[LIVRO] Conexão Hirsch: Nostalgia, Obsessões e Viagens no Tempo, de Carlos Romero Carneiro (resenha)

Gabriel tem um poder que muitos jornalistas gostariam de ter: ele é capaz de visualizar em detalhes os trechos da história de uma pessoa tocando em objetos que ela usou ou em lugares onde ela esteve. Mas, quando Gabriel conhece Hirsch, seu poder se revela tanto um dom como uma maldição.

O romance de estreia de Carlos Romero Carneiro não tem uma premissa totalmente original, mas tem o mérito de ser executada com sofisticação no que diz respeito às descrições que ele fez das “projeções holográficas” que se formam diante de Gabriel, saídas do passado de Capituva, a cidade onde nasceu e na qual trabalha como jornalista.

A ideia de um jornalista fascinado – e um tanto obcecado – com o passado de sua cidade natal, que usa seu poder de absorver os fluidos que carregam consigo as histórias de cenários e objetos, a fim de escrever relatos detalhados de acontecimentos ocorridos décadas antes de nascer, é uma ótima sacada.

Mas, como apreciador de ficções científicas, Carlos não parou por aí, e extrapolou as possibilidades do uso dos poderes de Gabriel, incluindo um mistério envolvendo uma das histórias a que teve acesso, e uma tentadora possibilidade, que desafia as crenças do rapaz e a ética de seu trabalho como jornalista e historiador local. É desta história em particular que saiu o título do livro, e gerou seu conflito central.

Apesar de envolver viagens no tempo, eu não classificaria Conexão Hirsch como uma ficção científica. As viagens realizadas por Gabriel e Amarante – seu professor e guia – não dependem do uso de tecnologia, mas de sua capacidade de “decodificar” os fluidos, e enxergar as histórias que eles contém. Portanto, creio que ela está mais pra uma fantasia urbana de época.

Um dos maiores diferenciais da obra são os elementos comuns à vida de quem morou no interior de Minas Gerais pelo menos até o finalzinho dos anos 80 e início dos 90 (meu caso). Bolo de fubá, queijo, café, o clima nostálgico de um tempo mais ingênuo e menos dependente de alta tecnologia e eletrônicos. Carlos viveu tudo isto e quis passar adiante sua experiência, registrá-la, e dividi-la com quem também testemunhou ou viveu cenas parecidas, usando uma roupagem de ficção que tornou tudo isto mais atraente.

Outro detalhe que se destaca é a trama ambientar-se na década de 1970, o que já leva o leitor numa viagem de volta ao passado de uma fictícia cidade do interior de Minas Gerais (baseada no município mineiro de Santa Rita do Sapucaí), com todas as limitações tecnológicas existentes há mais de 4 décadas. É neste ponto que reside boa parte do aspecto nostálgico da obra. Pra mim foi inevitável lembrar de Donnie Darko, filme cuja história também trata de viagens no tempo, e ambienta-se em meados da década de 1980, embora seja uma produção lançada em 2001.

Mas, voltando a Conexão Hirsch, são fascinantes os trechos nos quais cenas de épocas distintas ocorridas no mesmo local se sobrepõem num só ambiente aos olhos de Gabriel. Carlos conseguiu descrever estas sobreposições temporais de maneira elegante, dando o mínimo de ordem ao caos sensorial experimentado pelo protagonista, evitando que ficássemos perdidos demais durante a leitura.

Outra boa ideia de Carlos foi definir que os fluidos podem viciar quem tem a capacidade de enxergar o que eles carregam em si, um ponto explorado através de Amarante. Também chama atenção quão parecido é o poder dele e de Gabriel com a mediunidade descrita pela Doutrina Espírita de Allan Kardec. Ela também descreve a influência de fluidos presentes no ambiente sobre os encarnados e os desencarnados. Mas este foi só um paralelo que chamou minha atenção, pois o autor não quis entrar na questão da vida após a morte. No livro, os fluidos são tratados como fragmentos de informações armazenadas em determinados lugares e objetos (um conceito semelhante àquele descrito por Pat a André no livro O Caminho do Loucomais detalhes aqui).

Gabriel chega a conjecturar sobre o quanto os fluidos que ele decodifica como visões do passado influenciam o comportamento das pessoas que não têm seu poder. A hipótese que ele levanta é bem parecida com a descrição do efeito de espíritos obsessores sobre encarnados. Gabriel chega a estabelecer a relação entre a sintonia dos sentimentos mais profundos e a “frequência” das emanações fluídicas que afetam determinada pessoa. E os paralelos não param por aí. Enquanto Gabriel e Amarante veem “fantasmas” do passado, Hirsch enxerga Gabriel como um “fantasma” do futuro (sem relação com Ghost in the Shell). Cria-se, com isto, uma dinâmica muito peculiar, em que passado e presente conversam e influenciam-se sutilmente, prometendo implicações maiores. Isto gera expectativa pelo desenrolar da trama, e o resultado de tais conexões entre os dois tempos de Capituva explorados pelo trio.

E se você tivesse uma chance de revisitar momentos de sua própria vida? O que você faria se pudesse desvendar o mistério que cerca a morte de um ente querido? Que atitude tomaria caso tivesse a opção de alterar o passado, mesmo que isto te apagasse da existência para dar lugar a uma outra versão de si mesmo, resultante da alteração que realizou? E se, no lugar de ser apagado da existência, isto te condenasse a vagar eternamente como um fantasma à deriva no tempo?

As perguntas do parágrafo acima são algumas das que eu me fiz durante a leitura de Conexão Hirsch. É bem possível que você também faça estas e mais algumas enquanto se aventura através do tempo ao lado de Gabriel e Amarante.

O desfecho de Conexão Hirsch é tão elegante quanto sutil na resolução do conflito central que move a trama. Carlos soube amarrar as pontas soltas sem apelar para soluções complexas. No fim, nos damos conta de que experimentamos uma jornada pelo passado de uma cidade pequena do interior de Minas Gerais, sob o prisma de uma viagem mais espiritual do que física através do tempo. Esta é a história de homens com o dom de ver o passado, tentados com a possibilidade de alterá-lo, carregando em suas consciências o peso da responsabilidade de afetar o curso de múltiplas histórias pessoais, caso cometam um erro de cálculo, ou realizem uma alteração mal planejada no curso dos acontecimentos de seu microverso, semelhante às confusões paradoxais causadas por Marty McFly e o Doutor Emmet Brown na trilogia De Volta Para o Futuro.

Em Conexão Hirsch temos Gabriel e Amarante formando a dupla de aluno e professor, companheiros de jornada ligados um ao outro pelo dom de viajar no tempo usando uma espécie de “retrocognição” para ler as memórias de Capituva, que é tão personagem da trama quantos os protagonistas dos registros vívidos deixados por aqueles que já deixaram de ser. Gabriel é testemunha de que, não importa quão pequenos somos, deixamos marcas no espaço e no tempo.

Um último detalhe digno de nota: Carlos criou um site para o livro que expande o microverso de Conexão Hirsch, funcionando como complemento à leitura. Nele há um mapa de Capituva sobreposto ao de Santa Rita do Sapucaí, onde podemos visitar alguns dos lugares por onde Gabriel passou. O autor também montou no Spotify a trilha sonora que ouviu enquanto escreveu a obra; matérias relacionando obras nas quais se inspirou, entre outras abordando temas presentes na história (como uma lista de supostos viagens do tempo de nosso mundo). Vale a pena explorar esse extra da obra durante e após a leitura.

Nota 5 de 5


P.S.: conheci o Carlos Romero na ocasião do lançamento de Conexão Hirsch durante a Café com Letras, festa literária ocorrida entre 22 e 30 de junho, como parte das comemorações do 105 anos do município de Guaxupé, Minas Gerais. Parte desta resenha foi possível graças ao meu contato com autor antes, durante e após o evento. Agradeço à Maria Helena Ferreira Penteado e à Ofélia Barros, que coordenaram a apresentação do Carlos, e promoveram nosso encontro.


Editora Penalux

Brochura

21 x 14 cm

152 páginas

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