[LIVRO] “Doctor Who: O Prisioneiro dos Daleks” de Trevor Baxendale (resenha)

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por Cilon Mello

O Décimo Doutor, interpretado por David Tennant, é discutivelmente o mais popular da nova geração da série, mas eu sempre senti que havia alguma coisa nele que me incomodava pessoalmente. Foi só nos últimos episódios dele que eu finalmente entendi o que era: o Décimo Doutor não é um homem bom.

Entre pirotecnias, frases engraçaralhas e sobretudo com tênis, este Doutor é um homem arrogante e intransigente, que não pensa duas vezes em destruir qualquer um que olhe torto para ele. Diabos, todo o ponto de desenvolvimento do personagem é justamente que a diferença entre ele e o Mestre é que o Doutor tem a companion para “detê-lo”, como Donna disse. Mas, e quando ele não tem essa influencia positiva, o mantendo um dos caras bons?

O livro “O Prisioneiro dos Daleks” se passa exatamente neste ínterim (sempre quis usar essa palavra) do que viriam a ser os últimos dias do Décimo Doutor, quando ele andava sozinho por aí, e desenvolve muitas questões que valem a pena serem desenvolvidas.

A aventura começa de uma forma bastante despretensiosa: para variar, a TARDIS bugou (ou tem um plano acima da compreensão do Doutor, nunca se sabe com a TARDIS), e foi parar em um lugar onde o Doutor não deveria ter ido parar. Bem, não o lugar em si, mas a época: bem atrás na linha temporal, antes dos Daleks descobrirem a viagem no tempo, que acabaria resultando na Grande Guerra do Tempo contra os Senhores do Tempo. Naquela época, os Daleks tretavam “apenas” contra o Grande Império Humano, e embora o Doutor já tivesse enfrentado os Daleks várias vezes naquela altura, como tantos outros aliens que tentaram destruir a Terra, os Senhores do Tempo de Gallifrey ainda não viam necessidade de se envolver, porque eram apenas tretas mundanas.

TARDIS

Ou seja, a possibilidade de criar um paradoxo voltando na sua própria linha do tempo é enorme, e é por isso que o Doutor não faz isso, exceto quando dá na telha da TARDIS.

Neste passado longínquo, o Doutor encontra um grupo de caçadores de recompensas que caçam Daleks para o Alto Comando da Terra, que está recrutando toda ajuda que pode conseguir no coração da guerra desenfreada contra os Daleks. Sua trupe de novos amiguinhos e o Doutor acabam capturando um Dalek – situação essa que, como está escrito na própria contracapa do livro, logo de inverterá, e o Doutor passará a ser um prisioneiro dos Daleks.

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Agora que repassamos o resumo, vamos às partes interessantes.

Diferente da série de TV, o livro é bastante pesado. A BBC mantém alguma linha meio familiar com o show e, apesar de mortes, traições e dilemas éticos, o próprio Peter Capaldi (o atual Doutor) o descreve como um programa para crianças. Aqui, no entanto, o tom é muito mais sombrio e pesado.

Vê, Daleks são grandes saleiros meio bobinhos com vozes engraçadas e com um desentupidor de pia, mas além disso, eles são mutantes incapazes de sentir qualquer coisa além de ódio e xenofobia. Isso quer dizer que eles não possuem qualquer compasso moral, e existe um motivo para o Doutor odiá-los tanto (bem, além da coisa da Guerra do Tempo e da extinção da sua raça, claro), mas aqui é mostrado sem meias palavras o quão maus os Daleks podem realmente ser. Há tortura, escravidão e sofrimento, de uma forma pesada, porque Daleks não são motivo de piada (embora pareçam).

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Não mesmo…

E como já dizia aquele filosofo alemão cujo nome parece o som de um espirro, aqueles que combatem o mal devem cuidar-se para não personifica-lo, pois se você olha muito tempo para dentro do abismo, o abismo olha de volta para dentro de você. O livro é bastante sobre isso, e como eu já havia dito, esse Doutor não é exatamente um homem bom para começo de conversa.

Tudo isso por si só já daria um livro muito interessante, mas existe outro ponto ainda que é bem explorado no livro: a impotência do Doutor. O Doutor é um gênio, mas, fora seu QI brilhante, ele não tem nenhum tipo de poder ou armas. Na verdade, tirando a melhor nave do universo e uma chave de fenda sônica (e tem situações em que um hackeador universal capaz de fazer as coisas vibrarem não pode resolver tudo, por incrível que pareça), ele não tem nada realmente. Na maior parte das vezes, sequer um plano.

Quase todas as aventuras do Doutor envolvem ele pulando com a cara e com a coragem, e na hora H ele pensa em algo genial, ou alguém resolve por ele, ou uma sequencia de sorte salva o dia, ou mesmo as coisas se resolvem sozinhas. Mas e se nada disso acontecer? Um dos pontos fortes deste livro é justamente esse, e existem várias situações desesperadoras em que o Doutor é obrigado a encarar que, por mais esperto que ele seja, no fundo ele é apenas um homem, o que passa uma sensação de opressão e desespero bem grande. Existem momentos em que inventar uma palavra que soe engraçada, ou usar óculos 3D, não vão salvar o dia, e o livro é bastante sobre esses momentos.

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Além de sua temática pesada, o livro é bastante bem escrito, e assim como acontece com “Mortalha da Lamentação”, você consegue sentir claramente os trejeitos do Doutor durante a leitura. Às vezes um pouco demais, e algumas frases de efeito do David Tennant parecem meio deslocadas, como se só estivessem ali porque o autor é fã do personagem, mas o livro mais acerta do que erra nesse sentido.

Também merece destaque a exótica e marcante comitiva humana (ou quase) que acompanha o Doutor nesta aventura. Como acontece nas grandes aventuras do Doutor, eles não são meros figurantes e sim protagonistas, pois um dos conceitos da série é que o Doutor é só “um alien de passagem, ajudando sempre que pode”. E você se importar com os personagens em um livro pesado é fundamental para que ele funcione, o que acontece.

O Prisioneiro dos Daleks” é um excelente livro que faz exatamente o que eu esperaria de um livro: explorar conceitos da série que não foram ou não podem ser explorados na TV, tem ótimas idéias, desenvolvimento de personagens e é uma das melhores aventuras de Doctor Who sobre Daleks que eu já vi, no mínimo tão boa quanto o episódio “Into the Dalek”.

Capa O prisioneiros dos Daleks.inddDoctor Who: O prisioneiro dos Daleks
Trevor Baxendale

Tradução: Camila Fernandes
Formato: 16 x 23
208 páginas

nota-4