[LIVRO] “Enterrem Seus Mortos”, de Ana Paula Maia (resenha)


Esse ano tive o prazer de ter em mãos um livro que me surpreendeu, Enterre Seus Mortos, de Ana Paula Maia, publicado pela Companhia das Letras.

SINOPSE:

Edgar Wilson é “um homem simples que executa tarefas”. Trabalha no órgão responsável por recolher animais mortos em estradas e levá-los para um depósito onde são triturados num grande moedor. Seu colega de profissão, Tomás, é um ex-padre excomungado pela Igreja Católica que distribui extrema unção aos moribundos vítimas de acidentes fatais que cruzam seu caminho. A rotina de Edgar Wilson, absurda em sua pacatez, é alterada quando ele se depara com o corpo de uma mulher enforcada dentro da mata. Quando descobre que a polícia não possui recursos para recolhê-lo — o rabecão está quebrado —, o funcionário é incapaz de deixá-lo à mercê dos abutres e decide rebocar o cadáver clandestinamente até o depósito.

Ainda não conhecia os escritos da autora que, por sinal, tem vários livros publicados, e não só aqui em terras tupiniquins. Ela também possui obras que foram levadas para Argentina, Itália, França, Alemanha e Servia.

Quando recebi o livro, confesso que não estava com aquela empolgação corriqueira para iniciar a leitura, visto que sou amante de fantasia e ficção. Fiquei pouco empolgado diante desse romance policial kafkiano. Porém, à medida que a história avançava, fui ficando cada vez mais arrebatado pela escrita de Ana Paula.

“Assim como não teme o pôr do sol, Edgar Wilson entende que não deve temer a morte. Ambos ocorrem involuntariamente num fluxo contínuo.”

Somos apresentados ao mundo de Edgar Wilson, um homem quieto e observador, que fala pouco e ouve mais, e trabalha recolhendo animais mortos nas estradas. Conhecemos também Tomás, um ex-padre excomungado que faz o mesmo trabalho. É ele que traz um humor sarcástico, gerando boas risadas no decorrer dos eventos. Juntos, os dois amigos nos levam a participar de uma road trip com cadáveres.

“— Tudo bem, Edgar Wilson. Eu vou com você. Você é o filho da puta mais nobre que conheço — exclama Tomás em voz alta, com uma batida na mesa.”

O desenvolvimento dos fatos nos faz querer saber qual destino aguarda a dupla de recolhedores de animais. Com sua escrita direta, crua, visceral, e com algumas doses de sarcasmo, Ana Paula impressiona.

“Os peixes, mesmo mortos, brilham. Os homens quando morrem são cobertos de trevas e tudo se apaga rapidamente. O que havia nesses olhos se foi. Não há mais nada ali.”

O livro mostra a vida e a morte de forma crua. Nos faz saber que, ao deixar essa vida, nosso corpo não passa de um verdadeiro saco de batatas. Presenciamos o lado negro do IML. Observamos a realidade sombria em que vivemos.

“Um aviso escrito à mão chamou a atenção de Edgar Wilson no momento em que se sentou na cadeira:

Confeccionar quatro cabeças, duas laringes, quatro estômagos, três corações…

Uma curiosidade que me chamou a atenção é que, apesar de toda ambientação se passar em um Brasil interiorano, tive a sensação de estar a todo instante na Louisiana, local onde aconteceu a primeira temporada de True Detective. Não me perguntem o por quê.

“Os dois arrastam o corpo até o corredor e fecham a porta do inferno com pressa. Respiram Fundo. Intensamente.”

O desfecho é sensacional. E fico imaginando que o livro daria uma excelente adaptação ao mundo das HQ’s, quem sabe com a arte de Sam Hart. Ou também poderia ser um curta sobre esse mundo de Edgar Wilson. Fica a dica.

Espero conhecer outras obras dessa escritora, que me conquistou com sua escrita. Portanto, leiam Enterrem Seus Mortos da habilidosa Ana Paulo Maia!


Editora: Companhia das Letras

Capa comum, brochura

Dimensões: 20,8 x 14 x 1,2 cm

136 páginas

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