[LIVRO] Casos de Família, de Ilana Casoy (resenha)

“Os seres humanos me assombram”

A menina que roubava livros – Marcus Zusak

Falar do onírico é mais tranquilo. Só percebi isso quando precisei tratar de algo real. Na vida ou numa resenha literária a realidade, em certos casos, é tão ou mais perturbadora que as histórias fantásticas que estou acostumada a ler. Quem são os vilões de grandes mundos se comparados a pessoas ‘normais’ que não precisam ser más, mas assim o fazem por querer?

Em Casos de Família, a escritora e criminóloga Ilana Casoy, faz a junção de duas de suas obras: “O Quinto Mandamento – Caso de Polícia” e “A Prova é a Testemunha“, com anotações inéditas de seus cadernos na época em que acompanhou os casos Richthofen e Nardoni, respectivamente relatados em sua obra. Foi uma leitura pesada por se tratar de fatos tão próximos, em termos de espaço geográfico, a mim, e se tratando de crimes familiares. Um âmbito que considero sagrado.

“Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias por sobre a Terra.”

Êxodo 20

CASO RICHTHOFEN – O MANDAMENTO NÃO CUMPRIDO

Eu tinha oito anos à época do que aconteceu, de modo que que não pude compreender bem os porquês de alguém repudiar de tal forma o próprio sangue. Lembro de olhar para os meus pais e pensar “como ela pode ter feito isso com eles?”, mas criança não entende as coisas. Já tenho alguns anos a mais, e me perguntei a mesma coisa ao ler Casos de Família, apenas o como, o por quê nem paga a pena pensar.

Ilana Casoy me mostrou, quase de forma didática, os acontecimentos que resultaram na morte brutal e agônica de dois pais pelas mãos da filha, Suzane. O sangue não esteve em suas mãos, mas pertence todo a ela.

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.”

Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis

Vamos rememorar: Garota de classe média alta assassina de maneira torpe, juntamente com seu namorado e cunhado, os pais, sem chance de defesa às vítimas, por motivo fútil. Eis o quadro. Como em Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, todos sabemos o desenrolar do crime, desde a feitura até o destino dos envolvidos.

Carta que Suzane escreveu para a família do Cristian Cravinhos, namorado dela à época.

O que a autora propôs neste livro foi um aprofundamento nos pormenores do caso, das personalidades dos autores do ato hediondo, e no trabalho da polícia técnica e científica para desvendar toda a história. E como em todo bom Romance policial, amadores não conseguem encobrir por muito tempo seus atos.

“Puxa! – respondeu Daniel. A pergunta seguinte espantou até o policial experiente: – Você sabe se levaram alguma coisa da casa? Ela falou que na biblioteca tinha uma caixinha branca com dinheiro:  5 mil dólares e 8 mil reais.”

pg. 31

Os monstros não escondem debaixo da cama, não é o que dizem por aí? Eles não se escondem. Estão lá, quietos até precisarem agir. Suzane, Daniel e Cristian são mostrados em detalhes até culminar no fim da resolução do caso.

“Eu sou uma pessoa horrorosa, tenho vergonha do que eu fiz.”

Suzane Von Richthofen, Pg 112


CASO NARDONI: ONDE RESIDE O AMOR MAIOR

“Essa é a parte da história
Que era pra gente não saber
“E viveram felizes pra sempre”
Não vai mais me convencer
Se um conto de fadas atual
Passar no Jornal Nacional
Pode apostar, meu amigo
Deu tudo errado no final”

Era uma vez – Terra Celta

“Então, caros leitores, resta-me apenas deixar que a leitura cativante de Ilana Casoy possa envolvê-los e transportá-los ao julgamento emblemático do caso Isabella Nardoni.”

Francisco J. Taddei Cembranelli, promotor de Justiça, Pg-284

Era uma vez…

O crime não foi mais ou menos brutal, por mais bizarro que seja, e é, não é incomum que pais matem seus filhos. Mas o caso Nardoni, esse ganhou proporções inimagináveis. Ilana Casoy nos conta o porquê.

Diferente da forma como a autora aborda o caso Richthofen, o caso Nardoni nos é mostrado de dentro do tribunal, anos depois, com cascas leves encobrindo as feridas dos que amavam a pequena Isabella.

Me permita relembrar a história: pai e madrasta jogam do sexto andar do edifício em que moravam a menina Isabella, tendo estrangulado antes a mesma. O casal, para forjar um assalto, bagunça o ambiente e pede por socorro. O crime, provocado por ciúme da madrasta, Ana Carolina Jatobá, até hoje permanece na memória da população brasileira.

O mais impressionante, além do crime propriamente dito, não é a frieza do casal ou o tempo decorrido para que o julgamento se fizesse, e sim a negativa até hoje dos fatos comprovados. Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá em momentos demonstram sentimentos e logo depois nada.

Através dos relatos da autora, pude acompanhar as opiniões e impressões do júri, que tinha uma missão difícil de decidir a vida de duas pessoas. Este é mais um caso que ocupa a memória nacional. O que Casoy faz em sua obra é mostrar detalhes até então desconhecidos ou desapercebidos do grande público, que para uns serão esclarecedores e para outros ainda mais perturbadores.

Sabendo de pessoas assim, que fazem esse tipo de coisa, não julgo quem prefira a fantasia à vida real. Os demônios dos livros não passam do papel e morrem no exato instante em que se fecha as páginas.

“Sou homem e, por conseguinte, trago todos os demônios no meu coração. “

 Gilbert Chesterton


DarkSide Books

Capa dura

23,4 x 16,2 x 3,8 cm

528 páginas

Disponível nas seguintes livrarias:

Amazon

Saraiva

Submarino