[LIVRO] “Contos de Grimm para todas as idades” de Philip Pullman – Parte 3: O gato e a rata vão morar juntos (resenha)

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Continuando a resenha de “Contos de Grimm para todas as idades” de Philip Pullman, publicado pela Alfaguara, nesta 3ª parte falarei do conto “O gato e a rata vão morar juntos” (Perdeu as partes anteriores? Leia-as: parte 1 e parte 2).

De cara, neste conto escolhido por Pullman para entrar em seu livro de compilações dos irmãos Grimm, temos uma fábula no sentido mais puro da palavra. É claro que em qualquer conto em que haja um animal dotado de prosopopeia, ou seja, características humanas, sobretudo o dom da fala, teremos uma fábula. Mas no conto em questão temos apenas animais, e ambos são completamente humanizados. Não há um jeito de ser mais “fabuloso” do que isto.

contos de grimm gato rata moram juntos 06A história exposta nessa narrativa para lá de infantil é basicamente sobre um gato e uma rata que, encantados um pelas características do outro, decidem morar juntos.

E como qualquer casal minimamente ajuizado, os dois decidiram que, sendo o inverno muito rigoroso, ambos acabariam por passar fome durante o período. Afinal, o que faria um gato e uma ratinha?

Para evitar esse terrível período de fome, decidiram juntar seus tostões e comprar um latão de creme, para que, assim, pudessem ter o que comer durante os tempos mais rigorosos.

Temendo que pudessem ser roubados, pensaram muito sabiamente o casal de peludinhos em colocar a valiosa lata de creme escondida numa igreja. Afinal de contas, quem neste mundo teria coração frio o bastante para roubar uma igreja?

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E assim fizeram: A lata foi escondida dentro da igreja e passaram-se os dias.

Mas o gato, fiel à sua natureza, ficou tentado ao pensar naquele enorme latão de creme escondido na igreja. E se provasse só um pouquinho?

contos de grimm gato rata moram juntos 09Assim, o gato inventou para sua companheira rata que tinha sido chamado para o batizado de um gatinho, e seria ele o padrinho. A rata não desconfiou, e lá foi o gato atrás da lata de creme.

A partir deste momento o conto torna-se ainda mais engraçadinho – e usar um diminutivo em nada é impróprio aqui – ao passo que o gato, tomado por seus instintos felinos vai, com o passar do tempo, inventando novos batismos de afilhados fictícios para poder desfrutar de toda a lata de creme. Comeu, o felino, toda a lata aos poucos, a cada “batizado”. E curiosamente, a cada batizado, os nomes dos afilhadinhos gatos são sugestivos e, por si só, já apontam o que ocorreu em cada uma das saídas do gato de caráter duvidoso: Anata Sefoi, Pelame Tade e Jáci Acabou.

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Interessante é que os gatinhos fictícios também seguem uma espécie de progressão, como se fosse uma referência ao vazio que se apossa da lata de creme: o primeiro gatinho (Anata Sefoi) é branco, o segundo (Pelame Tade) é preto com uma gola branca e o derradeiro “batizado” (Jáci Acabou) é negro. Tão negro quanto o vazio, o nada, que o gato safado deixou no lugar do creme comprado pelo casal e reservado para o árduo inverno.

contos de grimm gato rata moram juntos 05Podemos notar, em vários momentos do conto recontado de Pullman, que há uma forte ligação dos personagens e do contexto com a tradição cristã. A lata de creme é guardada na igreja, o gato é chamado para batizar gatinhos, e a ratinha, ao estranhar o nome de um dos inexistentes gatinhos, chega a comentar que esse nome não deve constar no calendário de santos. Essa referência é muito interessante, pelo fato de demonstrar a ligação do povo que criou e relatou esse conto nos tempos primevos com a religiosidade cristã.

Da mesma forma, temos uma caracterização interessante: apesar de o rato ser, para qualquer ser humano, um animal repulsivo, na fábula a ratinha é apresentada como a vítima, aquela que sofre com a malícia do gato. Mas pense, caro leitor: por que escolher um gato?

contos de grimm gato rata moram juntos 10É simples: escolher um animal por demais agressivo seria incoerente, posto que o lobo mau jamais poderia representar um marido. Nem um monstro da floresta ou um urso feroz.

O arquétipo do felino que pode habitar o lar (o gato, por assim dizer) guarda a fragilidade daquele em que se poderia confiar, em oposição à excessiva esperteza típica desses animais. Assim, a rata, de todo modo, é a presa (durante a história toda em forma de alegoria, e ao fim dela literalmente).

Assim, temos nesta fábula recontada de Pullman aquilo que seria a exata figura da mulher traída pelo homem excessivamente esperto – seria esse então o conselho neste cautionary tale? – ou a ideia do menor sendo enganado pelo maior.

(Era) Uma vez mais, Pullman impressionando pela sua recontagem e também pela análise que faz após cada enredo narrado.

Capa_Contos de Grimm.inddContos de Grimm para todas as idades
Philip Pullman

Tradução: José Rubens Siqueira
Lançamento: 01/11/2014
Editora: Alfaguara

Formato: 15 x 23
416 páginas

Disponível nas seguintes livrarias: