[LIVRO] Drakarian: Caos, de Jhon J. Silveira (resenha)

É triste, mas muita gente ainda tem preconceito com a literatura nacional e com os autores iniciantes! (Sim, eu confesso que também já fiz parte, mas hoje em dia minha inclusão é cada vez menor.) Principalmente quando se trata do gênero fantasia ou ficção. A nossa literatura tem um potencial enorme para pleitear um lugar de destaque no cenário mundial da literatura fantástica, vide Eduardo Spohr e André Vianco, entre outros fantásticos escritores brasileiros.

E para exorcizar esses preconceitos inconsistentes, trago uma indicação a vocês, meus caros nerds, leitores ávidos por explorar novos mundos de fantasia. O livro Drakarian: Caos, uma fantasia dark nacional do autor “ainda” desconhecido Jhon J. Silveira. Livro esse que me foi apresentado por intermédio de um amigo de faculdade.

Sinopse:

Após a consolidação do reinado de Varstet pelo continente, o rei se vê encurralado em meio às intrigas e desavenças de seus próprios súditos. Talvez aqueles fossem os últimos meses de seu reinado, então nada mais justo que treinar sua herdeira para o trono. Mas o tempo se esvai como uma grande cachoeira, então o rei decide deixar seu herdeiro nas mãos de seu próprio mestre.

Já no prólogo somos jogados no meio de uma batalha pelo controle do reino. Ao longo da leitura somos apresentados a vários personagens, com destaque para Elmerald, Ashe e Daemon, Wyvern e Varstet, Marcus entre diversos outros. Conhecemos um pouco do passado de Drakarian, e somos levados a conhecer alguns segredos escondidos, além de boas revelações sobre o que aconteceu em decisões que se refletem no presente do reino.

– A coroa existe para proteger os homens de outros homens e deles mesmos, imagine Lorde como o mundo seria sem homens detentores de poder, para mandar e controlar aqueles que nem sequer conseguem controlar a si mesmos, a humanidade precisa e sempre precisará de homens assim, até os animais precisam de líderes mi lorde. – Marcus caminhou até o homem sentado se aproximou mais ainda de sua orelha e sussurrando disse. – Sugiro que colabore, se esquece de quem é o regente? Se esquece de quem eu sou?

O rei Varstet é um grande e perspicaz guerreiro, que já esteve em diversas batalhas, enfrentando levantes contra poderosos oponentes para garantir a integridade do reino. Segredos obscuros o rodeiam, e intrigas palacianas o rodeiam esperando o momento certo para atacá-lo.

– Todos estão tão próximos à morte que se fechar os olhos e enxergar as coisas com a alma sentirá sua foice próximo ao seu pescoço. – Seus olhos vermelhos fitavam a face esbranquiçada da lua.

O enredo gira em torno de Emerald, a princesa do reino, única herdeira do trono, já que seus irmãos, Ashe (Que guerreira feroz, e amiga fiel!) e Daemon não podem adquirir o poder do reino por motivos que só serão lhe revelados ao longo da narrativa.

Wyvern possivelmente é o personagem mais mortal de toda a narrativa, o maior dos Drako, ele é o tutor de Emerald, guiando-a nos mistérios do Caos, para que se torne uma rainha sagaz, sábia e mortal. E apesar de ser uma garota, Emerald não é poupada em momento algum do árduo e cruel sofrimento aplicado pelo seu guardião. Mas ele também sabe a hora de dar um momento de descanso para a jovem aprendiz. Diríamos que ele a deixa respirar e tomar o fôlego antes de mergulhar no doloroso treinamento, a fim de se tornar uma grande rainha. Uma coisa interessante do treinamento é que não é focado apenas no físico ou na dominação do Caos, também é ensinado à pequena princesa que, para governar, precisa-se de sabedoria.

– Nada demais, só aprendi um pouco da matemática usada nas construções de castelos, o funcionamento de algumas máquinas de cerco, algumas das antigas artes marciais do sul e do leste, como funciona a hierarquia e o sistema que rege as cidades estado…

O antagonista, Karnarion, é apenas uma marionete nas mãos do verdadeiro inimigo. Inimigo esse que se esconde nas sombras e, apesar do fardo causado por suas ações, tudo o que temos é só um gostinho do flagelo que ele ainda irá causar. E não podemos nos esquecer de Stravion (“Um porco e suas meretrizes”).

A escrita do autor, apesar de iniciante, é muito boa, fluida e clara. Com o tempo ela irá se lapidar ainda mais. Há pequenos erros gramaticais e de concordância, mas nada que atrapalhe o sabor da leitura.

– Você pode adquirir uma pequena parcela de conhecimento em alguns segundos, mas o que chamamos de mestres demoram mais que anos para serem feitos, o melhor é que para se tornar um basta apenas um pouco de curiosidade e muita sede do saber. –Wyvern se virou caminhando de volta para a floresta enquanto a jovem princesa ficava ali parada esperando a porta ser aberta.

O autor gerou algo crível, e deu profundidade ao mundo que construiu. Drakarian possui todo um passado reservado ao reino e seus habitantes, auxiliando para que tudo se torne algo palpável. Há diversas raças que permeiam o imaginário drakariano. Desde elfos, lobisomens, magos, humanos (não me diga!), meio dragões, entre outras criaturas fantásticas e aterradoras. Além das intrigas palacianas e batalhas sangrentas (as quais, tenho que destacar, são muito bem descritas), ao longo da narrativa presenciamos costumes, festivais, funerais, justas, magias e encantamentos praticados, estratégias de guerra, e danças mortais.

Sempre um homem e uma mulher lutavam no festival, não até a morte, mas até que um deles se rendesse. As espadas de duas lâminas foram substituídas por floretes, grandes e finos, pareciam grandes agulhas que ao invés de costurar pano abriam pequenos furos no corpo finos o suficiente para não serem vistos, mas grandes o suficiente para provocar um sangramento que com o mal cuidado poderia causar a morte por falta de sangue no corpo.

Silveira teve o cuidado de criar a própria língua nativa, dividida entre o baixo drakariano e o alto drakariano, além do élfico. Foram poucas as linhas escritas na nova língua, porém, é algo louvável para um escritor iniciante (Tolkien com certeza confirmaria que ele está no caminho certo na criação de seu mundo).

– Adkvik dumat averck – Disse em uma língua lembrada apenas pelos sacerdotes do reino, tão velha quanto o solo em que pisava, uma fumaça negra tomou o ar dez passos à sua frente. Uma figura com uma armadura de couro preta leve começou a tomar forma a sua frente, sua máscara em um formato de rosto humano, impossibilitava sua identificação. – Você ouviu? – Disse ele se levantando olhando a criatura a sua frente.

A dor e o sofrimento causados nos personagens são algo constante. O lado vil do autor é um ponto a se destacar, (titio Martin ficaria orgulhoso ao se deleitar com algumas páginas). John descreve habilmente o martírio de alguns personagens, a rainha élfica Hadrick que o diga (você não conhecerá sofrimento até conhecer sua historia). Mas toda a dor e martírio tem um sentido no contexto, não existe sofrimento ou morte gratuita na história. Tudo acontece por algum motivo.

Mas não só de Drakarian vive o autor. Nos são exibidos outros reinos que fazem fronteira com o reino mor, são eles Norn e Tryke, além das cidades estado de Cianport, Sunset Valley, Witeport, Fortaleza do Crepúsculo e a Cidade das Sete Torres.

O livro, por enquanto, se encontra apenas em formato digital. Mas com o grande potencial que possui, ele merece um tratamento melhor, com esmero e cuidado, uma edição e revisão caprichadas, de preferência com uma capa detalhada (Fica a Dica!) e acabamento diferencial. Em conversa com o Silveira me foi revelado que o livro dois já está em andamento.

A madeira se estilhaçou no lobo que havia no escudo do jovem que caiu, sua nuca bateu no chão e virou uma cambalhota com o impacto e depois caiu imóvel, por um segundo a plateia vibrou e logo depois o silêncio veio a corroer a barulhada incessante. Pela fresta do capacete ele viu os rostos do público chocados e fixos em suas costas logo chegou a uma conclusão óbvia, assim que olhou para trás e viu quatro homens em volta do garoto, e uma poça de sangue crescia, viu seu pai atravessar a arena e empurrar todos que rodeavam seu filho, assim que Wyvern se aproximou e pode ouvir.

– Minha culpa… – Murmurava o velho.

Drakarian: Caos é um diamante que está em processo de lapidação, e pode se tornar uma obra de fantasia dark louvável no cenário nacional.

— Uma aranha sempre tece suas teias ritmadas de acordo com o que deseja, pois sempre sabe como será sua presa. — deu um passo à frente e seu corpo se transformou em brasas que voaram com uma pequena brisa proveniente do único lugar onde dava acesso ao exterior. — Eu sei quem irá me matar, mas um moribundo não detém de força suficiente para parar seu próprio assassino não é mesmo? — novamente tomou forma sentando em uma cadeira de chamas à sua frente.

O livro está disponível para leitura na plataforma virtual Recanto das Letras.

Nome: Drakarian Caos.

Autor: Jhon J Silveira

Páginas: 229

Onde Ler: Recanto das Letras