[LIVRO] Deuses Renascidos, de Sylvain Neuvel (resenha)

Poucas coisas são tão legais de se ver quanto robôs gigantes descendo a porrada um no outro. Mas e se tal embate custasse as vidas de milhões de inocentes? Não seria tão legal assim, né?

Pois esta é a premissa Deuses Renascidos, continuação de Gigantes Adormecidos, que foi um dos livros mais bacanas que li ano passado.

Devo dizer que não foi uma leitura muito propícia pra fase pela qual passei atualmente. Andei enfrentando crises de ansiedade, depressão e estresse no início deste mês, que ocorreram paralelas à leitura desse novo capítulo dos Arquivos Têmis. Creio que acompanhar uma história em que ocorre uma sucessão de tragédias e situações que deixam os personagens no limite de suas forças e de sua sanidade não é exatamente o tipo de coisa que ajuda alguém que está tentando evitar atividades que provoquem algum tipo de angústia.

A Dra. Franklin me entende…

Mas eu não posso acusar Sylvain Neuvel de ser um escritor que não sabe prender minha atenção. Isto ele fez com maestria no livro anterior e neste também, o que me ajudou bastante a distrair minha mente inquieta e sedenta por algo que a mantivesse focada por mais de cinco minutos. Aliás, a julgar pela breve biografia do autor na segunda orelha do livro, Sylvain me parece outro que não consegue ficar muito tempo fazendo uma coisa só.

Dito isto, vamos aos pormenores e qualidades dessa ficção científica que merece a atenção de quem se interessa por robôs gigantes, invasão alienígena, engenharia genética e o risco de extinção da humanidade.

Deuses Renascidos é sobre um iminente apocalipse robótico alienígena (!), e sobre como alguns indivíduos extraordinários tentam salvar a espécie humana enquanto tudo fica mais urgente e trágico a cada novo capítulo.

Estou falando de um livro que começa com o misterioso aparecimento de um robô gigante no meio de Londres, com o mesmo poder destrutivo de Têmis, a máquina de combate montada no livro anterior, capaz de enfrentar exércitos inteiros como se fosse brincadeira de criança.

A fleuma britânica demonstrando sua utilidade.

Ah sim! Antes disto há um prólogo capaz de deixar qualquer leitor louco pra saber o que diabos está pra acontecer. Direi apenas que envolve uma menina de dez anos, um sonho premonitório e muita gente morta. Se você começa teu livro assim, grandes são as chances de seu leitor insistir um bocado pra saber onde isto vai dar. Então é bom que você tenha uma boa história pra contar, se não quiser desperdiçar um ótimo pontapé inicial. Felizmente, Sylvain tinha uma.

Novamente, o autor investiu numa abordagem mais intimista do que grandiosa, contando a maior parte da história através de diálogos entre os personagens, alternando-os com reportagens, trechos de diários, registros de comunicações militares ou das forças aéreas, e o que mais julgou útil pra dar um tom realista pros eventos fantásticos que desejava narrar. E, acredite, isto fez uma diferença enorme.

Você pode não ter um quebra-pau entre robôs epicamente narrado, mas tem a visão “privilegiada” dos pilotos de Têmis, enquanto eles se viram pra dar conta de um adversário igualmente gigante e poderoso. A luta mais te deixa perdido do que te empolga, o que acaba combinando com a situação, pois a ideia é mesmo transmitir pro leitor o perrengue de Kara e Vincent dentro de Têmis tentando sincronizar seus movimentos enquanto buscam um meio de sobreviver e, se possível, derrotar um titâ alienígena de mais de 60 andares de altura.

Seus exemplos de “não mexe com o que tá quieto” foram atualizados…

O melhor que Deuses Renascidos tem a oferecer não são lutas épicas entre robôs gigantes alienígenas, mas relatos da dinâmica social, política, científica e filosófica que conecta os eventos narrados. Claro que parte do que Neuvel constrói é a expectativa de um conflito entre Têmis e seja lá quais inimigos a aguardam no futuro. Mas, antes disto, o que mais importa é revelar as circunstâncias que levaram a isto, e como todos os envolvidos contribuíram para a formação do conflito, e foram afetados por ele. E Neuvel é excelente criando personagens com os quais nos importamos, mesmo aqueles cujo nome sequer sabemos, como o Empregador (um apelido que dei ao interlocutor sem nome que arquiteta a maioria das operações relacionadas a Têmis).

É elogiável também o quanto Neuvel se mostrou disposto a não ficar segurando soluções para alguns de seus mistérios. Na 1ª parte ele já nos dá uma resposta para a questão com a qual encerrou Gigantes Adormecidos.

Se o livro anterior tinha muito de Voltron, neste a referência mais forte é Evangelion, especialmente após os eventos trágicos que marcam o fim da parte 3, arremessando os sobreviventes em uma nova fase de suas vidas. Dois deles, em particular, têm os destinos diretamente afetados e entrelaçados. Também há conceitos e ideias que remetem ao clássico O Dia em que a Terra Parou, e à série em quadrinhos Os Eternos, de Jack Kirby. A este respeito, direi apenas que o futuro da humanidade depende da avaliação e do julgamento de “deuses” alienígenas. Daí o título do livro.

Neuvel também conseguiu amarrar ao seu mosaico narrativo questões sobre ética científica envolvendo engenharia genética, que é outra subtrama que serve para desenvolver a relação dos personagens já conhecidos, introduzir novos, e gerar conflitos entre eles. Mantendo todas essas “peças” em movimento sem perder o controle sobre a narrativa, Neuvel criou uma experiência literária que jamais cansa o leitor. Também vale mencionar que a primeira grande batalha ocorre em Londres, o que remete a Guerra dos Mundos, sendo mais uma das muitas referências / homenagens presentes no livro.

Verdades da vida…

Deuses Renascidos não seria tão eficiente como entretenimento se não fosse por Kara, Vincent, Rose, Eva, Eugene e o Empregador. Neuvel, desde o primeiro livro, foi muito feliz na concepção de seus “heróis”. A impressão que eles deixam é duradoura, algumas indo além do tempo em que participam da trama. E num livro em que a humanidade está passando por uma sequência de tragédias coletivas, a sobrevivência de todos não é garantida. Alguns morrem antes que o livro termine, mas a história continua, assim como nossa vontade de ir até o fim, pois os que sobrevivem são tão dignos de nossa atenção quanto os que partiram.

Diante de cenários cada vez mais devastadores e desesperançosos, creio que tudo o que nos faz continuar lutando para sobreviver é a chance de encontrar uma fagulha de esperança no meio das trevas espalhadas por milhões em luto. Os robôs, os mistérios, as tragédias, nada disto importaria se não nos apegássemos a alguns dos humanos que precisam responder perguntas, e buscar soluções para a sobrevivência da humanidade. Claro que robôs gigantes são legais, especialmente numa história bem contada como esta. Mas eles não seriam tanto assim sem os personagens que nos ajudam a sentir, com suas palavras, o peso das tragédias que acompanham a chegada dos alienígenas.

Eu estaria mentindo de dissesse que gostei do final de Deuses Renascidos tanto quanto gostei do desfecho de Gigantes Adormecidos. Neste 2º livro o gancho é bem menos angustiante. Direi apenas que a solução para o conflito final é um tanto anti-climática com uma pitada de Deus ex Machina. Não chega a insultar a inteligência, mas passa longe da engenhosidade dos capítulos anteriores. Mas não é um final ruim. Apenas não tem o mesmo impacto do clímax de Gigantes Adormecidos. Ainda assim, Neuvel conseguiu me deixar curioso pra ler a conclusão da trilogia.

A Suma de Letras merece elogios por ter conseguido lançar Deuses Renascidos pouco mais de um ano depois de Gigantes Adormecidos. O trabalho de edição está ótimo, e a tradução de Mateus Duque Erthal conseguiu dar voz e personalidade a cada personagem, ao mesmo tempo que preservou o estilo narrativo caleidoscópico de Neuvel, que é um dos aspectos mais atraentes da trilogia.

Então, fica a dica: quer uma história com conceitos bacanas de ficção científica, bem narrada e com personagens cativantes? Leia Gigantes Adormecidos e Deuses Renascidos. Mas não garanto sua sanidade mental caso seja  ansioso como eu…


Suma de Letras

Tradução: Matheus Duque Erthal

Brochura

3 x 16 x 2,2 cm

392 páginas

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