[LIVRO] Ensaio sobre a cegueira: e se, de repente, todos ficassem cegos?

Exterminate, meus daleks favoritos!

Prepare seu traseiro, sua almofada de Star Wars e senta aqui comigo que lá vem história!

Já imaginou se você estivesse andando pela rua olhando as pernas seduzentes de uma mulher/homem, pensando em como levar o mais rápido possível essa pessoa pra sua cama/rede/sofá/chão da cozinha e de repente ficasse cego? [“Opa, agora posso passar a mão nela/e usando a desculpa do não enxergo”]. E mais, tudo que você consegue “ver” é uma luz branca, como se do nada tivessem jogado um refletor na sua cara.

Não só você, outros a seu redor começam a ficarem cegos também. Sem uma porra de um motivo! Você vai ao oftalmologista e ele, obviamente, não tem ideia do que se passa, solicita uma porrada de exames e algumas horas mais tarde também fica cego. É, está difícil. Deu pra sentir? O que você faria? E o que você supõe que fariam com você? [Ah, essa pergunta aqui é capciosa].

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Bem, alguém se deu ao trabalho de imaginar isso, afinal é uma ideia interessante. Só que não apenas isso. Ideias todos temos a qualquer momento, porém culhões para fazer alguma coisa com elas aí já começa a rarear. E para fazer algo bem feito, então.

Um pacto parece uma boa explicação

José Saramago é o escritor que não importa sobre o que escreva, vai valer a pena ler. Estava falando sobre ideias. Imagine agora que alguém teve a ideia de contar uma história sobre um elefante que é dado de presente e viaja de Lisboa para Viena no século XVI. [fatos reais, amigo. Vide história de Portugal]. É até difícil encontrar um adjetivo que expresse o quanto isso parece idiota. Bem, não nas mãos de Saramago, este homem é capaz de tornar a Bela do Crepúsculo REALMENTE interessante e desejável. Você talvez agora pense que estou exagerando. Eu poderia, mas não, ele consegue mesmo.

Como? Pacto com o demo, é claro!

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Achou que eu estava brincando?

Ok, dois motivos. Primeiro: ele SABE contar uma história. Você pode encontrar várias ideias legais por aí, muitos livros sobre universos fantásticos, seres incríveis, acontecimentos surreais. Agora, encontrar isso bem narrado é difícil. O que nos motiva a ler muitos desses livros é o conteúdo fantástico. E você sabe que o cara é um bom narrador quando ele consegue te fazer ler uma viagem sobre um elefante. Apenas isso. Não aparece nenhuma cria do satã no meio para apelar. Aí, você sabe que esse cara é bom. Quando o escritor não precisa usar chamarizes a fim de tornar sua história interessante, você está diante de um raro ser que se importa não só com o que ele conta, mas como conta. 

Pausa: “Ah, quer dizer que você não gosta de histórias fantásticas? Sua..sua FACISTA!” Não foi isso que eu disse, você sabe que não foi, apenas quer um motivo para implicar com alguém, pois está insatisfeito com a vida, o macarrão e tudo o mais.

Segundo motivo: o rapaz é um ser humano interessante. Saramago é inteligente, ateu, usa o cérebro, irônico, o cara pensa nas coisas, não sai vegetando por aí. E ele se põe na obra de uma maneira esperta, se impor o que pensa, te coloca para pensar.

José Saramago no SESC

#autoestimaétudo #meamo #Pilar,saudades!

Dito isto, vamos ao que nos interessa aqui: Ensaio sobre a cegueira. Como seria se todos cegassem de repente? O que o governo faria? O que as pessoas fariam? Meus amigos, não só uma ideia boa para uma história, mas uma ideia nas mãos de José Saramago, o senhor com os atributos acima que falei.

MY EYES! MY EYES!

Nossa história começa com um homem ficando cego no meio do trânsito em seu carro, é ajudado por um outro homem que depois também fica cego, ao consultar um médico este cega algumas horas depois, outros que estavam no consultório também. É LOUCURA!. Diante disso, o que as autoridades fazem?

Você, como uma pessoa esperta, já deve ter chegado a resposta. Isolam todos que estão cegos e as pessoas próximas a eles, claro. Afinal, parece haver uma conexão, apesar de ser claro que a cegueira surgiu do nada. Enfim, iniciam uma quarentena pelo bem de todos. Escolhem um manicômio desocupado e jogam a galera lá. A situação é: chega um carro do governo na casa da pessoa com ordens de levá-la embora e o que se pode fazer? O cara está cego, mal consegue se situar no espaço, nem pensa em resistir.

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Só que não resolve. Mais e mais pessoas ficam cegas. O medo toma conta. E um dos mais maiores perigos que se pode enfrentar é uma pessoa com medo. Os instintos prevalecem e ela é capaz de qualquer coisa, pois o filtro de “ei, isso é errado” ou “pense melhor” não está ativado. Um militar mete-lhe a bala na cara de um dos cegos porque esse se aproximou dele.

Olhe lá, ó ceguinho, quem lhe vai comunicar uma coisa a si sou eu, ou você e essa voltam agora mesmo para donde vieram, ou levam um tiro, Vamos, disse a mulher, não há nada a fazer, eles nem têm culpa, estão cheios de medo e obedecem a ordens, Não quero acreditar que isto esteja a acontecer, é contra todas as regras de humanidade, É melhor que acredites, porque nunca te encontraste diante de uma verdade tão evidente p. 36-37

Uma boa parte do livro versa sobre o período em que as pessoas ficaram isoladas no manicômio sem nenhuma notícia do que acontecia lá fora. E é brilhante nisso. Um retrato perfeito de o que a humanidade faria em tal situação. Medo. Poder. Descaso. Amizades. Cuidados. Sujeira. Divisões. Fome. Sexo.

ensaio sobre a cegueira

Nunca. Nunca entendo essas capas.

“Tragam-nos mulheres…”

Destaco um dos momentos do livro em que um grupo arma-se de paus, ferros e o líder tem uma arma. O que fazem?

Decidem apossar-se de todas as caixas de comida deixadas pelo exército que vigiava o pessoal para não fugirem [apenas isso, eles até avisam que podem se matar lá dentro que eles não vão interferir nem chegar perto]. Antes as caixas eram divididas de certa forma igualmente. Agora, os cegos presos no manicômio vão ter que comprar a comida. É o que esse grupo de Zé Pequenos [também cegos, vale frisar] dizem. Entreguem todos os seus bens, joias, dinheiro se quiserem comer alguma coisa. Os outros tentam argumentar, falar com os militares [Foda-se! Resolvam-se aí], ficam uns dias com fome, até que cedem. Compram a comida que deveriam ter de graça. Isso é tão tão ser humano, aproveitar-se de uma situação para obter algo para si.

E não param por aí. Depois de algumas semanas, os caras vendo que ninguém tem mais nenhum dinheiro para dar ou qualquer coisa que o valha, pedem o quê? Ah, meus amigos, um pé de abacate para quem adivinhar.

Isso mesmo!

Passada uma semana, os cegos malvados mandaram recado de que queriam mulheres. Assim, simplesmente, Tragam-nos mulheres. […] A resposta foi curta e seca, Se não nos trouxerem mulheres, não comem. p. 93

Pessoal reluta em acatar a nova exigência, porém acabam cedendo, pois a fome aperta e se julgam numa situação indefensável.

A cega das insónias teve de ser levada dali em braços pelas companheiras, que mal se podiam elas próprias, arrastar. Durante horas haviam passado de homem em homem, de humilhação em humilhação, de ofensa em ofensa, tudo quanto é possível fazer a uma mulher deixando-a ainda viva. Já sabem? O pagamento é em géneros, digam aos homenzinhos que lá têm que venham buscar as sopas, escarnecera à despedida o cego da pistola. E acrescentou, chocarreiro, Até à vista, meninas, vão-se preparando para a próxima sessão. Os outros cegos repetiram mais ou menos em coro, Até à vista, alguns disseram gajas, alguns disseram putas, mas notava-se-lhes a fadiga da libido na pouca convicção das vozes. p. 101-102

Até que alguém decide fazer alguma coisa e é do caralho.

ensaio sobre a cegueira

Sai da frente! [cena do filme]

“é que vocês não sabem, não o podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos” p. 154

Agora, imagine que todos ficaram cegos, menos você. Apenas, você vê o que os outros não podem mais, a situação da humanidade, a morte, a sujeira. O que você faria? Ou pensa que faria?

saramago

Eu vejo!

Eis que revelo aqui uma informação que estou guardando: existe uma pessoa que não ficou cega. Uma mulher, a esposa do oftalmologista mencionado anteriormente. Ela vai para o manicômio junto com o marido, pois se finge de cega para ficar perto dele. Você já deve então imaginar quem dá conta do líder e suas insaciáveis necessidades sexuais. E com uma tesoura! A cena é muito boa. Mesmo.

Não soubemos resistir como deveríamos quando eles apareceram com as primeiras exigências, Pois não, tivemos nós medo, e o medo nem sempre é bom conselheiro p. 108

ensaio sobre a cegueira

Cena do filme de Fernando Meirelles

Depois disso, acontece um incêndio e eles conseguem sair do manicômio, descobrindo que: “toda a gente está cega, Toda a gente, a cidade toda, o pais, Se alguém ainda vê, não o diz, cala-se, Por que é que não vive na sua casa, Porque não sei onde ela está,” p. 124

E a cidade: um pandemônio. Ruas imundas. Sem água encanada. Sem energia elétrica. As pessoas andam em pequenos bandos, dormindo onde podem, pois não conseguem mais encontrar suas casas. O Governo e a economia derrocaram. O sistema bancário veio abaixo. Vive-se apenas para comer e esperar o próximo dia. Não há ninguém organizando nada.

é o defeito da civilização, habituamo-nos à comodidade da água encanada, posta ao domicílio, e esquecemo-nos de que para que tal suceda tem de haver pessoas que abram e fechem válvulas de distribuição, estações de elevação que necessitam de energia eléctrica, computadores para regular os débitos e administrar as reservas, e para tudo faltam os olhos. p. 131

Bem, o restante da história é contada nesse espaço, com o grupo dos primeiros que cegaram + a mulher do médico livres tentando viver na cidade e encontrar algum sentido para isso. Não costumo contar os finais, tudo que você precisa saber é que vale a pena cada página, o narrador te leva pela história e você nem percebe sempre querendo saber mais e quais os próximos acontecimentos.

ensaio sobre a cegueira

A velha do primeiro andar abriu devagar a janela, não quer que se saiba que tem esta fraqueza sentimental, mas da rua não sobe nenhum ruído, já se foram, deixaram este sítio por onde quase ninguém passa, a velha deveria de estar contente, desta maneira não terá de dividir com os outros as suas galinhas e os seus coelhos, deveria de estar e não está, dos olhos cegos saem-lhe duas lágrimas, pela primeira vez perguntou se tinha alguma razão para continuar a viver. Não achou resposta, as respostas não vêm sempre que são precisas, e mesmo sucede muitas vezes que ter de ficar simplesmente à espera delas é a única resposta possível. p. 146

nota-4

Até a próxima!

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