[LIVRO] Deuses Americanos, de Neil Gaiman (resenha)

Sobre a morte de velhos deuses no Novo Mundo

– O que você é? O que vocês são?

Bastet bocejou, exibindo uma perfeita língua rosa-escura.

– Pense em nós como uma espécie de símbolo. Somos o sonho que a humanidade cria para dar sentido às sombras na parede da caverna. Muito bem, agora vá em frente. Seu corpo está esfriando. Os tolos estão reunindo na montanha. O tempo não para.

Pág. 454

Há algumas semanas, quando recebi a nova edição de Deuses Americanos (Edição Preferida do Autor), de Neil Gaiman, publicada pela Editora Intrínseca, decidi começar a história partindo do escuro, sem nada saber do enredo além do título. Ignorei a introdução de Gaiman. Não li nenhum dos comentários na capa ou o comentário de Marcello Quintanilha no marcador de páginas. Rasguei a embalagem de plástico e dei o primeiro passo para a estrada impressa na primeira folha. Foi uma semana longa e fria. Atravessei uma das histórias mais sombrias que já tive o prazer de ler. Experiência que perpassou o mundo humano e a dimensão dos deuses em uma encruzilhada onde ambos se confundiam… Bem. Se você chegou até aqui por acidente e acaso, aprecia gêneros de suspense e terror, magia no mundo moderno e mitos andando por aí, aconselho que pare de ler imediatamente e vá comprar seu próprio exemplar de Deuses Americanos e descubra por si.

Todavia, se por teimosia ou curiosidade você persistir, então aviso: qualquer desventurado spoiler ficará por sua conta e risco.

As luzes se acendem. As cortinas se abrem. O silencioso e apático Shadow é libertado da prisão após três anos. O protagonista é um homem grande e forte, mas de personalidade contida, quase apagada. Origem óbvia do apelido. Shadow. Um praticante de truques com moedas que prefere falar o mínimo possível. A primeira coisa a fazer é ir ao enterro de sua esposa, recentemente morta em um acidente de carro. Apesar de se manter discreto, no caminho de casa, um sujeito insiste diversas vezes em contratá-lo para serviços escusos. Wednesday é seu nome. Cá entre nós, o trocadilho com a origem da palavra não é mero acaso. Wednesday. Trata-se de algum modo do deus Wodan, Wotan, ou Odin, para quem o dia de quarta-feira é devotado.

Sem ter o menor interesse nas motivações e objetivos de seu contratante, que aos poucos descobre ser, entre outras coisas, um habilidoso trapaceiro, Shadow inicia uma jornada pelas regiões mais remotas dos Estados Unidos da América. Não só no plano físico, mas estradas paralelas que atravessam os planos oníricos e espirituais daquele país. Ao mesmo tempo, de pouco em pouco, percebe a existência de forças antigas, que há eras se alimentam da crença dos homens. E conforme fica mais íntimo de Wednesday, e é apresentado a outros velhos deuses, descobre que está em curso uma guerra. Devido à extinção das crenças, outras entidades, representantes do espírito da modernidade, pretendem ocupar o lugar das mais antigas. Avatares do progresso tecnológico digital e da virtualidade. Potências midiáticas conscientes que se escondem atrás do sorriso de um apresentador de TV. A única coisa que desejam é tempo humano sacrificado em seu altar. Há também deidades correspondentes a automóveis e toda forma de veículo a motor. Um panteão inteiro que pretende reconfigurar a realidade divina. O temor de Wednesday e seus pares deixa claro que até os deuses morrem.

Entre tantas maravilhas provenientes da imaginação de Gaiman, a trágica jornada do herói Shadow resulta no encontro com criaturas mitológicas como divindades egípcias, eslavas e de origem africana (ressalto aqui Anansi, o deus aranha, o mesmo personagem do livro Os Filhos de Anansi, também de autoria de Gaiman). Ao longo da narrativa há certos capítulos independentes do enredo, que contam desde histórias sobre gênios oriundos da Arábia perdidos em Nova Iorque, a crônicas sobre sujeitos em fuga da Europa para as colônias americanas, ou mesmo crianças separadas da família, vendidas como escravas. Em todos os casos conta-se como os deuses e entidades atravessaram o oceano para serem esquecidos no Novo Mundo.

– Sinto muito pelo seu sobrinho.

– Eu também. Por isso estou morando aqui no norte. Bem longe das doenças do homem branco. Das estradas do homem branco. Das placas do homem branco. Dos Miatas amarelos do homem branco. Da pipoca doce do homem branco.

Whiskey Jack olhou para a lata.

– Quando o seu povo finalmente desistir e voltar para casa, pode deixar as fábricas de Budwiser.

Pág. 485

Outra característica formidável de Deuses Americanos é o equilíbrio entre o humor ácido e horror. Apesar de a morte e esquecimento inevitáveis cercarem tanto deuses quanto humanos, não há um personagem sequer que perca a oportunidade de praticar extravagâncias e provocar com ironia.

Apesar de agradável tensão e um universo fértil em possibilidades, Deuses Americanos não alcançou o status de minha obra favorita. Um dos pontos que não me agradaram muito foram as repetitivas explicações e detalhes demais a respeito do funcionamento do microcosmo criado por Gaiman, tanto por parte dos personagens quanto do narrador. Talvez, por esta versão preferida do autor possuir diversos trechos estendidos, sem o trabalho de edição original, boa parte do vácuo de mistérios não respondidos tenham sido preenchidos afinal. Todavia, não se pode negar que o livro é deveras vasto e me exigirá novas visitas, sem expectativa nenhuma de conclusão absoluta.

Entre laços de sangue de deuses e homens, ao passo que você, junto a Shadow, se arriscar através do território de antigas forças nutridas pelos sonhos humanos, estou certo de que se perguntará muitas vezes por quais estradas Neil Gaiman de fato perambulou, que abismos na própria alma ele visitou, e se de fato não foi por outros mundos que o diabo daquele maior-carrossel-do-mundo em Rock City o transportou.

Obs.: Além de capítulos estendidos, esta edição contém entrevista com o autor e um capítulo extra, essenciais para fãs e novos leitores que desejam apreciar mais da riqueza de Deuses Americanos.


Intrínseca

Brochura

22,8 x 15,4 x 3,2 cm

576 páginas

Disponível nas seguintes livrarias:

Amazon

Cultura

Livraria da Folha

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