[LIVRO] Crônicas de Morrighan, de Mary E. Pearson (resenha)

“Era uma vez, criança,

Há muito, muito tempo,

Sete estrelas que pendiam no céu

,

Uma para chacoalhar as montanhas,

Uma para revirar os oceanos,

Uma para afogar o ar

E quatro para testar os corações dos homens.

Mil facas de luz

Cresceram até formar um a rolante e explosiva nuvem,

Como um monstro faminto.

Apenas uma princesinha achava graça,

Uma princesa assim que nem você…”

Pág. 58

 

A editora DarkSide lançou o novo livro de Mary E. Pearson, Crônicas de Morrighan, que explica parte da origem da trilogia épica As Crônicas de Amor e Ódio. A começar pela arte do volume, que é repleta de detalhes que lembram pedras preciosas e pérolas incrustadas em uma superfície em relevo de folhas e flores. Pessoalmente, achei a capa a mais bonita de toda a série.

A despeito do conteúdo, a trama decorre em um mundo pós-cataclísmico cujas nações foram reduzidas a pequenas tribos nômades organizadas pela linhagem de parentesco. Nesta época, Morrighan é apenas uma criança pertencente a uma tribo pacífica, que subsiste coletando e plantando vegetais e caçando animais silvestres. Logo no início, ela conhece o pequeno Jafir, um membro de uma violenta tribo que baseia sua economia na caça de animais e pilhagem de outras tribos. Ambos mantêm uma relação conflituosa a princípio, todavia, não revelam de nenhum modo a existência um do outro para os companheiros de suas respectivas comunidades.

Morrighan é educada por Ama, a líder da tribo, que alimenta sua imaginação com os valores e memórias dos antepassados. A menina amadurece conhecendo um mundo outrora belo e próspero. Por outro lado, Jafir, sendo membro de uma tribo de abutres, cresce impulsionado apenas pelo instinto de sobrevivência e laços de honra baseados no sangue, ao mesmo tempo em que é influenciado pela sensibilidade semeada pelo encontro com Morrighan.

“Se os Antigos eram como deuses, construíram torres para o céu e voavam em meio às estrelas”, falei, “por que eles tinham tais animais perigosos que não podiam ser controlados? Eles não tinham medo?

Pág. 64

Conforme o tempo passa, os encontros do casal são mais freqüentes, e ao atingirem a juventude, naturalmente, ambos sentem-se um atraído pelo outro, iniciando assim um romance proibido. Neste ponto da história nos é apresentado parte do mistério do antigo universo de Pearson. O casal marca encontros secretos no fundo de um cânion que Morrighan descobrira. Lá é repleto de livros antigos por todos os cantos, muitos contando segredos do velho mundo dos deuses. O lugar acaba por se tornar um santuário para os dois. Apesar de resistir a princípio, Jafir, pouco a pouco, abre seu coração para a temperança de Morrighan.

Eu não conseguia me concentrar. Meu foco estava dividido, pulando da minha última imagem de Liam, com os braços pendurados e soltos no cavalo de Fergus, para as palavras de Reeve – Liam traiu o clã. Ele tinha que morrer – e então para a imagem das mães fazendo com que as suas crianças se calassem, com medo de agitarem uma outra briga. Como poderiam os animais selvagens que viviam além das montanhas serem pior do que isso?”

Pág. 81

Crônicas de Morrighan, apesar de ser uma história fluida e curta, possui diversos questionamentos interessantes, como, por exemplo, a respeito da sabedoria dos deuses por terem lançado as estrelas que devastaram a terra, ao mesmo tempo em que há expressões de fé no dom concedido a Morrighan. A reflexão que achei mais atraente foi acerca da importância das histórias na vida humana. Pearson trata de maneira simples e sensata a necessidade de um povo manter vivas as chamas de sua memória, com o risco de voltar à barbárie e ao mais puro materialismo e deixa que se apaguem. Creio que, assim, ela criou uma história que se estende para além de enlaces amorosos, o que me agradou bastante.

“A raiva acumulava-se dentro de mim, e sussurrei para Laurida: Por que nunca contamos histórias?”

Laurida deu de ombros. “Histórias são um luxo dos bem alimentados.”

“Pelo menos histórias encheriam o silêncio!”, soltei, irritado. “Ou nos ajudariam a entendermos nosso passado!” E então, mais baixo, bem mais baixinho, enquanto eu olhava para o chão, cheio de ódio: “Eu nem mesmo sei como morreu minha própria mãe”.”

Pág. 71-72

 


DarkSide Books

Tradução:  Ana Death Duarte

Capa dura

Tradução

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