[LIVRO] Contos de Horror do Século XIX (resenha)

Eu mal havia terminado a antologia de Contos de Horror do século XIX, quando percebi que já era, de longe, a melhor sequência de histórias curtas que eu já havia lido. 

Ao terminar o livro, não restaram mais dúvidas: minha intuição inicial era correta. Alberto Manguel, o organizador da coletânea, balanceou o repertório de narrativas nos apresentando tanto nomes mais conhecidos pelo grande público por escrever grandes histórias de horror (Guy de Maupassant, Bran Stoker, Henry James, Alan Poe e Stevenson), quanto autores que, para mim, foram grande surpresa, não pela fama menor, mas pela predominância de obras conhecidas em outros gêneros, que não o horror. São eles Joseph Conrad, Jules Verne, Walt Whitman e Eça de Queiroz.

Obviamente há narrativas que não contaram com minha completa simpatia, e outros que achei duvidosa sua escolha, por não considerar propriamente história que suscitasse em primazia a emoção do medo, contudo, creio que ao leitor maduro de nenhum modo deixará de ser proveitosa.

A começar pela introdução de Maguel, destaco a citação onde Ann Radcliffe faz uma distinção prévia entre Terror e Horror:

“um dilata a alma e suscita uma atividade intensa de todas as nossas faculdades, enquanto o outro contrai, congela-as, e de alguma maneira as aniquila. (…) Onde situar, então, essa importante diferença entre terror e horror senão no fato de que este último se faz acompanhar de um sentimento de obscura incerteza em relação ao mal que tanto se teme?”

Eu pontuo tal distinção por experiência própria. A confusão entre a noção de horror e terror (não que não possam coexistir, até porque não é simples delimitar fronteiras claras entre eles) provoca muitas vezes a decepção de um leitor que espera algo como “O Massacre da Serra Elétrica”, ou qualquer história de preponderância sensorial a uma atmosfera psicológica.

O primeiro conto é bastante conhecido pelos leitores de antologias de horror. A mão do macaco, de W. W. Jacobs, é a história de uma família que recebe uma visita de um amigo sargento. Ele traz consigo uma estranha pata de macaco, e afirma ser um talismã capaz de realizar desejos. A narrativa é considerada um exemplar clássico de horror, por reunir a tensão do suspense e a ambiguidade sobrenatural, em que não se sabe em absoluto a causa dos terríveis acontecimentos na vida da família White.

O segundo conto é de autoria de Aleksei Konstantinovitch Tolstói, primo de Liev Tolstói. A família de Vurdalak trata da história de uma região sérvia assolada pelos vurdalak, espécie de criaturas vampirescas. Eu realmente fiquei impressionado com os momentos em que vampiros perturbam os habitantes do local. Há cenas memoráveis, como a de um vurdalak aparecendo de repente com o rosto comprimido contra uma janela.

O Cone, do conhecido fabiano e escritor H. G. Wells, trata da história de um empresário industrial que leva seu amigo (e amante) de sua esposa para uma visita ao cone, espécie de forno de fusão. Você pode imaginar mais ou menos o que ele pretende neste passeio… Além do suspense eficaz, apreciei muito como Wells engendra a atmosfera de fábrica repleta de fumaça e calor, que por si só é perturbadora.

Os Lábios é a história de como Luke Martin, capitão de um navio negreiro, foi amaldiçoado por uma escrava através de um beijo. Confesso que, apesar do horror evidente, eu ri quando se manifestou a primeira evidência da maldição, como vocês poderão conferir. Mas não diminuiu de nenhum modo na qualidade do conto. É terrível.

A última visita do Cavaleiro Doente é o exemplo de conto que não provocou medo algum, embora tenha se tornado um dos meus favoritos (especialmente por concordar com muita coisa que eu penso a respeito dos sonhos em minha série). Memorável como a cena em que Alice encontra com o Rei Vermelho ao dormir. A história de Giovanni Papini trata de um homem que visita eventualmente a cidade, discursando a respeito de sua natureza onírica. Diz que ele mesmo não passa de um sonho, e se indaga: quem é seu sonhador?

A Larva, de Rubén Darío, é uma breve cena do encontro de um jovem com uma aparição no meio da noite. Não muito mais, pelo que notei.

A Fera, de Joseph Conrad, sem dúvidas foi uma das maiores surpresas. Trata da história de dois irmãos contratados por uma família, empreiteira no ramo de navegações, para trabalhar em suas embarcações mais perigosas, o navio conhecido como a Fera. Aparentemente a Fera tem vontade própria, não obedecendo ao comando dos marujos, e mantendo uma alta frequência de homens mortos, seja em viagens ou ancorada no cais.

A princípio achei A mulher alta (conto de terror), de Pedro Antonio de Alarcón, um pouco pedante no início. A premissa de uma mulher que persegue homens, sempre com o propósito de prenunciar algum evento trágico, é excelente, mas, na minha opinião, inicialmente a narrativa se demora muito nas elucubrações de Gabriel. Apesar disso, o “monstro” foi um dos meus favoritos desta coletânea.

A janela vedada, de Ambrose Bierce, é o relato de como o solitário Murlock perdeu sua esposa. Para aqueles que preferem uma narrativa direta, clara e limpa, sem rodeios, esse é um ótimo exemplar.

A volta do parafuso, Henry James, é uma história clássica de fantasmas assombrando uma casa distante da civilização. Os eventos são narrados, em parte, como diário de uma jovem tutora de duas crianças. Elas parecem sofrer influência de duas estranhas entidades, que aparecem em torres, lagos e outros lugares da habitação.

O chinago provavelmente é uma das narrativas mais angustiantes. Trata-se da condenação de um chinês, contratado para o trabalho temporário em uma colônia francesa, simplesmente porque seu nome foi trocado pelo culpado. A tensão do conto é bem semelhante a histórias sobre condenados injustamente à morte por um juízo desumano.

A falsa Esther, de Pierre Louÿs, pode se enquadrar na categoria de contos com características muito mais reflexivas e existenciais do que propriamente de horror e medo. É a história sobre uma jovem que descobre haver uma personagem de um romance de Honoré Balzac com o mesmo nome: Esther Gobseck, o que gera problemas para a moça, já que a vida promíscua da personagem é extrema oposta a dela mesma. Insatisfeita, e um tanto curiosa, ela procura o escritor a fim de obter explicações, ao passo que começa a ser contaminada pelo comportamento da personagem.

A tortura pela esperança, de Villiers de L’Isle Adam, é a história de um rabino preso pelo Santo Ofício da Inquisição Espanhola. Apesar de, pelo âmbito histórico, naturalmente se categorizar nos prospectos da leyenda negra, é um ótimo conto de tortura psicológica e física, assim como o paradigmático O Poço e o Pêndulo, de Edgar Allan Poe.

Jules Verne, o escritor conhecido por notáveis histórias de ficção científica, como “Vinte mil léguas submarinas” e “Viagem ao centro da terra”, certamente me fez certa admiração neste conto. Frumm-flapp (o título é esse mesmo) é a história sobre um médico deveras mesquinho de uma cidade imaginária que se recusa a prestar seus serviços a um padeiro que progressivamente adoece.

Melück Maria Brainville, a profetisa particular da Arábia, uma historieta, de Achim Von Arnim, como o próprio título indica, é a história de uma misteriosa mulher chamada Merlück, que é obrigada a emigrar dos confins das arábias e absorve a cultura local em Marselha, tornando-se popular e participando dos altos círculos da sociedade. Há momentos que o desenvolvimento da história aparenta ser um tanto fragmentado, mas sempre envolto de magia e profecias (inclusive sobre a sanguinária revolução francesa).

“E Merlück prosseguiu: “O sangue dessas mesmas pessoas que pretendem instalar o império da razão correrá por força das leis dessa razão, o sangue do rei que não prevê a queda de sua casa provocada pela aristocracia; o sangue da aristocracia que esquece o sangue derramado de seus antepassados e não protege a Igreja – também o nosso conde, o mais caro amigo da minha alma” exclamou ela, “depois que eu tiver preparado o conde para a morte.” “E eu”, perguntou Frenel, “não serei capaz de salvar a ambos?” “Não”, disse Merlück, virando-se, “o senhor ordenará onde devemos morrer e não nos salvará.” Frenel riu: “Por que a senhora, nova profetisa, não preferiu ficar no convento, já que sabe de tudo antecipadamente?”, perguntou Frenel. “Por quê?”, exclamou ela, “porque aquelas almas piedosas serão profanadas pelos fundadores do império da razão. Mas onde falhei, foi por minha livre vontade, e eu própria saberei punir-me.”

Morte na sala de aula, de Walt Whitman aborda o abuso de autoridade praticado por um professor, que acusa injustamente o aluno Tim Barker de roubo. A narrativa é angustiante, com um desfecho dos mais terríveis, e a prosa de Whitman em nada deixa a desejar.

Ainda na esteira do tema da nossa capacidade insondável em sermos desumanos, o conto A casa de Bulemann, de Theodor Storm, é a história de um homem rico e mesquinho que nega auxílio à irmã e ao sobrinho. Depois de amaldiçoado por sua parente, ele nota uma transformação estranha em seus gatos. Eles começam a inchar e crescer, e a se tornarem tão agressivos que não é possível sair de casa sem enfrentá-los.

No conto Halá branco, de Lamed Schapiro, o jovem Vassil é convocado para o exército czarista a fim de perseguir inocentes judeus em suas aldeias. Em minha opinião, a narrativa busca expressar muito mais a dramaticidade político-histórica da narrativa sobre a perseguição dos judeus na Polônia do que de fato o horror em sua essência. É um conto bem escrito, todavia, senti que sua finalidade era mais delimitar uma vítima e um algoz do que de fato me provocar medo.

Esperidião, de George Sand, trata-se do episódio de uma novela homônima, e cá entre nós, eu considerei uma das cenas de loucura e sonho mais memoráveis da coletânea. No meio da noite, o protagonista entra numa igreja e desce os degraus para um mundo infernal, que não perde em nada para as descrições grotescas dos mundos paralelos de Lovecraft. Cenas de homens em rituais ocultistas, e esculturas que se movem como se feitas de carne, são detalhes descritos de maneira realmente perturbadora.

Imagine que, a cada manhã, sua mulher se torne cada vez mais fraca e delgada. Começa a emagrecer, contrai influenza, e nenhum dos médicos é capaz de descobrir a causa da moléstia. Então, por fim, você descobre que há algo terrível com o travesseiro. O travesseiro de penas, de Horacio Quiroga, é um ótimo exemplar de conto curto com uma conclusão simples, porém, aterradora.

Os fatos no caso do Sr. Valdemar, de Edgar Allan Poe é a história de um praticante de hipnose que pratica sua arte em um homem que está prestes a morrer. Poe de fato consegue nos instigar a curiosidade a respeito das fronteiras de além da vida nesse conto.

Em Uma vendeta, de Guy de Maupassant, uma viúva solitária inicia um cruel treinamento para que sua cadela seja capaz de matar o assassino de seu filho. Conto curto e tenso. Seu ponto forte é a frieza com que a velha espera o momento oportuno para realizar o plano.

A fava, de Léon Bloy, dá continuidade à sequência de contos sobre vingança. Após o falecimento de sua supostamente fiel e respeitável esposa, o protagonista descobre que ela tivera inúmeros casos com diversos homens sem discriminar nobres ou empregados. Sr. Tertuliano decide vingar-se convidando alguns dos homens para um lúgubre jantar em homenagem à falecida. Não há a menor dúvida de que este conto possui um dos finais mais grotescos.

O tarn, de Hugh Walpole, é sem dúvida um dos textos com as mais belas e claras descrições que eu já tive a oportunidade de ler. Trata-se da história de Fenwik, um escritor mal sucedido que vive isolado na região de Lakeland. Quando recebe a visita do escritor de sucesso e amigo Foster, decide levá-lo para um passeio na região até um precipício ermo, com um lago escuro ao fundo da repressão chamado tarn. Daí você pode imaginar o que um sujeito é capaz de fazer ao ser tomado pelo sentimento de inveja.

A selvagem, de Bram Stoker, começa com a viagem de um casal pela velha e bem conservada Nuremberg, acompanhados de um norte americano bastante excêntrico, que se orgulha por não perder uma chance de experimentar situações no mínimo exóticas, como se esconder de um índio dentro de cadáveres de cavalos. Após esmagar gratuitamente um filhote de gato, é perseguido pela mãe até um museu de aparelhos de tortura. Enquanto ele insiste para testar o aparelho nele mesmo (de forma segura, claro), a gata espreita, aguardando apenas uma oportunidade.

Acho que O amigo dos espelhos, de Georges Rodenbach, caberia em um episódio de Além da Imaginação. Um jovem, cansado da presença humana, decide viver apenas com seus espelhos isolado em sua casa. Aos poucos, ele afirma que há um mundo infinito para explorar através dos reflexos.

A aia, de Eça de Queiroz, é uma narrativa em tom de conto de fadas sobre uma serva que, após a morte do rei, jamais perde de vista o deslumbre de servi-lo depois de sua morte. Então, ela trata de cuidar do príncipe recém nascido como seu, até o dia em que o tio ameaça o pequeno de morte, e ela deverá escolher entre o príncipe e seu próprio filho.

A flor vermelha, de Vsévolod Micháilovitch, tem como cenário um sanatório. Afirmo que o conto possui uma das mais claras descrições espaciais. O mapa do hospital psiquiátrico não saiu da minha cabeça. E nele está preso um louco que acredita ser uma flor vermelha a causa de todas as mazelas do mundo e que, destruindo-a, assim renderá o mundo da danação. Apesar de razoavelmente bem alimentado, o louco definha e emagrece cada vez mais, afundando pouco a pouco em seu delírio.

O que foi aquilo, um mistério, de Fitz-James O’Brien, segue pelo estilo de contos sobre monstros desconhecidos. Harry, que decidiu residir em uma casa supostamente mal assombrada, relata a história de quando foi, no meio da noite, atacado por uma criatura invisível. O conto tem um bom ponto de tensão, mas, como história de horror, creio que se alongue demais em devaneios científicos sobre a possibilidade de espécies desconhecidas.

Barbara, da Casa de Grebe, é a triste história de uma jovem nascida em berço de ouro, que ao calor da juventude, foge com Edmond Willowes, um belíssimo rapaz, que não é considerado nada mais que filho de cidadãos respeitáveis pela sociedade da época. Após minguarem à fome, decidem voltar à tutela dos pais de Barbara. Eles são bem aceitos, com a condição de que Willowes tome lições para adequar-se à classe durante uma viagem à Itália. Todavia, um trágico acidente no teatro acaba por deformá-lo, e Barbara descobre que não amava mais do que sua aparência perfeita. A partir daí o conto se torna muito interessante e cruel. Superou em muito minhas expectativas.

A casa Mal-Assombrada, da escritora infantil e fabiana Edith Nesbit, foi um dos que menos me cativaram. Desmond decide aleatoriamente procurar por uma casa mal-assombrada que encontra em um anúncio de jornal, por achar que o anunciante, Wildon Prior, é um conhecido seu. Lá descobre que esse Wildon não é o mesmo, mas sim um protótipo de cientista louco que promove experiências com transfusão de sangue, bem parecidas com as do Conto Alexandrino, de Machado de Assis. Pessoalmente, vou ler de novo o conto de Machado.

O cirurgião de Gaster Fell, de Arthur Conan Doyle, é narrado pelo próprio James Upperton, que decide viver isolado nas paragens altas de Yorkshire. Todavia, ele descobre que, a poucos quilômetros de sua moradia, residem dois estranhos homens com o estranho hábito de andar pela ravina à noite. “Mantenha a porta aferrolhada (…). Esta colina é estranha”, ele é constantemente avisado. Além da tensão e mistério do próprio enredo, dou especial atenção à ambientação, que consegue ser ampla e fresca, e, ao mesmo, tempo aterradora e desolada.

E, por fim, O rapa-carniça, de Robert Louis Stevenson, narra as práticas sórdidas do submundo da medicina do século XIX, que contava com a comercialização de cadáveres frescos, conseguidos não apenas por profanações em cemitérios, mas, também, através de homicídios. Durante o curso de medicina, o jovem Fetes se vê em um beco sem saída, quando começa a trabalhar como assistente do professor K. E sua situação se torna mais medonha quando descobre que estão comprando cadáveres de conhecidos para estudo.


Companhia das Letras

Brochura

23 x 16 cm

528 páginas

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