[LIVRO] “Cyberstorm” de Matthew Mather (resenha)

CyberStorm-News

Natureza e tecnologia se unem para ferrar com a sua vida quando uma série de ataques cibernéticos derruba toda a infra-estrutura de energia, logística e comunicação dos EUA, justo no momento em que uma das piores nevascas da História deixa Nova York sitiada e morrendo de frio e fome. Acompanhe o desenrolar deste cenário apocalíptico em Cyberstorm, de Matthew Mather, o grande sucesso trazido ao Brasil pela Editora Aleph.

Logo de cara, preciso desabafar uma coisa: esse livro me deixou puto da vida. Mais ou menos o sentimento que a maioria das pessoas teve com o final de Lost, e também devido a uma derrapada na conclusão da história. Por isso, vou precisar comentar a respeito, e com spoilers… Entretanto, para quem veio aqui procurando se inteirar do livro antes de lê-lo, vou fazer uma resenha completa livre de spoilers, e para quem quiser ler, colocarei meus comentários sobre o fim do livro após o final da resenha. Portanto, não se preocupe… você não vai ler spoilers “de graça” aqui.

A história se foca em uma convergência nefasta entre uma tempestade de neve, trazendo o pior inverno que Nova York já viu, e uma série de ataques de hackers que geram o caos na sociedade ao derrubar toda a infraestrutura de logística e transportes, as redes de energia (controladas remotamente por computador), até o fornecimento de água, e claro, toda a Internet e outros meios de comunicação. Um surto de gripe aviária completa o cenário infernal, no qual um grupo de moradores de um condomínio, isolados, aterrorizados, ameaçados de todos os lados e sem ideia do que o destino os aguarda, faz de tudo para sobreviver e agarrar-se à sua humanidade. A trama é encabeçada por Mike Mitchell, cujo casamento vai de mal a pior, tendo como companheiros Chuck, seu vizinho paranoico e obcecado por sobrevivência, suas respectivas famílias, e os diversos moradores de seu andar, cada qual com seus próprios segredos.

Cyberstorm é basicamente uma obra do gênero de “desastre”, que acompanha o desenrolar de uma catástrofe de proporções colossais, bem como o cenário pós-apocalíptico que se instala como consequência. Portanto, a temática da sobrevivência está no centro da trama, com todos os aspectos que conhecemos em outras obras do gênero – a busca por comida, o conflito com outros sobreviventes hostis, a gradual deterioração das relações humanas conforme a ameaça de morte cresce cada vez mais, a civilização caindo em ruínas e sendo tomada pelo caos… Entretanto, o cenário urbano e a presença de serviços de emergência, determinados a contornar a crise na medida de suas possibilidades cada vez mais parcas, torna esta degradação algo lento e gradual, progredindo de forma agonizante, desde uma mera inconveniência a princípio, até um verdadeiro inferno na terra.

Resumo da maior parte do livro

Resumo da maior parte do livro

Aliás, o caráter gradual da desumanização dos personagens me incomodou um pouco às vezes. Talvez eu seja cínico demais, ou talvez esteja calejado por obras do gênero, mas a hesitação dos personagens em fazer coisas como saquear comida de supermercados, mesmo após já estar claro que a lei e a ordem foram pras cucuias e vão morrer de fome se não fizerem isso, me pareceu bastante exagerada. Entre outras tantas reações um tanto quanto afetadas demais na minha opinião – afinal, se há avisos de gripe aviária no local e meu filho tem uma gripe das brabas, eu é que não vou bobear deixando de usar luvas e máscaras porque “não quero tratá-lo como pária” ou alguma besteira assim. É GRIPE AVIÁRIA, sua anta! Só até chegar no hospital! Aposto que o moleque nem ia reparar! Mas enfim.

O autor resolveu estruturar a maior parte do livro em uma espécie de diário, com um capítulo para cada dia (com exceção do início da tragédia, cujos momentos críticos são narrados hora a hora, e partes no início e final que pulam vários dias ou mesmo semanas)… No entanto, sem abandonar o formato básico de narração, com pausas dramáticas e cliffhangers (momentos de tensão e incerteza no final dos capítulos), o que em certos momentos também gera certo estranhamento. Algo que acontece muito é o capítulo ir subindo cada vez mais a tensão, conforme alguma determinada crise se desenvolve, até chegar no clímax da cena, onde algo de extremamente dramático acontece… e o capítulo acaba. Normalmente, isso é usado pra forçar o leitor a continuar lendo, o que funciona na maioria das obras quando o capítulo seguinte consegue manter o nível de tensão, já que você está completamente pilhado, e espera uma resolução igualmente dramática do cliffhanger. Entretanto, em Cyberstorm, como o próximo capítulo geralmente se passa no dia seguinte, o que costuma acontecer é que a narrativa começa de novo de uma maneira tranquila, com o protagonista fazendo alguma coisa mundana, desfazendo totalmente a tensão que foi construída no capítulo anterior… e, depois de um tempo, ele reflete sobre o que aconteceu no dia anterior, do tipo “ah, e quando apareceu fulano, nós fizemos tal e tal coisa e resolvemos a situação”. A tal cena dramática é resolvida de maneira completamente decepcionante. Se isso acontecesse uma ou duas vezes, vá lá, mas é quase todo capítulo esse empata-foda. Um dos princípios mais fundamentais que se ensina aos autores de ficção é “mostre, não conte” – mas Matthew Mather parece que faz questão de tirar as partes mais empolgantes do livro da sequência narrativa direta e apresentá-las através de um relato chocho de segunda mão.

Aliás, já que estou reclamando mesmo, outra coisa que me incomodou bastante neste livro foi a tradução (de Carolina Caires Coelho). Há alguns erros grosseiros (como uma referência à “rua Nove” no que claramente deveria ser a Nona Avenida, pela geografia de Nova York, bem como uma referência a “Geórgia em Atlanta” – é a cidade de Atlanta que fica na Geórgia, e não o contrário – entre outros tantos), ou mesmo omissões (há referência a determinados personagens serem “brâmanes”, mas eles não têm nada de indianos – uma pesquisa rápida mostra que isso é um tipo de gíria referente à classe alta tradicional de Boston, algo que poderia ser mencionado em uma nota de tradução). Os problemas são mais frequentes no início do livro (a tal “rua Nove” de repente vira “Nona avenida” lá pela metade), e parecem ser principalmente uma questão de falta de pesquisa. Não sei bem o porquê deste problema, mas suspeito que esta tradução tenha sido feita a toque de caixa, sem tempo para confirmar ou esclarecer pontos duvidosos.

O cenário pós-apocalíptico não chega a esse ponto, mas fica perto

O cenário pós-apocalíptico não chega a esse ponto, mas fica perto

Já por parte do autor, a pesquisa (que ele faz questão de evidenciar pelas inúmeras referências nos agradecimentos) parece ser bem completa e detalhada, exceto por um detalhe que me doeu – em certo ponto, fazem referência à possibilidade de “cair o GPS”. (E não é qualquer um que diz isso – é Chuck, o cara que manja de tudo e que o autor usa como a voz da razão a maior parte do tempo.) Pôxa, GPS é inteiramente baseado em satélites, e não depende de qualquer sistema externo de comunicação! A única maneira que isso pode cair é se você fisicamente derrubar os satélites! Presta atenção! Mas, de resto, dá pra ver que a apuração dos fatos e princípios que fundamentam o cenário foi realmente muito cuidadosa. O funcionamento dos diversos sistemas, a estrutura dos órgãos envolvidos em cada esfera, o comportamento dos ataques cibernéticos, etc., tudo bastante realista.

No mais, tirando os problemas já mencionados de ritmo (e outros problemas centrais com a trama, que vou discutir na seção com spoilers), Cyberstorm faz um trabalho bastante interessante ao pintar um cenário de total caos urbano, e torna este cenário muito crível ao mostrar passo a passo como que o apocalipse ciber-nevístico se instala. O desenvolvimento de personagens (novamente, tirando as frescuras já mencionadas) é bem profundo, pois acompanhamos um pequeno grupo de pessoas dia após dia com uma grande atenção a seus movimentos, com cada passo de sua evolução (e deterioração) psicológica muito bem embasado pelo enredo. Você realmente se sente imerso no mundo que o autor cria, tomado pelo desespero, tanto quanto essas pessoas, que você passa a conhecer como se fossem velhos amigos. Isso sem contar várias reflexões interessantes que o livro traz, a respeito de segurança das informações, do papel do Estado, do que significa trocar liberdade por segurança, sobre a tendência à vigilância estatal cada vez maior, e outros temas relacionados. Essas reflexões às vezes parecem forçadas (imagine um bando de sobreviventes pós-apocalipse morrendo de fome discutindo os protocolos de segurança da informação do governo, como se isso fosse um tema relevante á sua situação atual), e suspeito que boa parte do livro na verdade seja uma plataforma para o autor discorrer sobre suas opiniões a esse respeito, mas, ainda assim, Cyberstorm rende bons momentos de reflexão.

Cyberstorm é um dos grandes sucessos da atualidade, e eu suspeito que isso se deva em grande parte ao realismo do livro, que permite que o leitor fique imaginando como este cenário apocalíptico pode acontecer a qualquer momento (a popularidade do gênero “zumbis” mostra que o que não falta é gente querendo viver num mundo devastado). Para quem gosta da premissa, ele rende um bom mergulho em uma Nova York barbárica e brutal. De resto, o livro tem problemas significativos, que impedem uma nota maior (e razão pela qual não o imagino se tornando um clássico duradouro). Agora, se você ou já leu, ou não se importa em saber como a história termina, continue lendo após a nota e ficha técnica para saber qual é o maior problema desta obra…


nota-3

 


Cyberstorm
Matthew Mather
Copyright 2013

Editora Aleph
2015 (1ª Edição)
Tradução: Carolina Caires Coelho
16 x 23 cm
368 páginas

Onde comprar: Americanas | Fnac | Submarino


AVISO: A seção a seguir contém SPOILERS DE TODO O LIVRO ATÉ O FINAL. Portanto, não leia se não quiser a revelação de todo o segredo por trás da trama, bem como do desfecho da história.

Não tem nada a ver com o livro, é só um joguinho maneiro com o mesmo nome

Não tem nada a ver com o livro, é só um joguinho maneiro com o mesmo nome

Desde o princípio, o autor tem todo o cuidado de colocar cada peça em seu quebra-cabeça catastrófico de maneira bem embasada. Principalmente através do diálogo, no qual personagens refletem sobre como funcionam coisas como a infraestrutura de energia e logística, como ocorrem ataques de negação de serviço, etc., tudo parece acontecer de forma lógica e por motivos consistentes. Até aí tudo bem… Mas, além da questão do “como”, a parte do “por quê” também parece se estabelecer desde o princípio de forma coerente. Pouco a pouco, desde os primeiros capítulos (antes do desastre), o autor vai lançando o que parecem ser peças que vão se encaixando para formar um quadro mais amplo. Há tensões entre EUA e China… Os ataques cibernéticos ocorreram de forma “conveniente” demais, justamente no momento perfeito para quebrar as pernas dos EUA, e de forma aparentemente sincronizada… Há coisas suspeitas acontecendo na China, que parecem apontar uma retaliação do governo americano… Aliás, as declarações das autoridades americanas parecem estar escondendo a verdade, como se estivesse acontecendo algo de sinistro por trás… Várias coisinhas que vão deixando o leitor com a pulga atrás da orelha, curioso para saber o que aconteceu – foi culpa da China mesmo? Foi outra potência que arquitetou tudo de forma a parecer que foi culpa deles? É terrorismo? Será que o próprio governo americano é responsável? Tanto os personagens quanto o leitor piram com a especulação.

Aí, lá pro final do livro, após o grupo central conseguir escapar de Nova York e ir para o chalezinho de Chuck, o protagonista, Mike, percebe que Washington está iluminada e funcionando, e decide caminhar até lá para tentar conseguir alguma ajuda especial do governo, já que sua esposa é sobrinha de um senador. Na capital, o sujeito chega até o National Mall, aquela área gramada onde tem o obelisco (que conhecemos de tantos filmes), que está cercado por um tapume. Conseguindo se esgueirar para olhar por uma fresta, o cara vê o que parece ser o exército chinês. Ou seja, ele conclui: os chineses realmente invadiram os EUA, e os ataques cibernéticos que derrubaram tudo foram parte de sua estratégia. Putz. Ele imediatamente volta pro chalé e fica com seu grupinho, sobrevivendo por mais um tempo, à espera do que vai acontecer. Enquanto isso, do lado de cá da página, eu estava pirando. Então foi tudo um plano diabólico! Mas que bem bolado! Os caras devem ter esperado o momento certo da nevasca pra fazer isso! Como foi essa coordenação? E agora, o que vai acontecer? O livro vai tomar uma vertente de resistência underground? Vai mais pra uma linha de história alternativa, mostrando como seria os EUA governados por chineses? Como vai ser isso? Claro, não havia muito espaço restante no livro pra explorar essas questões, mas sei lá, talvez isso ficasse pra uma sequência. Só ficar viajando nessas possibilidades já era algo empolgante.

Aí, em mais um desses cliffhangers sem resolução que eu mencionei lá em cima, lá pelas tantas chega um pessoal no chalé, o grupo de protagonistas se esconde no porão, aparecem soldados mandando abrir, o personagem principal olha por uma fresta e vê um soldado asiático, fodeu, os invasores chineses nos acharam, aí uma das mulheres ouve uma voz familiar, grita de volta, e agora o que vai acontecer… Como de costume, termina o capítulo no momento de maior tensão, quando estão derrubando a porta. E começa o capítulo seguinte MESES depois, com a filha do protagonista nascendo (sua esposa estava grávida), todo mundo em volta, feliz e contente, tudo ótimo, ah que alegria, como somos felizes. PORRA, O QUE ACONTECEU?! Mais uma vez, como acontecera várias vezes ao longo do livro, a crise toda é resolvida através de um relato de segunda mão… Mas, dessa vez, ele esvazia não apenas o último cliffhanger, como também a tensão que vinha sendo construída no livro inteiro.

Resumindo: Foi tudo uma série de coincidências hilariamente improváveis. O tipo de coisa que você espera em uma comédia pastelão, pra criar uma situação na qual, digamos, existe um monte de evidências que apontam que o boboca descerebrado engraçaralho é um perigoso espião internacional, mas no fundo ele só vestiu a roupa do espião por engano, chegou no local da missão porque errou de caminho, tropeçou na arma e matou o vilão sem querer, e assim por diante. Ou seja: aconteceram vários ataques de hackers que derrubaram infraestruturas e serviços críticos, ao mesmo tempo… por coincidência. Foram vários grupos agindo de forma independente, cada um buscando uma coisa diferente, que por acaso fizeram todos seus ataques exatamente ao mesmo tempo. O fato de isso acontecer justo na pior nevasca da História? Coincidência. O trem que descarrilou e todo mundo achou que fosse um ataque terrorista ou algo assim? Coincidência. O desastre na represa da China que todo mundo achou que fosse retaliação dos EUA? Coincidência. Gripe aviária? Alarme falso. As declarações estranhas e mentirosas do governo? Só estavam meio desencontrados e enganados. Mas e o tal exército chinês bem no meio de Washington? Ah, só forças da ONU que estavam prestando ajuda humanitária. O autor tem a pachorra de dizer que, se o cara olhasse só um pouquinho mais ao lado, ele veria também militares indianos, britânicos, franceses e de diversos outros países, claramente ajudando os EUA. E, finalmente, quanto àquela cena tensa do pessoal invadindo o chalé… era só um amigo do grupo que, juntamente com um destacamento do exército (americano mesmo) foi lá salvá-los… e, por acaso, o militar (americano) que o protagonista viu pela fresta era de família oriental. Hahahaha, que hilário!

NÃO FODE, PORRA!

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Lost é o caralho, ISSO sim é final merda. Que não fossem os chineses. Que fosse qualquer outra coisa – como eu disse, dá pra viajar nas inúmeras possibilidades. Conspiração, operação “bandeira falsa”, terroristas, poderia ser um monte de coisas que FIZESSEM SENTIDO. Ou, se for pra ser só uma tragédia de como as pessoas chegam em conclusões erradas e matam umas às outras à tôa, que não ficasse nessa punhetagem de construir todo um mega quebra-cabeças de porra nenhuma. Mas uma combinação astronomicamente improvável de puras e simples coincidências feitas só pra zoar com a cara do leitor e depois falar “hahaha, seu trouxa, achou que estivesse lendo um livro sério”? Ah, vai pro inferno, seu Matthew Mather. Enfia todos os seus discursos forçados e aleatórios sobre controle de informação que você me obrigou a ler no meio do rabo. O final é tão mal-encaixado e tosco que os últimos dois capítulos (21 páginas) do livro são praticamente só enumerando toda a sequência de acontecimentos improváveis, e jurando que sim, coincidências desse tipo acontecem mesmo. Ou seja, além de irritante, é maçante mesmo. Aprende, Matthew – show, don’t tell! Mostre, não conte! E conte direito da primeira vez, pra não ter que ficar explicando depois como tudo realmente aconteceu!

Enfim, essa foi a verdadeira resenha de Cyberstorm. Para quem sobreviveu até aqui, obrigado pela paciência, e desculpa pelo rompante. Espero que tenham se divertido mais com esse finalzinho do que eu me diverti com o final do livro. 😉

3 thoughts on “[LIVRO] “Cyberstorm” de Matthew Mather (resenha)

    • Não sabia desse episódio… valeu pela referência!

      E isso reforça mais ainda a minha impressão que o autor quis retratar os nova-iorquinos como “certinhos” demais, hesitando pra caramba em fazer um saque em supermercado depois de vários dias sem luz ou abastecimento de comida. Sendo que, no incidente de 1977, 25 horas de blecaute foi o suficiente para uma onda de saques violentos em mais de 1600 lojas. Sei lá, pode ser só coisa da minha cabeça, mas senti uma pontinha de “nós não somos selvagens que nem esse povo de Nova Orleans que saiu saqueando tudo quando bateu o furacão”.

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