[LIVRO] “Contos de Grimm para todas as idades” de Philip Pullman – Parte 1: Prólogo (resenha)

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Todos já ouvimos contos de fadas quando ainda estávamos nas mais tenras épocas de nossas vidas. Mas, infelizmente nem todos sabemos a origem real desses contos, os caminhos que os fizeram chegar até nós, e por que etapas tais histórias precisaram passar para que se transformassem no que são atualmente.

Baseando-nos no livro “Contos de Grimm para todas as idades“, magistralmente escrito por Philip Pullman, e lançado em 2014 pela Alfaguara, podemos ter uma análise mais acurada da história destes pequenos enredos que embalaram não apenas as nossas infâncias, mas as infâncias e as vidas de tantas pessoas mundo afora.

Philip Pullman inicia seu livro com o poema “Saciado“, de James Merrill. É engraçado notar a citação dos irmãos Grimm no poema, demonstrando o quanto eles são uma referência para a literatura mundial, de tal forma que seu nome pôde aparecer sem maiores explicações em uma poesia do século 20.

Essa poesia encontra-se em “O livro de Efraim“, de Merrill, onde o ilustre autor nos diz que as características mais importantes naquilo que tange aos contos de fadas são “a voz serena e anônima e o repertório de figuras convencionais“. E este ponto frisado por Merrill é de tal forma respeitado por Jacob e Wilhelm Grimm, que os irmãos se tornaram referência.

irmaos grimm pintura

Irmãos Grimm

Philip Pullman, ao falar dos irmãos Grimm, responsáveis pela produção do Kinder – und Hausmarchen (crianças e famílias), aponta a grande importância de Wilhelm e Jacob ao coletarem todas as histórias que, por tradição oral, circulavam pela Europa no século XVIII. Os irmãos pegaram as histórias populares, o “disse-me-disse”, as prosas que enfeitavam o folclore regional, e promoveram sua compilação. Mas, conforme ressalta Pullman, a verdade é que, se os irmãos não tivesse tomado essa atitude, algum outro escritor o teria feito. Até porque, essa iniciativa de colher as histórias comuns ao dia-a-dia dos povoados e pequenas cidades europeias, e uni-las em um só lugar, já era vontade de muitos.

Há que se dizer que, com exceção dos contos, não há na vida dos Grimm nada de tão notável. Os rapazes receberam educação clássica e foram criados dentro dos preceitos da igreja calvinista reformada. Ambos tinham por objetivo seguir a carreira do pai advogado, mas problemas financeiros os impediram de ir adiante em seus intentos, e os levaram a ter uma vida bastante simples e frugal.

Os jovens irmãos foram fortemente influenciados pelas ideias do professor Fredrich Carl Von Savigny, que defendia que a lei nascia naturalmente da língua e da história de um povo, não devendo, assim, ser arbitrariamente aplicada. A grande sombra de Savigny sobre o pensamento dos Grimm levou Jacob e Wilhelm ao estudo aprofundado da filologia.

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1ª edição de “A Flauta Mágica da Juventude” de Arnim e Brentano

Através de Savigny, e do convívio com outros conhecidos que compartilhavam ideias similares, os irmãos puderam também ter acesso a um grupo de linguistas que, juntos, analisavam o folclore alemão (entre outras coisas). O entusiasmo do grupo pelo protótipo literário “A flauta mágica da juventude” (complicação de Arnim e Brentano), uma coleção de canções e poemas folclóricos voltados para crianças, e baseados justamente nos contos que circulavam nas rodas populares por meio da tradição oral.

Esse primeiro contato com o folclore e sua carga literária, gerou grande interesse de Jacob e Wilhelm, não, contudo, sem que houvesse neles um quê de críticas com relação à “Flauta mágica da juventude” : Os irmãos Grimm não concordavam de todo com o material produzido por Armin e Brentano. Jacob, por exemplo, afirmava que os autores haviam modificado demais as histórias colocadas em “A flauta mágica“.

Assim, do interesse nascido pelas histórias de origem popular, e da busca por um trabalho de unificação literária bem-feito, surge nos Grimm a iniciativa de juntar em um tomo, no qual estariam escritas as histórias que coloriam a vida da população da região que hoje corresponde à Alemanha e adjacências (lembrando sempre que a Alemanha é um país de unificação tardia).

Essa corrida para compilar as histórias populares não foi uma iniciativa inovadora, pois, conforme já dito, outros autores concorriam no mesmo processo.

1ª edição de "Kinder und Hausmaerchen" dos irmãos Grimm

1ª edição de “Kinder und Hausmäerchen” dos irmãos Grimm

Curioso fato é que, assim como criticaram “A flauta mágica da juventude” de Arnim e Brentano, por seus textos demasiadamente mexidos ou alterados, também os Grimm foram amplamente criticados quando do lançamento de Kinder -und Hausmarchen, ironicamente pelas mesmas razões.

Um dos motivos de serem acusados de não conseguirem manter adequada fidelidade aos textos de tradição oral, teria sido pelo fato de que Jacob e Wilhelm jamais se deram ao trabalho de coletar informações sobre as histórias em suas fontes originais. Por exemplo, não se tem conhecimento do comparecimento dos autores às zonas rurais, onde as narrativas eram mais frequentemente difundidas. Algo que os escritores não tinham o hábito de fazer, por exemplo, era conversar com os habitantes dos povoados – justamente os responsáveis por professar as histórias.

A maior parte dos relatos chegavam aos Grimm por fontes já escritas, ou mesmo por relatos orais únicos, requisitados por um dos irmãos. Bom exemplo disso, citado por Pullman, é “O Junípero“, inteiramente enviado em forma escrita pelo escritor Otto Runge. O trabalho dos Grimm, neste caso específico, foi apenas transcrever a história no “baixo alemão”, tornando o conto mais acessível.

Assim, diante de críticas e problemas com as versões escritas, mexidas ou simplesmente completamente compiladas, após dois séculos, é praticamente impossível dizer até que medida são exatas as transcrições, ou tudo não passa de uma nova versão dos fatos. Com o passar dos anos, cada história passou por um processo similar ao do “telefone sem fio”, deixando com que nós, leitores e ouvintes, ficássemos cientes de suas nuances e dicas, da parte grossa e mais principal do enredo. Mas sem jamais ter certeza das exatas palavras, perdidas há muito entre quem contou o conto de um jeito ou de outro.

Não se pode deixar de apontar que os irmãos Grimm, mesmo após a produção do Kinder – und Hauschmarchen, não deixaram de contribuir para a língua alemã. Note-se que isso faz deles grandes nomes para a identidade nacional, uma vez que a língua é um elemento essencial para a identificação regional, e que nesta época a Alemanha ainda não havia sido unificada.

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1ª edição do “Dicionário de Língua Alemã” dos irmãos Grimm

Como contribuições linguísticas (sobretudo à Filologia), tivemos por exemplo, A Lei de Grimm, que descreveu determinadas alterações sonoras importantes na língua alemã. Juntos também, os irmãos trabalharam na feitura do Dicionário de Língua Alemã.

No ano de 1837, os irmãos são demitidos de seus estimados postos universitários, o que os obriga a trabalhar ocasionalmente na Universidade de Berlim. Essa ocorrência torna sua produção mais complicada.

De toda forma, é sobretudo pelo Kinder – und Hausmarchen que o nome dos Grimm torna-se referência mundial. O livro é lançado pelo primeira vez no ano de 1812, com uma coleção de 6 edições posteriores.

É muito interessante ver que o livro escrito por Philip Pullman não traz apenas contos, mas uma espécie de “bula”, uma forma de fazer com que eu e você, leitores comuns, possamos compreender essas histórias há tanto entranhadas em nossas almas.

Em “Contos de Grimm“, Pullman aponta aspectos interessantes ao tratar da estruturação psicológica dos personagens, que aparecem aqui e ali nos contos de fadas. A verdade, conforme diz Pullman, é que os personagens de contos não possuem uma “psicologia”, uma base profunda que justifique os “porquês” de suas personalidades. Não existe, por exemplo, um trauma que irá ser a justificativa para que a bruxa má seja tão perversa, a ponto de praticar tão terríveis maldades. Ora, a bruxa é má, porque é má e ponto. Ou, por exemplo, não haverá em conto algum, um evento da infância do príncipe encantado que vá determinar sua justiça e seu senso de moral. Ele é o “mocinho” da história por sê-lo simplesmente. Ele apenas o é.

Quem é bom, é bom. Quem é mau, é mau, e não há maiores porquês para isso.

Dessa forma, os mistérios da consciência humana, sempre presentes (e essenciais) no romance moderno, são elementos inexistentes nos contos. Como bem nos relata Phillip Pullman: “Pode-se quase dizer que os personagens de um conto de fadas não são efetivamente conscientes.

E essa falta de consciência própria pode ser bem vista no fato de os personagens, muito frequentemente, não possuírem um nome próprio – uma forma clara de despersonificação. Quando os personagens possuem algum nome, sua alcunha é genérica, como “Jack” ou ” Hans” (no caso do alemão).

teatro de brinquedoPullman traça, inclusive, um interessantíssimo paralelo entre os personagens das narrativas compiladas da tradição oral, e as pequenas figuras de papelão recortado que vemos em um teatro de brinquedo. São figuras planas, feitas em uma dimensão, sem profundidade alguma.

Também uma característica importante dos contos seria seu caráter demasiado célere, ou seja, a extrema rapidez com a qual o enredo se desenrola. Rapidamente os fatos são levados ao cabo.

A rapidez, como não poderia deixar de ser, vem atada à escassez de detalhes. Ora, a desnecessidade de pormenorização de cada narrativa torna mais rápida a conclusão da história. Nas palavras de Pullman: “A rapidez é estimulante. Só dá para ir tão depressa, porém, se não se leva muito peso.

Assim, em cada conto de fada não se encontrarão informações em excesso, como nas ficções de romances em geral.

Enquanto o romance tece a descrição de forma acurada, levantando até mesmo detalhes que seriam desimportantes para os acontecimentos em si, apenas para situar o leitor em um cenário determinado, e fazê-lo entrar no clima da história, o conto tem o intuito de levar o leitor diretamente ao que acontece no momento, e ao que deverá acontecer ao fim.

Snow White by Franz JuttnerAo tratar das imagens, como já apontado, Pullman nos diz que as descrições são mínimas; apenas o necessário nos é dito. E quando dito, é dito com uma específica função. Normalmente, uma imagem descrita num conto terá por intuito a comparação, como em “Branca de Neve“, que tinha a pele branca como a neve, os lábios vermelhos como sangue, etc.

Essa política de “redução” descritiva também advém do fato de que ornamentar os contos daria a eles um caráter de produção literária, sob o domínio dos talentos estilísticos deste ou daquele escritor, roubando, assim, o tão necessário e já comentado caráter anônimo dos contos.

É sempre muito importante frisar, como bem o faz Pullman em “Contos de Grimm“, que o conto de fadas não pode jamais ser comparado ao romance. E isso pode ser explicado facilmente por vários elementos já colocados acima: O romance é um texto original e autoral, uma obra literária que existe como texto em primeiro lugar. O Romance não era – ao menos não é esse o caso da maior parte dos textos – um produto da tradição oral que, por razões de conveniência e praticidade, foi passado para o registro escrito. O romance é, desde sempre, um tipo de comunicação feita para o papel – não entrando no mérito de aparelhos virtuais contemporâneos, obviamente.

Pied Piper of Hamelin by Kate GreenawayUm conto de fadas, ao contrário, é a transcrição de palavras, frases, versões de fatos, e ainda fatos iguais em diferentes nuances, vindos das bocas de diversas pessoas, coletadas em locais diferentes, em regiões diferentes, contadas de formas e em situações diversas, cada uma delas a seu modo. Cada palavra recebeu a microinfluência do momento em que o contador de histórias falava. Calcule o quanto esses pequenos elementos não foram capazes de mudar absurdamente um conto de região para região ao longo dos tempos.

E é justamente isso que Pullman ressalta: por não nascer autoral, por ser da boca do povo, e terem sido escritos apenas por questões práticas, os contos não possuem um dono. O conto de fadas é meu, teu, do leitor que gosta, e daquele que desgosta. É de Pullman, foi dos Grimm, será de quem quer que leia.

Assim sendo, nosso caríssimo autor nos intima em seu prólogo de um livro de compilação de compilações, aquele que tiver um conto nas mãos, tem não apenas o direito, mas o dever de alterar-lhe um ou outro detalhe.

E quem souber que conte melhor.

Que iniciemos nossa enorme jornada pelos contos dos Grimm, maravilhosamente compiladas por Phillip Pullman. Este é apenas o início dela.

Continua…

Capa_Contos de Grimm.inddContos de Grimm para todas as idades
Philip Pullman

Tradução: José Rubens Siqueira
Lançamento: 01/11/2014
Editora: Alfaguara

Formato: 15 x 23
416 páginas

Disponível nas seguintes livrarias: