uma suposta ligação com uma guerra, seus bombardeios, e uma provável influência destes na mutação de insetos que se tornaram uma praga antes da pandemia. Aqui vale lembrar que o livro foi lançado em 1954, ou seja, bem no início da Guerra Fria, e do temor de um conflito nuclear em escala global, o que certamente influenciou na escrita de Matheson. Por isto também é cogitada a possibilidade da doença ser resultado do uso de armas biológicas. Mas todas estas hipóteses são levantadas por quem não tinha acesso a informações concretas e confiáveis.

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A origem científica que Matheson imaginou para os vampiros é bem engenhosa, e por si mesma elevou o nível do livro ao fugir de misticismo, dando uma verossimilhança que tornou a ameaça deles ainda mais temível. É impressionante o nível de detalhes biológicos usados por Matheson para explicar cientificamente fenômenos relacionados aos vampiros clássicos, como a aversão que sentem por alho, e a desintegração de seus corpos quando atingidos por estacas. Matheson foi cuidadoso ao ponto de descrever em detalhes todo o processo de investigação científica empreendido por Neville, que por si só é um exemplo de persistência, posto que ele se vê forçado aprender sozinho desde bacteriologia até os detalhes mínimos de funcionamento de um microscópio. O que poderia ser maçante nas mãos de um escritor mediano, ficou fascinante nas palavras bem escolhidas por Matheson. O trabalho de pesquisa que ele fez para embasar tudo isto com ciência foi exemplar para as gerações seguintes de escritores de ficção científica e terror.

Além de sua biologia, Matheson também teve o cuidado de elaborar um aspecto psicológico para o vampirismo, que também é um aperfeiçoamento da mitologia clássica. É através das investigações científicas de Neville que descobrimos porque os vampiros temem símbolos religiosos como a cruz.

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Felizmente a história muda o foco narrativo quando começa inclinar-se para a monotonia, ou quando fica muito próxima de causar no leitor antipatia pelo protagonista. A afeição que Neville desenvolve pelo cão de rua que aparece na metade do livro é um dos pontos de virada da história. Foi uma decisão sábia de Matheson, que naquela altura estava investindo no processo de deterioração mental de Neville, já preso num ciclo de autodepreciação, autopiedade e alcoolismo que ameaçava tornar o personagem intragável para qualquer leitor. A aparição do animal não apenas traz alento a Neville, como um necessário gás para a segunda metade da obra.

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Sem dar spoilers, os eventos narrados na parte 3 apresentam novas fontes de conflito para Neville, com os quais ele lida até a conclusão do livro. Matheson demonstra um profundo conhecimento de psicologia ao descrever as reações internas e externas de Neville diante dos eventos que marcam a reta final de Eu sou a Lenda.

A edição da Aleph ainda trás como extras uma entrevista curta e – na minha opinião – pouco reveladora com o autor; e uma detalhada crítica da obra feita por Mathias Clasen, onde ele a analisa profundamente e expõe suas diversas possibilidades de interpretação. Destaco abaixo o trecho onde ele fala do motivo de Eu sou a lenda ser tão eficaz na tarefa de gerar empatia no leitor pelo protagonista:

Como observa Robert Bloch, “a habilidade de Matheson em criar empatia confere uma força especial ao seu trabalho. […] a própria sensibilidade aos medos e pensamentos mais íntimos de todos nós.” e invoca uma concepção popular da natureza humana que explica a habilidade do autor em engajar seus leitores. Os medos e angústias de Matheson não são tão estranhas e particulares assim, acabando por extrapolar barreiras culturais e históricas.

Eu sou a lenda representa a gênese de muito do que vimos nas últimas décadas tanto na literatura quanto no cinema de ficção científica e terror. Uma leitura essencial para apreciadores de ambos os gêneros. Importância histórica que foi reconhecida pela Aleph, ao relançá-la numa edição em capa dura, projeto gráfico e ilustrações que contribuem no processo de imersão do leitor no universo da obra. Em suma, um item de colecionador que merece um lugar de destaque na estante.

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eu sou a lenda richard matheson alepheu sou a lenda richard matheson aleph preview 19Aleph

Capa dura

20 x 12,4 x 2,6 cm

384 páginas

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