[LIVRO] “Contos de Grimm para todas as idades” de Philip Pullman – Parte 4: O menino que saiu de casa para aprender a tremer (resenha)

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Antes de começar, um aviso aos leitores de primeira viagem: esta é a 4ª parte de uma série de resenhas sobre o livro “Contos de Grimm para todas as idades” de Philip Pullman, publicado pela editora Alfaguara. Antes de continuar leia a parte 1, a parte 2 e a parte 3. Dito isto, prossigamos!

Este conto, dos irmãos Grimm, que também tem outros nomes e outras versões – como “O menino sem medo” ou “O garoto destemido” – parece não apenas montado pela sabedoria popular para evidenciar as relações familiares da época, no interior da Europa; afinal, vemos no conto a dureza com que o pai trata o filho mais novo porque o menino parece mais lento, mais desligado do mundo à sua volta, talvez até muito avoado, se comparado às pessoas normais e a seu irmão mais velho.

Mas a narrativa vai além.

Quando o rapazinho mais jovem, incapaz de ser útil em coisa alguma, é mandado à casa do sacristão para aprender a tremer e, além de não ter sucesso em sua empreitada, ainda fere o sacerdote, vemos o rapaz ser mandado embora, ser expulso de casa. Este ato, por si só deixa clara a relação de utilidade X filiação. Um filho que não fosse útil, e não desse orgulho a seu pai, poderia e deveria sumir no mundo sem identificar-se, para não provocar a seu genitor vergonhas.

contos de grimm menino sem medo 04E falando em identificação, temos também neste conto a ausência de nomes. Embora o relato seja razoavelmente extenso, e conte com um bom número de personagens. Mais uma vez, a razão para a ausência de denominações é a planificação, a despersonalização de cada um deles. Jamais saberemos de que se constituía a personalidade do pai dos dois jovens, do irmão mais velho ou do irmão mais novo. Sabemos, contudo, que o sacristão não batia muito bem dos pinos, pois cobrir-se com um lençol para imitar um fantasma e ir para um lugar alto não é exatamente uma estratégia inteligente.

Ao ganhar o mundo, o jovem vai atrás do seu grande – e cabe acrescentar, incomum – sonho de tremer. Ao longo de sua jornada encontra várias pessoas que, curiosas por vê-lo perseguir tão incomum objetivo, tentam ajudá-lo, mesmo sabendo que estão colocando em risco a sua vida.

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No entanto, não importa o que haja, o rapaz jamais treme. Ou melhor dizendo, o rapaz jamais sente medo.

contos de grimm menino sem medo 07Aliás, a frieza do menino começa a extrapolar as barreiras da normalidade no episódio em que ele dorme junto com um grupo de enforcados e, sem perceber que são mortos, tenta ajudá-los a se aquecerem junto à fogueira. Sem sucesso em sua tentativa de ajudá-los de se aquecerem (obviamente, posto que estavam sem vida), o jovem calmamente os pendura de volta em suas respectivas forcas, e volta a seu lugar para dormir tranquilamente.

A partir deste momento podemos ter uma ideia de que o rapaz não é exatamente são. Se antes falávamos de personalidades vazias, agora lidamos com uma inovação; o rapaz, filho mais novo, o menino que saiu de casa para aprender a tremer, simplesmente parece dotado de uma frieza psicopática, ou simplesmente uma incapacidade. Ele, ao contrário de todos os outros personagens de contos em geral, parece dotado de uma personalidade, por mais vazia que seja ela. Por maior que seja sua inércia, e por mais gritante que seja sua não mobilidade diante das situações mais absurdas, o não agir também é uma atitude.

contos de grimm menino sem medo 01Em dado momento, depois de muitas peripécias em busca da tão almejada capacidade de tremer, o rapaz é desafiado a passar três noites em um castelo mal assombrado. Contava-se que muitas pessoas teriam morrido ali desde que começaram a tentar passar as noites nele, em nome de conseguir a mão da princesa em casamento.

E aí temos dois pontos a serem observados, que talvez sejam óbvios, mas que vale a pena comentar:

Notemos que os castelos – todos sobre os quais lemos nos mais diversos contos – jamais se nos apresentam como lares, lugares que representam moradias. O castelo é sempre uma instituição, uma entidade intocável, algo como um lugar inatingível. E, para aqueles que estão dentro dele, muito distante. Jamais um lar, apenas uma espécie de localização. Como um território, um campo pertencente a alguém.

Assim também, como o castelo é o território ou instituição, é a princesa moeda de troca, e nunca ser humano dotado de vontade ou de querer. É ela aquela que é dada em promessa por qualquer desafio, aposta, troca ou vitória de guerra. A princesa é a eterna “mulher de Athena”, sujeito aos desmandos de seus pais e daquele que ganhar sua mão. E quase nunca por amor.

Bem, voltemos ao conto. O rapaz destemido, completamente desconhecedor do sentimento de medo, é então convidado a passar três noites no castelo maldito, onde todos os que lá se aventuraram morreram de forma terrível. Ao contrário de todos os outros que lá entraram, porém, o rapaz vai em busca de aprender a tremer.

O rapaz, uma vez lá, mostra-se ainda mais sangue frio, beirando algum tipo de distúrbio mental. Primeiro lhe aparecem gatos negros que o convidam a jogar cartas. O rapaz aceita, mas calmamente apara as unhas dos gatos no torno que trouxe consigo para o castelo.

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Como assim? Dois gatos de aparência sinistra aparecem ao soar da meia-noite, e além de agir como se nada tivesse acontecido, o rapaz simplesmente apara suas unhas. E não contente, o garoto não simpatiza com os gatos e, como quem tira uma pedrinha do caminho, ele os mata, mais uma vez reforçando sua enorme frieza.

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Na noite seguinte, em dado momento, o rapaz vê sair da lareira, ou melhor da fogueira – não caberia aqui dar a habitação dos deuses lares (deuses gregos que habitavam casas – deles deriva a palavra “lareiras”) ao castelo que, como já disse, não atende à função de habitação – a metade de um corpo (a parte de baixo da cintura de um homem) sai correndo loucamente pelo recinto. Tal fosse a coisa mais normal do mundo, o rapaz nada fez.

O decorrer da história foi o complemento mais natural desta: logo veio a parte de cima do corpo, bradando pela parte de baixo, que, por motivos óbvios, não podia ouvi-la. Quando, então, finalmente, o homem pela metade consegue unir a parte debaixo e a de cima, senta-se ele na bancada do jovem e de lá recusa-se a sair. E, como já vimos que frieza não é problema para o rapaz, o filho mais novo, expulso de casa porque queria aprender a tremer, simplesmente mata o homem antes dividido em dois, pelo simples fato de ele estar sentado em sua bancada.

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Não terminada a noite bizarra, surgem homens enormes carregando um caixão, onde há OBVIAMENTE um morto.

Ainda tomado por sua inenarrável paz de espírito – ou psicopatia, chame como preferir, caro leitor – decidiu em sua mente mais do que conturbada que o defunto que ocupava o caixão só poderia ser seu primo, morto dias atrás. Assim, tomou a atitude mais “normal” do mundo: levou o morto para a cama, a fim de aquecê-lo com a quentura de seu corpo.

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(e se você, caro leitor, lembrou de alguma cena familiar, saiba que não está sozinho).

Mais uma noite se passa, e mais uma vez o jovem não aprende a tremer.

A esta altura, já temos por certo que o rapaz não é possuidor de coragem, porque para haver coragem é necessário o medo. Ele simplesmente parece desprovido de qualquer instinto de autopreservação, ou mesmo de qualquer compreensão de perigo.

(Talvez um nome adequado para o rapaz seria Dexter.)

(Talvez um nome adequado para o rapaz seria Dexter.)

Enfim…

Na terceira noite, o jovem é desafiado por um homem velho, mas muito grande e muito forte. No entanto, o jovem consegue vencê-lo, nem tanto por ser mais forte. Mais uma vez, a vitória do rapaz reside no fato de ele não possuir medo algum daquilo que o cerca ou o ameaça.

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Não se pode deixar de pensar que isso pode ser um reflexo da frieza do povo europeu imediatamente pós-moderno. Seriam os pequenos povos provincianos de tal forma frios e calculistas a ponto de nada temerem e darem a vida ao risco por razão alguma, ou pela simples curiosidade do que é o sentimento de tremer?

O jovem, então, derrota o velho, completa as três noites, e casa-se com a princesa, conforme prometido pelo rei.

Uma vez mais, vemos Pullman usar o artifício da distorção do tempo a favor do enredo.

Da vitória do rapaz à sua transformação em jovem rei temos um espaço de poucas linhas, e ainda menos palavras. É a magia de correr sem levar a bagagem pesada.

Entretanto, o rapaz não se realiza como rei, pois ainda não aprendera a tremer. Casado com a bela rainha, ele permanece se lamuriando pelos cantos: “como eu queria saber tremer, como eu queria…”

A rainha, irritada, um dia pede à sua dama de companhia que espere o rei dormir e lhe jogue um balde de água fria com peixinhos vivos do riacho.

Feito isso, primeiro o Rei sentiu a água fria, depois viu os peixes se contorcerem. Logo, o rei finalmente estava tremendo. :/

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Eis o fim da história que, confesso, não alcanço uma moral. Apenas as nuances de uma sociedade bastante complexa em seus pensamentos e no grau de suas advertências

Capa_Contos de Grimm.inddContos de Grimm para todas as idades
Philip Pullman

Tradução: José Rubens Siqueira
Editora: Alfaguara

Formato: 15 x 23
416 páginas

Disponível nas seguintes livrarias:

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