[LIVRO] Crônicas de Espada e Magia (resenha).

Há um longo tempo eu ansiava pela leitura do livro Crônicas de Espada e Magia. Livro esse que não é fácil de se encontrar. Foi preciso uma longa jornada de pesquisa para achar esse tomo de contos organizado pelo excelente escritor Cesar Alcázar. Eu diria que foi uma busca ao tesouro, já que ele se encontra esgotado nas editoras que publicaram a coletânea: a Arte e Letra e a Argonautas (que, infelizmente, encerrou suas atividades).

O livro está repleto de nomes de peso que fazem jus ao gênero literário espada e feitiçaria (ou sword and sorcery), difundido especialmente por Robert Howard, Lovecraft e Allan Poe, entre outros grandes que habitam o Panteão dos Deuses da Escrita.

Na antologia foram reunidos contos de autores clássicos do gênero de Espada e Magia, bem como obras de novos escritores, entre brasileiros e estrangeiros. Michael Moorcock, Thiago Tizzot, Ana Cristina Rodrigues, Carlos Orsi, George R. R  Martin (onde está Ventos do Inverno?), Karl Edward Wagner, Max Mallmann, Robert E. Howard, Roberto Causo, Saladin Ahmed e Fritz Leiber são os autores que integram a seleção. E o artista Kekai Kotaki, conhecido por suas ilustrações para diversos livros de Fantasia, RPG e para Magic: The Gathering assina a arte da capa (e que capa sensacional). “Humanos precisam de fantasia para serem humanos. Para serem o lugar onde o anjo caindo encontra o macaco ascendendo.

O Vale do Verme de Robert E. Howard (criador de Conan, Solomon Kane e Kull): O conto é narrado pelo personagem James Allison, um sujeito que aparece em vários trabalhos do mestre texano, e que usualmente constrói sua narrativa através das memórias do sujeito no seu leito de morte, onde o mesmo nos conta seu passado como Niord, um guerreiro nórdico. Com seu estilo cru, direto e visceral, herdado dos pulps onde publicava, Howard traz uma narrativa no melhor estilo Conan.

“ Para fora do templo o monstruoso habitante da escuridão havia saído, e eu, que esperava um horror forjado em algum molde terrestre, olhei para aquela cria de pesadelo. De que inferno subterrâneo ele rastejara no passado distante eu não sei, tampouco qual época ele representava. Mas ele não era uma besta, como a humanidade conhece as bestas.“

O Sinal da Forca de Carlos Orsi: a narrativa segue Anror, um guerreiro que precisa enfrentar bárbaros de pele branca. Misturando a feitiçaria com política e as maquinações do poder, temos um personagem muito bem construído, que se vê às voltas com conspirações do alto clero. A história possui uma interessante crítica social à religião e ao racismo. Uma excelente história tupiniquim.

“— Ora, meu senhor — Anror ri, nem um pouco ofendido. — Um soldado de tantas campanhas quanto eu perde muito se não conhecer os rudimentos da palavra escrita. A caserna é tediosa demais, e nem sempre há dinheiro fácil para vinho e mulheres. Papiros e pergaminhos são uma boa forma de passar o tempo e, na hora de dividir o saque, livros são menos disputados que ouro ou joias.“

A Cidade do Sonhar, de Michael Moorcock:. Acompanhamos Elric de Melniboné, um feiticeiro, guerreiro e ex-imperador que se tornou a principal efígie da escrita de Moorcock.  Elric é um feiticeiro albino, último Senhor de Melniboné, e suas ações são baseadas fortemente em sua condição: ele tira forças de seus feitiços e de sua espada bebedora de almas, a Tormentadora (Stormbringer soa melhor que Tormentadora. Essa você não precisava ter traduzido, meu caro Cesar). O guerreiro atormentado volta à sua terra natal, mas não para recuperá-la, e sim para tentar resgatar sua amada em um cenário nefasto. Anseio por mais obras de Moorcock no Brasil.

“A lâmina negra de Elric atingiu com força furiosa a garganta do soldado que vinha mais à frente e arrancou-lhe a cabeça. Uivando demoníaca agora que tornara a provar sangue, a espada começou a se retorcer na mão de Elric, à procura de carne fresca que pudesse cortar. Havia um sorriso cruel nos lábios descoloridos do albino, que apertava os olhos ao investir sem discriminação contra os guerreiros.“

A Vingança é para Todos, Thiago Tizzot: Criador do universo de Breasal, um universo habitado por incríveis criaturas, guerreiros e magos capazes de grandes feitos, o brasileiro nos conta a busca por vingança da guerreira Nahovi. Percorremos um cenário funesto, com um plot twist singular. Thiago é conhecido por ter lançado seu livro em parceria com John Howe, ilustrador de O Senhor dos Anéis.

“— Este é o grande segredo — Nahovi falava com entusiasmo. — Ninguém acredita que é possível fazê-lo por ser fácil demais, óbvio demais. A melhor proteção que existe é fazer com que os outros pensem o que você deseja.“

Encontro Fatídico em Lankhmar, Fritz Leiber: O conto ganhou os prêmios Hugo e Nebula, e narra o primeiro encontro de Fafhrd e Rateiro, onde os mesmos buscam a destruição da pavorosa Guilda dos Ladrões. Esperava muito desse conto, ouvi maravilhas sobre Leiber, mas acabou sendo um pouco decepcionante. Conhecer os dois trapaceiros não foi algo que me empolgou como eu gostaria. Mas, mesmo assim, o meu ponto de vista pode ser diferente do seu, caro leitor, e um conto ganhador de grandes prêmios merece pelo menos, a sua avaliação.

“— Não lhe perguntei, beberrão. Fale apenas quando lhe dirigirem a palavra — repreendeu Krovas. E então, para Rateiro: — É um velhaco petulante, demasiado presunçoso para sua posição. De súbito, o Rateiro decidiu que mais insolência, em vez de adulação, era o que a situação exigia.“

Cavalos?, Max Mallman: Presenciamos a história de um homem que, como John Carter, é transportado a um mundo exótico. Um conto cheio de ironia e humor que percorre cada página. Boas gargalhadas foram disparadas aqui. O único defeito desse conto é ser curto demais.

“— Aparentemente, caro homem do fusca —  disse o príncipe a Presente-de-Yz, você não está a venda. Não se pode vender uma vítima sacrifical.

— Vítima o quê?!“

Crepúsculo de Dois Sóis, Karl Edward Wagner: Um conto muito bem escrito e interessante. Kane, o guerreiro que anda sob o fio da espada, une seu caminho ao do gigante Dwassllir. Além de toda a ação que permeia a narrativa, a sociedade leva um tapa em sua face com todas as divagações debatidas pelos dois personagens de raças distintas.

“O Homem é frágil demais, uma criatura indigna demais para viver em seu próprio meio. Ele precisa, como alternativa, se escorar em sua civilização, seu aprendizado. Minha raça aprendeu a viver no mundo real, a se fundir com o meio. Não precisamos de civilização. “

Anta das Virgens, Ana Cristina Rodrigues: Passado no universo de Finisterra, criado pela autora, o conto nos apresenta uma Península Ibérica que é povoada por seres fantásticos e pela magia. Laurinda propõe-se a ajudar uma caçadora de moiras, em busca de respostas para seu passado. Abordagem muito interessante e bem escrita.

“—Tivemos nossas perdas, mas não foram muitas. Pelo menos, os poucos que faleceram foram encontrados… — Laurinda parou de falar, uma agonia súbita apertando o seu coração. Não era bem assim. Nem todos voltaram, vivos ou mortos. Nem todos estavam em suas terras. Faltava um, o único cujo destino era desconhecido. Seu silencio intrigou a estranha.“

As Canções Solitárias de Laren Dorr, George R. R. Martin: Publicado originalmente em 1976. Se você aguarda dragões e White Walkers, não se engane, eles não permeiam essa escrita. A única referencia que fica no ar aqui é aos Sete, porém, sem certeza alguma. Estabelecendo um confronto bastante único entre uma heroína e um oponente que tenta vencê-la sem o uso de violência, muito pelo contrário, aliás. Somos brindados por uma história fascinante e, acreditem, sem mortes, pelo bom velhinho. O conto é afável, lírico e aterrador. Martin criou uma atmosfera para nos fazer sentir tristes.

“— Sim. Sempre. Existem aqueles que tentam despedaçá-la com garras, e alguns que tentam fazer com que você se perca, e alguns que tentam induzi-la a tomar o portal errado. Existem alguns que tentam detê-la com armas, alguns com correntes, alguns com mentiras. E existe um, pelo menos, que tentou pará-la com amor. No entanto, ele foi verdadeiro sobre tudo aquilo, e nunca lhe cantou em falso.“

O Bebedor de Almas, Roberto de Souza Causo: Narrado na Península Ibérica, em um tempo não definido. Gil Vasquez, o caçador de demônios, auxilia um amigo, em meio aos mouros, que os execram. A política é pano de fundo para o embate entre o bem e o mal, onde um demônio dizima Granada. Precisamos conhecer mais o trabalho deste autor nacional.

“— Tu sabes o que isso indica, Yalfar? —  perguntou Vasquez, por fim entendendo a fonte terrível das intuições que o perseguiam, desde que primeiro entrara em Granada.

— Que muitas almas em breve estarão à mercê da sede do demônio.“

Onde mora a virtude, Saladin Ahmed: Fechando o livro, os personagens Adoulla Makhslood e Raseed bas Raseed se unem para encontrar uma garota. Esse conto é fantástico, cheio de ação e humor. Saladin Ahmed foi a melhor surpresa. A interação entre Adoulla e Rasseed é fantástica. A mistura de sarcasmo com a bruta realidade nos guia em uma história deliciosa de se ler. Uma narrativa de Espada e Feitiçaria imersa em uma versão muçulmana de um mundo de fantasia. Com certeza o melhor conto da antologia. Editoras, ouçam o apelo desse leitor e tragam mais de Saladim Ahmed para terras tupiniquins!

“— As pessoas falam de mim, rapaz, agora você me conhece. Lutou ao meu lado. Eu faço bagunça ao comer. Cobiço garotas com um terço da minha idade. E não gosto de matanças. Se você vai caçar monstros comigo, você deve ver as coisas como elas são.“

Reunindo tantos talentos em um só volume, a antologia prova, mais uma vez, que a escrita é um tesouro a ser encontrado diariamente. É só querer buscar. Recomendo para quem deseja conhecer novos autores do gênero, quem procura por raridades como os contos acima citados, ou para quem quer ver o sangue rolar sem temor na consciência.


Livro: As Crônicas de Espada e Magia

Tradução: Gabriel Oliva Brum e Cesar Alcázar

Arte: Kekai Kotaki

Editora: Arte e Letra e Argonautas

Páginas: 344

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