[LIVRO] Duna (resenha)

Arrakis_by_akreon

Em um futuro distante, a luta pelo controle de um planeta desértico que produz a Especiaria, o bem mais valioso da galáxia, põe à prova o jovem Paul Atreides e revela nele o cumprimento de antigas profecias que irão mudar completamente o destino do Império. Este é o mote de Duna, de Frank Herbert, publicado no Brasil pela Editora Aleph.

Seria bom começar dizendo que Duna é bem diferente da maioria das obras de ficção científica que conhecemos hoje – e, na época em que foi escrito (1965), o livro foi nada menos do que revolucionário. Principalmente porque, até então, o gênero sci-fi consistia basicamente em apresentar ao leitor algum tipo de tecnologia maluca (geralmente envolvendo robôs e naves espaciais), e explorar como seria o mundo “do futuro” através dessa ótica bastante tecnocêntrica, de preferência aproveitando pra esbanjar o conhecimento científico do autor. Duna joga isso tudo de lado ao abandonar, em grande parte, o foco na tecnologia (as pessoas lutam com espadas!) e as noções senso-comum de “futuro” (um Império feudal? Bruxaria?? Profecias religiosas?!?) em troca de um cenário mítico, quase fantástico, onde a lógica e a ciência muitas vezes dão lugar às lendas e ao misticismo.

Se isso tudo soa familiar, não é à tôa – e podemos apontar duas grandes obras, uma anterior a Duna e uma posterior. Conforme o próprio autor já confessou, uma das influências de Duna é a série de livros sobre John Carter de Marte (recentemente levada aos cinemas pela Disney), na qual o herói também explora um planeta desértico, cheio de misticismo (e lutas de espadas). Aliás, Duna foi chamado na época de “John Carter para adultos”. Mas outra série que não tem como a gente não reconhecer ao ler a obra de Frank Herbert é Star Wars. Com seus sabres de luz, misticismo religioso, profecias sobre um “Escolhido” (Anakin/Vader, e depois Luke), e mesmo seus Jedi lembrando o treinamento psíquico e marcial das Bene Gesserit, a influência de Duna nos filmes de George Lucas é inegável. Não é à tôa que um dos locais mais importantes para a história de Star Wars é um planeta desértico (Tatooine), que tem inclusive o sarlacc, uma criatura claramente inspirada nos infames Vermes de Areia de Arrakis. (Aliás, sempre que você vir um verme gigantesco e capaz de engolir uma nave inteira em algum filme, livro, jogo etc., principalmente se for no deserto, agradeça a Frank Herbert, pois estão copiando descaradamente a criação dele.)

Um Verme do Deserto

Um Verme do Deserto

Se Star Wars estabelece seu caráter mitológico ao dizer no texto de abertura que se passa “há muito tempo atrás, em uma galáxia muito, muito distante”, Duna ainda se situa no futuro de nossa própria civilização humana (como praticamente tudo o que existia até então em sci-fi), mas toma o cuidado de se distanciar bastante de nossa realidade ao se passar em um futuro beeem distante. O calendário presente no livro (e utilizado pelos personagens) estabelece que a história começa por volta do ano 10.191 d.G., o que significa “depois da Guilda”, referindo-se ao início do monopólio da viagem interestelar pela Guilda Espacial. A conexão entre esse calendário e a nossa linha de tempo não fica clara, mas um dos apêndices do livro faz uma menção bastante vaga a viagens espaciais durante “cento e dez séculos que precederam o Jihad Butleriano” (pág. 510), sendo que este Jihad é um evento muito importante na cronologia de Duna, tendo se iniciado no ano 201 a.G. Portanto, temos aí pouco mais de 11.000 anos de exploração do espaço (iniciando-se na segunda metade do século XX, claro), mais 10.191 anos depois da fundação da Guilda, o que situa a história lá pro ano 23 mil e lá vai paulada do nosso calendário. A história pré-Guilda é tratada na série de maneira nebulosa e obscura, então não há como garantir a veracidade desses números, mas isso não faz diferença – o que importa é que este cenário está tão afastado dos dias atuais que quaisquer referenciais modernos de tecnologia, bem como história, política, cultura, etc. já não significam mais nada. Isso, aliás, elimina um problema bastante comum à ficção científica, que é o risco de cometer erros crassos ao tentar “prever” o futuro; Frank Herbert se safou de ter que se preocupar com os caminhos que o mundo levaria nos anos seguintes nas esferas política, cultural e social.

Outra questão que autores de FC às vezes têm dificuldade de acertar é a tecnologia; às vezes imaginam tecnologias avançadas demais pra cronologia proposta (já é 2014! cadê nossas colônias espaciais e robôs falantes?), e outras vezes deixam de prever avanços que revolucionam completamente o mundo (principalmente a internet; ninguém antes da década de 80 conseguiu imaginar isso). Já Frank Herbert também se evade dessa questão imaginando um cenário quase medieval, onde a tecnologia foi meio que abandonada em diversas áreas (apesar de estar presente em outras), devido a duas grandes influências: os escudos e o Jihad Butleriano. Os “escudos” são uma espécie de campo de força pessoal que bloqueia qualquer coisa que entre a uma velocidade alta (assim inutilizando completamente as armas de projéteis, como armas de fogo), mas que também reagem de forma violenta a armas laser, gerando uma explosão subatômica que destroça não só o usuário do escudo mas também quem atirou nele (e todo mundo que estiver em um raio de centenas de metros). Pra mim isso soou como uma desculpa pra todos usarem espadas, facas e outras armas brancas no combate, mas tá valendo.

Já o Jihad Butleriano não chega a ser descrito em detalhes na obra original de Frank Herbert, ficando apenas como uma referência vaga (apesar de Brian Herbert, filho de Frank, que passou a escrever material neste universo após a morte do pai, ter narrado o evento em um livro de 2002). Entretanto, pelo que pode se depreender do pouco que o livro fala do assunto, tratou-se de uma guerra entre os seres humanos e as Máquinas, bastante semelhante ao que pode-se ver em uma infinidade de outras obras de FC, como O Exterminador do FuturoMatrix. O caso é que, como consequência dessa guerra, a Humanidade adotou a rejeição às “máquinas pensantes” como um preceito fundamental, consolidado no mandamento religioso “não criarás uma máquina para imitar a mente humana”, o que eliminou completamente os computadores (e quaisquer equipamentos eletrônicos mais sofisticados) da civilização humana, o que ajuda a completar o quadro “low-tech” que predomina no cenário de Duna.

Paul Atreides usando a tecnologia do escudo, no filme de 1984

Paul Atreides usando a tecnologia do escudo, no filme de 1984

Para suprir a ausência de computadores, a Humanidade desenvolveu formas de treinamento mental que amplificam as capacidades psíquicas de certos indivíduos talentosos, gerando três grupos de pessoas altamente especiais: os Mentat, ou “computadores humanos”, treinados para fazer cálculos lógicos e matemáticos extremamente avançados; os navegadores da Guilda Espacial, que usam habilidades precognitivas para navegar através do hiperespaço (assim tornando possível a viagem interestelar mesmo sem computadores de bordo); e as Bene Gesserit, uma misteriosa ordem composta exclusivamente por mulheres, cujo treinamento exclusivo lhes confere habilidades como controle absoluto sobre seus corpos, músculos, nervos e até metabolismo (conseguindo inclusive neutralizar venenos), além de uma certa capacidade de discernir o que os outros estão pensando (estilo Lie to Me) e exercer um controle mental limitado sobre mentes mais fracas, além de uma espécie de arte marcial quase invencível. (Não, qualquer semelhança com os Jedi não é mera coincidência.) As Bene Gesserit se infiltram secretamente em diversos setores da sociedade (mas principalmente na nobreza e realeza), sutilmente manipulando a tudo e a todos para avançar seus objetivos escusos, sendo um dos principais a manipulação genética da Humanidade através de “cruzamentos” selecionados em um programa de milênios de duração, em busca de um ser humano perfeito, o Kwisatz Haderach, que seria o primeiro homem Bene Gesserit e atingiria poderes psíquicos até então inimagináveis.

Você deve ter reparado que eu falei, falei e falei do cenário, e até agora nada da história do livro em si. Pois é, isso não é à tôa. Duna se destaca pelo cenário ricamente detalhado e cuidadosamente pensado, comparável somente ao de Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien (como bem lembra Arthur C. Clarke), e que vai sendo mostrado pouco a pouco ao longo dos (muitos) livros da série, tanto os de Frank Herbert quanto os de seu filho Brian. Mesmo assim, dá pra ver que os livros mal arranham a superfície do universo que Herbert criou – a impressão que ficou bem clara para mim é que ele é do tipo (novamente, igual a Tolkien) que resolveu criar um mundo complexo e intrincado mais pelo prazer de fazê-lo, e para especular sobre um dos possíveis caminhos que a humanidade poderia tomar ao longo dos milênios, do que simplesmente como uma ambientação para sua história. Talvez seja por isso que o universo de Duna seja tão rico, tão cheio de elementos interessantes e intrigantes, de forma a ter inspirado um monte de outros semelhantes dentro do sub-gênero que ele criou, de “fantasia espacial” (sendo Star Wars somente o exemplo mais famoso).

Focando agora no primeiro livro em si, Duna é, antes de mais nada, um épico. A começar pelo tamanho – a edição da Editora Aleph tem 498 páginas só no texto principal (543 contando os anexos), e isso porque a letra é meio pequena. Mas o caráter épico do livro vai muito além de seu tamanho; assim como as grandes epopeias das diferentes culturas mundo afora (Ilíada, Epopeia de Gilgamesh, a lenda de Rei Artur, etc.), Duna conta a história de um grande herói, desde seu início despretensioso (mas cercado de presságios), passando por sua queda e por provações extremas, até chegar a seu triunfo e consagração como uma figura muito superior aos simples mortais. (Novamente, a comparação com Star Wars e a “lenda do herói” representada por Luke Skywalker é evidente.) No entanto, como o autor fez questão de deixar claro em seus comentários, aqui o “herói” é analisado também em seus aspectos mais sombrios – Herbert costumava dizer que a tendência das pessoas de confiar em “heróis” é nefasta, pois os heróis também são sujeitos ao erro (além de frequentemente sucumbirem ao orgulho), e, ao receberem uma grande quantidade de poder sobre as pessoas, seus erros passam a ter consequências enormemente amplificadas por sua influência e popularidade; além disso, mesmo que o herói eventualmente caia ou morra, o movimento que se forma em torno de si ganha vida própria e foge ao seu controle, muitas vezes descambando para o fanatismo desenfreado e destrutivo, outra preocupação constante ao longo do livro.

Paul Atreides, o grande herói de Arrakis, no filme de 1984

Paul Atreides, o grande herói de Arrakis, no filme de 1984

O herói em questão é Paul Atreides, o jovem filho do duque Leto Atreides, que logo no início do livro recebe do imperador-padixá (a presença de palavras e títulos que remetem ao Oriente Médio é constante) a incumbência de governar o planeta desértico chamado Arrakis. Este planeta é especial por ser a única fonte da Especiaria (também chamada de mélange), uma substância capaz de conferir poderes especiais a quem a consome (como longevidade extrema e precognição), sendo o segredo por trás das habilidades dos navegadores da Guilda Espacial. Por esse motivo, a Especiaria é extremamente valiosa, pois controlá-la significa controlar uma das instituições mais poderosas do universo (a Guilda Espacial), e, por consequência, todas as viagens interestelares. Essa situação torna Arrakis um planeta altamente disputado, e quem o controla passa a ser alvo de todo tipo de conspiração – sendo por isso mesmo que a concessão do planeta aos Atreides é entendida como uma armadilha, da qual o duque Leto não pode escapar.

Quando a armadilha se fecha e a casa Atreides cai em ruína (aliás, isso não é bem um spoiler, pois os epígrafos no início de cada capítulo entregam isso desde o começo), o jovem Paul é obrigado a viver entre os Fremen, um misterioso povo do deserto, adaptado a viver em condições de extrema seca – praticamente toda sua cultura é formada em torno da conservação de água e sobrevivência no deserto. E é entre eles, com esse povo tido como selvagem e barbárico pelas nações “civilizadas”, que Paul encontrará seu destino e o caminho que o levará à glória. Isso inclui a concretização de profecias, tanto dos Fremen (que esperam seu Mahdi, ou messias), quanto das Bene Gesserit, pois tudo indica que Paul poderá atingir o status de Kwisatz Haderach.

Vejamos… temos aqui um deserto, que é a fonte de um recurso valioso, talvez o mais importante de todos, que é inclusive fundamental para o transporte… e esse deserto é ocupado por um povo profundamente religioso, disposto a todo e qualquer sacrifício em nome de seu profeta… e, aliás, as palavras usadas por esse povo (Mahdi, Lisan al-Gaib, Muad’dib, Sayyadina etc.) são claramente de origem árabe… eu mencionei que a religião deles é descrita como “zen-sunita” (mescla de zen-budismo com o ramo sunita do islamismo)? Pois é, a coisa toda remonta muito aos conflitos no Oriente Médio, inclusive pelos aspectos da disputa pelo petróleo e do fundamentalismo religioso, lembrando muito a Crise do Petróleo de 1973 e a Revolução Islâmica do Irã em 1979. Só que… o livro foi publicado em 1965. Será que Frank Herbert consumiu um pouco de especiaria e ganhou a habilidade de ver o futuro? Nada disso – ele era só altamente perspicaz e atento às tendências da época (por exemplo, o fundamentalismo islâmico moderno começou a aflorar a partir da década de 1920, apesar de ficar mais em evidência a partir da Revolução Islâmica). Além de que o enredo tem bastante inspiração na história de T. E. Lawrence (mais conhecido como Lawrence da Arábia), um intelectual, militar e agente secreto britânico, que conseguiu ganhar a confiança das tribos de beduínos árabes durante a Primeira Guerra Mundial e liderá-las de forma decisiva para consolidar os Estados que existem atualmente no Oriente Médio.

Lawrence da Arábia, no filme de 1962

Lawrence da Arábia, no filme de 1962

Outro tema importante de Duna, e algo que praticamente não se falava na época, é a ecologia. Consta que a inspiração para escrever este livro veio de um artigo que Herbert escreveu sobre a maneira que o Departamento de Agricultura dos EUA encontrou para “domar” as dunas de areia do estado de Oregon, que estavam se espalhando descontroladamente sobre as cidades. Com métodos cuidadosos, eles conseguiram plantar gramíneas nas tais dunas, o que tornou-as mais firmes e fixas, além de atrair água para o terreno, mudando completamente a ecologia do lugar. Herbert imaginou então algo semelhante sendo feito em escala planetária, e isto é o mote central de uma das tramas do livro – a tentativa de terraformar o planeta Arrakis, alterando seu clima e ecossistema para que ele se torne um lugar fértil e verdejante, através de um trabalho cuidadoso e paciente no qual as plantas são o motor da prosperidade ecológica. Entre isso e a preocupação com a conservação da água por parte dos Fremen (pois ela é um recurso raro e valioso em Arrakis), o livro Duna foi tido como uma influência considerável (ou no mínimo um incentivo) no movimento de conscientização ecológica que começou a tomar corpo na década de 1960.

O texto é um pouco denso às vezes – a tentação de consultar o glossário a cada palavra nova (o que acaba sendo às vezes umas 10 vezes por parágrafo) torna a leitura mais lenta, apesar de isso não ser estritamente necessário. Até mesmo os diálogos e cenas de ação às vezes dão um certo trabalho para ler, principalmente quando envolvem as Bene Gesserit e Paul Atreides, cujos poderes de observação tornam os detalhes mais minuciosos de cada cena cruciais para compreender sua linha de raciocínio. Aliás, creio que Duna comporta duas leituras diferentes: uma mais descontraída, sem qualquer tipo de consulta (talvez até pulando os epígrafos que tem no começo de cada capítulo, detalhando mais o cenário e background sob o ponto de vista de uma personagem secundária, a princesa Irulan), para absorver a história do ponto de vista da novidade; e uma segunda, já consultando os glossários, apêndices e mesmo materiais online, para entrar mais a fundo nesse universo e compreender todas as referências obscuras do livro. Mas apesar de ter lido logo da segunda maneira, eu pelo menos não me senti cansado ou desencorajado a prosseguir – a história é empolgante, e progride em um ritmo firme, sem sucumbir à enrolação que eu achei que haveria no livro. A tradução (de Maria do Carmo Zanini) ajuda bastante – ela tinha um desafio considerável neste livro, recheado de neologismos, referências árabes, falas às vezes complexas e rebuscadas (principalmente do duque Leto Atreides), mas conseguiu fazer tudo isso soar extremamente natural ao leitor brasileiro.

E por que eu achei que o livro seria uma enrolação maçante? Porque na verdade eu já conhecia a história antes de lê-lo, através da adaptação para o cinema de 1984, de David Lynch. Vou te contar uma coisinha sobre mim… até uns 2 anos atrás, eu sofria de insônia crônica, algo que me acompanha desde criança. Não havia meio de eu dormir a maior parte do tempo. A coisa era grave mesmo, só com um tratamento extenso à base de remédios que isso se resolveu mais tarde. E, mesmo assim… eu dormi durante quase o filme todo. Sério, não lembro de quase nada dele. David Lynch tá de parabéns nesse aspecto. O filme tem umas 2 horas e 20 minutos, mas parece ter o dobro. E isso porque ele é bem diferente do projeto que andou circulando por aí na década de 70 – consta que Alejandro Jodorowski (quem conhece sabe que esse cara não bate bem da cabeça) ia produzir e dirigir o longa. E bota longa nisso – o projeto era para um filme de 10 horas (!) de duração. Ninguém menos do que Salvador Dalí ia fazer o papel do Imperador. Tenho muita curiosidade de ver a doideira que seria esse filme… no de 1984, o que tem de mais bizarro é o Sting de cueca. Desde então, teve também uma minissérie do canal Sci-Fi (hoje Syfy), de 2000, que dizem ser bem melhor, com uma continuação de 2003 chamada Children of Dune, baseada nos livros seguintes de Frank Herbert.

Imagem promocional da série de 2000

Imagem promocional da série de 2000

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