[LIVRO] Capítulo novo de The Winds of Winter – EM PORTUGUÊS

Conforme reportado anteriormente, George R. R. Martin publicou recentemente em seu blog um capítulo exclusivo do mais novo livro da saga Crônicas de Gelo e Fogo. Agora, você tem com exclusividade somente no Nerd-Geek Feelings a versão traduzida em português deste capítulo, para alegria dos fãs brazucas de Game of Thrones. Novamente: leia somente se já tiver lido o quinto livro!

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Mercê

Ela acordou arfando, sem saber quem era, ou onde estava.

O cheiro de sangue pesava em suas narinas… ou era seu pesadelo, persistindo? Ela sonhara com lobos novamente, correndo em alguma floresta escura de pinheiros com uma grande matilha às suas costas, perseguindo o cheiro da presa.

A meia-luz preencheu o quarto cinzento e sombrio. Tremendo, ela sentou-se na cama e passou a mão por seu escalpo. O pouco cabelo raspou sua palma. Preciso raspar a cabeça antes que Izembaro veja. Mercê, sou Mercê, e hoje à noite vou ser estuprada e assassinada. Seu verdadeiro nome era Mercedene, mas Mercê era como todos a chamavam…

Exceto nos sonhos. Ela respirou fundo para sossegar os uivos em seu coração, tentando lembrar mais do que sonhara, mas a maior parte já havia ido embora. Havia sangue, entretanto, e uma lua cheia sobre sua cabeça, e uma árvore que a observava enquanto ela corria.

Ela havia deixado as venezianas abertas para que o sol da manhã pudesse acordá-la. Mas não havia sol para fora da janela do pequeno quarto de Mercê, somente uma muralha de névoa cinzenta oscilante. O ar estava gélido… o que era bom, caso contrário ela poderia ter dormido o dia todo. Seria bem a cara da Mercê, dormir através de seu próprio estupro.

Um arrepio cobria suas pernas. Sua pequena coberta havia se contorcido ao seu redor como uma cobra. Ela a desenrolou, jogou a coberta no chão de tábuas nuas e andou,despida, até a janela. Braavos estava perdida na névoa. Ela enxergava a água verde do pequeno canal abaixo, a rua de paralelepípedos que passava por debaixo de seu prédio, dois arcos da ponte coberta de musgo… mas o final da ponte sumia no cinza, e dos prédios do outro lado do canal, só algumas vagas luzes restavam. Ela ouviu um leve salpicar quando um barco-serpente emergiu sob o arco central da ponte. “Que horas?” Mercê gritou para o homem que estava em pé sobre a cauda erguida da cobra, empurrando-a para frente com sua vara.

O balseiro olhou para cima, procurando a voz. “Quatro, pelo rugido do Titã.” Suas palavras ecoavam ocamente das águas verdes túrbidas e das paredes dos prédios invisíveis.

Ela não estava atrasada, ainda não, mas não deveria tardar. Mercê era uma alma alegre e trabalhava duro, mas raramente era pontual. Isso não serviria esta noite. O emissário de Westeros era esperado no Portal esta noite, e Izembaro não estaria disposto a ouvir desculpa, mesmo se ela as servisse com um sorriso doce.

Ela enchera sua bacia no canal na noite passada antes de dormir, preferindo sua água salobra à água pluvial lodosa e verde que espumava na cisterna dos fundos. Mergulhando um pano áspero, ela se lavou da cabeça aos pés, se colocando em uma perda de cada vez para esfregar seus pés calejados. Após isso, ela encontrou sua navalha. Um escalpo liso ajudava as perucas a se ajustar melhor, dizia Izembaro.

Ela raspou a cabeça, vestiu suas roupas de baixo, e colocou um vestido de lã marrom sem forma por sobre sua cabeça. Uma de suas meias precisava de costura, ela viu conforme a calçava. Ela pediria ajuda à Estaladora; sua própria costura era tão miserável que a mestra do guarda-roupa costumava se apiedar dela. Ou senão, eu poderia afanar um par melhor do guarda-roupa. Isso era arriscado, contudo. Izembaro detestava quando os saltimbancos usavam seus figurinos nas ruas. Com a exceção de Wendeyne. Dê ao pau de Izembaro uma chupadinha, e uma garota pode usar a roupa que ela quiser. Mercê não era tola a este ponto. Daena a avisara. “Garotas que começam neste caminho terminam no Navio, onde qualquer homem do fosso sabe que pode ter qualquer coisinha bonita que ver no palco, se sua bolsa for gorda o bastante.”

Suas botas eram pedaços de couro marrom velho manchados de sal e rachados pelo uso, seu cinto uma corda de cânhamo tingida de azul. Ela o amarrou em sua cintura, e prendeu uma faca em seu quadril direito e uma bolsa de moedas no esquerdo. Por fim, ela jogou seu manto sobre seus ombros. Era um verdadeiro manto de saltimbanco, de lã roxa forrada com seda vermelha, com um capuz para proteger da chuva, e também três bolsos secretos. Ela escondeu algumas moedas em um deles, uma chave de ferro no outro, e uma lâmina no último. Uma lâmina de verdade, não uma faca de fruta como aquela em sua cintura, mas ela não pertencia a Mercê, não mais do que seus outros tesouros. A faca de fruta pertencia a Mercê. Ela foi feita para comer frutas, para sorrir e gracejar, para trabalhar duro e fazer o que mandavam.

“Mercê, Mercê, Mercê,” ela cantava enquanto descia a escadaria de madeira até a rua. O corrimão era cheio de farpas, os degraus íngremes, e havia cinco andares, mas era por isso que ela havia conseguido um quarto tão barato.Isso, e o sorriso de Mercê. Ela podia ser careca e magrela, mas Mercê tinha um belo sorriso, e certa graça. Até Izembaro concordava que ela era graciosa. Ela não estava longe do Portal pelo voo do pássaro, mas para garotas com pés ao invés de asas, o caminho era mais longo. Braavos era uma cidade tortuosa. As ruas eram tortuosas, os becos eram mais ainda, e os canais eram os mais tortuosos de todos. Na maioria dos dias ela preferia ir pelo caminho mais longo, descendo a Rua do Trapeiro ao longo do Porto Exterior, onde ela tinha o mar à sua frente e o céu por cima, e uma vista livre ao longo da Grande Laguna até o Arsenal e as encostas cheias de pinheiros do Escudo de Sellagoro. Os marinheiros a cumprimentavam quando ela passava pelas docas, chamando dos conveses de baleeiros ibbeneses cobertos de alcatrão e cocas bojudas de Westeros. Mercê nem sempre entendia suas palavras, mas ela sabia o que eles estavam dizendo. Às vezes ela sorria de volta e lhes dizia que poderiam encontrá-la no Portal se tivessem as moedas.

O caminho longo também a levava através da Ponte dos Olhos com suas faces entalhadas na pedra. Do topo de sua arcada, ela podia olhar através dos arcos e ver toda a cidade: os domos de cobre verde do Salão da Verdade, os mastros erguendo-se como uma floresta do Porto Púrpura, as torres altas dos poderosos, o raio dourado contorcendo-se ao redor da espira sobre o Palácio do Senhor do Mar… até os ombros de bronze do Titã, lá do outro lado das águas verde-escuras. Mas isso era somente quando o sol estava brilhando sobre Braavos. Se a neblina era densa não havia nada para ver além do cinza, então neste dia Mercê escolheu a rota mais curta para evitar um pouco de desgaste em suas pobres botas rachadas.

As névoas pareciam se abrir diante dela e fechar novamente após sua passagem. Os paralelepípedos estavam úmidos e escorregadios sob seus pés. Ela ouviu um gato gemendo em súplica. Braavos era uma cidade boa para gatos, e eles vagavam por todo lugar, principalmente à noite. Na névoa, todos os gatos são cinzentos, pensou Mercê. Na névoa, todos os homens são assassinos.

Ela jamais havia visto neblina mais densa do que esta. Nos canais maiores, os barqueiros esbarravam seus barcos-serpente uns nos outros, incapazes de distinguir mais do que luzes fracas nos prédios em ambos os lados.

Mercê passou por um velho com uma lanterna caminhando na direção oposta, e invejou sua luz. A rua era tão sombria que ela mal podia ver onde pisava. Nas partes mais humildes da cidade, as casas, lojas e armazéns se acotovelavam, inclinando-se umas nas outras como amantes bêbados, seus andares superiores tão próximos que era possível andar de uma varanda para a outra. As ruas abaixo se tornavam túneis escuros onde cada passada ecoava. Os pequenos canais eram ainda mais perigosos, pois muitas das casas que os beiravam tinham latrinas projetando-se sobre a água. Izembaro adorava fazer o discurso do Senhor do Mar d’A Filha Melancólica do Mercador, sobre como “aqui se posta ainda o último Titã, alçado sobre os ombros pétreos de seus irmãos”, mas Mercê preferia a cena na qual o mercador gordo cagava sobre a cabeça do Senhor do Mar enquanto ele passava por baixo em sua barca dourada e púrpura. Somente em Braavos algo assim poderia acontecer, e somente em Braavos tanto o Senhor do Mar quanto os marinheiros uivariam de riso ao vê-lo.

O Portal estava próximo, na borda da Cidade Afogada, entre o Porto Exterior e o Porto Púrpura. Um velho armazém havia pegado fogo ali e o chão estava afundando um pouco mais a cada ano, então o terreno era barato. Sobre os alicerces de pedra inundada do armazém, Izembaro ergueu sua cavernosa casa de espetáculos. O Domo e a Lanterna Azul podiam desfrutar de arredores mais elegantes, ele dizia a seus saltimbancos, mas aqui entre os portos eles nunca teriam falta de marinheiros e putas para encher seu fosso. O Navio ficava próximo, ainda atraindo belas multidões ao cais onde ele estivera ancorado por vinte anos, ele dizia, e o Portal floresceria também.

O tempo lhe deu razão. O palco do Portal desenvolveu uma inclinação conforme o edifício se acomodou, seus figurinos eram propensos a embolorar, e cobras aquáticas se aninhavam no porão inundado, mas nada disso incomodava aos saltimbancos enquanto a casa estivesse cheia.

A última ponte era feita de corda e tábuas desnudas, e parecia dissolver-se no nada, mas isso era somente a névoa. Mercê precipitou-se sobre ela, seus calcanhares ressoando sobre a madeira. A neblina abriu-se diante dela como uma cortina cinzenta esfarrapada, revelando a casa de teatro. Uma luz amarela amanteigada derramava-se pelas portas, e Mercê ouvia vozes vindas de dentro. Ao lado da entrada, o Grande Brusco havia pintado sobre o título do último espetáculo, e escrito A Mão Ensanguentada em seu lugar em letras vermelhas enormes. Ele estava pintando uma mão ensanguentada sob as palavras, para aqueles que não soubessem ler. Mercê parou para dar uma olhada. “Que mão bacana,” ela disse a ele.

“O polegar tá torto.” Brusco passou o pincel nele. “O Rei dos Saltimbancos tava atrás de você.”

“Estava tão escuro que eu dormi e dormi.” Quando Izembaro se apelidara pela primeira vez de Rei dos Saltimbancos, a companhia tomara um gosto perverso por isso, saboreando o ultraje de seus rivais do Domo e da Lanterna Azul. Ultimamente, no entanto, Izembaro havia começado a levar seu título demasiadamente a sério. “Ele só faz papel de reis agora,” Marro disse, virando os olhos, “e se a peça não tem nenhum rei, ele prefere nem apresentar.”

A Mão Sangrenta oferecia dois reis, o gordo e o menino. Izembaro faria o rei gordo. Não era um papel grande, mas ele tinha um belo discurso quando estava morrendo, e uma luta esplêndida com um javali demoníaco antes disso. Phario Forel a escrevera, e ele tinha a pena mais sangrenta de toda Braavos.

Mercê encontrou a companhia reunida atrás do palco, e esgueirou-se entre Daena e a Estaladora nos fundos, esperando que sua chegada tardia passasse despercebida. Izembaro estava dizendo a todos que esperava que o Portal estivesse lotado até os caibros esta noite, apesar da neblina. “O Rei de Westeros está mandando seu emissário para prestar homenagem ao Rei dos Saltimbancos esta noite,” ele disse a sua trupe. “Nós não decepcionaremos nosso colega monarca.”

“Nós?” disse a Estaladora, que fazia todos os figurinos dos saltimbancos. “Tem mais de um dele agora?”

“Ele é gordo o bastante pra valer por dois,” sussurrou Bobono. Toda trupe de saltimbancos precisava de um anão. Ele era o deles. Quando ele viu Mercê, lançou-lhe um olhar devasso. “Oho,” ele disse, “lá está ela. A garotinha está pronta para seu estupro?” Ele estalou seus lábios.

A Estaladora deu-lhe um tapa na cabeça. “Fique quieto.”

O Rei dos Saltimbancos ignorou o breve tumulto. Ele ainda estava falando, dizendo aos saltimbancos o quão magníficos eles deveriam ser. Além do emissário westerosiano, haveria portadores de chaves na plateia esta noite, e cortesãs famosas também. Ele não pretendia que fossem embora com uma má opinião do Portal. “Malfadado será qualquer homem que me falhar,” ele prometeu, uma ameaça emprestada do discurso que o Príncipe Garin fazia na véspera da batalha em Fúria dos Senhores dos Dragões, a primeira peça de Phario Forel.

Quando Izembaro finalmente terminou de falar, restava menos de uma hora antes do espetáculo e os saltimbancos estavam alternadamente agitados e preocupados. O Portal ressoava com o nome de Mercê.

“Mercê,” sua amiga Daena implorou, “a Dama Cegonha pisou na bainha de seu vestido de novo. Venha me ajudar a costurar.”

“Mercê,” o Estranho chamou, “traga a porcaria da goma, meu chifre está se soltando.”

“Mercê,” retumbou o próprio Izembaro o Grande, “o que você fez com a minha coroa, garota? Eu não posso entrar sem minha coroa. Como eles saberão que eu sou um rei?”

“Mercê,” guinchou o anão Bobono, “Mercê, tem alguma coisa errada com meus cordões, meu pau fica saindo pra fora.”

Ela buscou a goma adesiva e prendeu o chifre esquerdo do Estranho de volta em sua testa. Ela achou a coroa de Izembaro na latrina, onde ele sempre a deixava, ajudou-o a prendê-la em sua peruca, e então correu atrás de agulha e linha para que a Estaladora pudesse costurar a bainha de renda de volta no vestido dourado que a rainha usaria na cena do casamento.

E o pau de Bobono estava realmente saindo para fora. Ele fora feito para sair para fora, para o estupro. Que coisa horrenda, Mercê pensou enquanto ajoelhava em frente ao anão para consertá-lo. O pau tinha dois palmos de comprimento e era da grossura de seu braço, grande o bastante para ser visto da sacada mais alta. O tintureiro fizera um trabalho ruim no couro, no entanto; a coisa era mosqueada de rosa e branco, com uma cabeça bulbosa da cor de uma ameixa. Mercê empurrou-a de volta para dentro das calças de Bobono e amarrou seus cordões. “Mercê,” ele cantou enquanto ela apertava as amarras, “Mercê, Mercê, venha para o meu quarto hoje à noite e me faça homem.”

“Eu vou te fazer eunuco se você continuar desamarrando o cordão só pra eu ficar mexendo na sua virilha.”

“Nosso destino é ficar juntos, Mercê,” Bobono insistiu. “Veja, nós somos da mesma altura.”

“Só quando eu estou de joelhos. Você se lembra da sua primeira fala?” Havia se passado apenas uma quinzena desde que o anão tropeçou para o palco embebedado e abriu A Angústia do Arconte com a fala do grumequim d’A Dama Lasciva do Mercador. Izembaro o esfolaria vivo se ele cometesse um erro assim novamente, não importa o quão difícil fosse encontrar um bom anão.

“Que peça nós estamos fazendo, Mercê?” Bobono perguntou inocentemente.

Ele está me provocando, Mercê pensou. Ele não está bêbado esta noite, ele sabe perfeitamente bem qual é o espetáculo. “Nós estamos fazendo a nova Mão Sangrenta de Phario, em honra do emissário dos Sete Reinos.”

“Agora eu me lembro.” Bobono engrossou sua voz até um coaxar sinistro. “O deus de sete faces me trapaceou,” ele disse. “Meu nobre progenitor ele fez do mais puro ouro, e de ouro fez meus irmãos, moço e moça. Mas eu sou feito de matéria obscura, de ossos e sangue e barro, contorcido nesta forma rude que veem ante si.” Com isso, ele agarrou o peito dela, procurando um mamilo. “Você não tem peitinhos. Como eu posso estuprar uma garota sem peitinhos?”

Ela agarrou o nariz dele entre seu dedão e indicador e torceu. “E você não vai ter nariz até tirar as mãos de mim.”

Aaaaaaai,” o anão chiou, soltando-a.

“Eu vou ganhar peitinhos em um ano ou dois.” Mercê se levantou, impondo-se sobre o homem pequenino. “Mas você nunca vai ganhar um nariz novo. Pense nisso, antes de me tocar lá.”

Bobono esfregou seu nariz vermelho. “Não precisa ficar tão tímida. Eu vou te estuprar logo.”

“Não antes do segundo ato.”

“Eu sempre dou uma boa apertada nos peitinhos de Wendeyne quando eu a estupro em A Angústia do Arconte,” o anão reclamou. “Ela gosta, e o fosso também. Você precisa agradar o fosso.”

Essa era uma das “sabedorias” de Izembaro, como ele gostava de chamá-las. Você precisa agradar o fosso. “Eu aposto que agradaria o fosso se eu arrancasse o pau do anão e batesse em sua cabeça com ele,” Mercê respondeu. “Isso seria algo que eles não teriam visto antes.” Sempre dê-lhes algo que eles não tenham visto antes era outra das “sabedorias” de Izembaro, e uma para a qual Bobono não tinha uma resposta fácil. “Aí está, pronto,” Mercê anunciou. “Agora veja se você mantém ele dentro das calças até que seja necessário.”

Izembaro estava chamando-a de novo. Agora ele não conseguia encontrar sua lança de caçar javali. Mercê encontrou-a para ele, ajudou o Grande Brusco a colocar sua fantasia de javali, checou as adagas falsas para se certificar de que ninguém havia substituído alguma por uma lâmina de verdade (alguém fizera isso no Domo uma vez, e um saltimbanco morreu), e serviu à Dama Cegonha o gole de vinho que ela gostava de tomar antes de cada peça. Quando os gritos de “Mercê, Mercê, Mercê” finalmente cessaram, ela tomou um momento para dar uma espreitadinha na casa.

O fosso estava mais cheio do que ela jamais vira, e eles já estavam se divertindo, brincando e se empurrando, comendo e bebendo. Ela viu um mascate vendendo pedaços de queijo, arrancando-os da rodela com seus dedos quando encontrava um comprador. Uma mulher tinha uma sacola de maçãs enrugadas. Odres de vinho estavam sendo passados de mão em mão, algumas moças estavam vendendo beijos, e um marinheiro estava tocando uma flauta marinha. O homenzinho de olhos tristes chamado Quill estava de pé nos fundos, vindo ver o que ele podia roubar para uma de suas peças. Cossomo, o Prestidigitador havia vindo também, e em seu braço estava Yna, a puta de um olho só do Porto Feliz, mas Mercê não podia conhecer estes dois, e eles não conheceriam Mercê. Daena reconheceu alguns frequentadores habituais do Portal na plateia, e apontou-os para ela; o tintureiro Dellono com seu rosto branco apertado e mãos manchadas de roxo, Galeo o salsicheiro em seu avental de couro engordurado, e o alto Tomarro com seu rato de estimação no ombro. “Melhor Tomarro não deixar Galeo ver aquele rato,” Daena avisou. “Essa é a única carne que ele coloca nas salsichas, ouvi dizer.” Mercê cobriu sua boca com a mão e riu.

As sacadas também estavam ficando cheias. O primeiro e terceiro andares eram para mercadores e capitães e outras gentes respeitáveis. Os bravos preferiam o quarto e mais alto, onde os assentos eram mais baratos. Era um alarido de cores vivas lá em cima, enquanto abaixo tons mais sóbrios dominavam. A segunda sacada estava dividida em camarotes privados onde os poderosos podiam acomodar-se com conforto e privacidade, seguramente isolados da vulgaridade acima e abaixo. Eles tinham a melhor vista do palco, e servos traziam-lhes comida, vinho, almofadas, e o que mais desejassem. Era raro encontrar mais da metade dos assentos da segunda sacada ocupados no Portal; os poderosos que apreciavam uma noite de pantomima eram mais predispostos a visitar o Domo ou a Lanterna Azul, cujas apresentações eram consideradas mais sutis e poéticas.

Esta noite era diferente, no entanto, sem dúvida devido ao emissário westerosiano. Em um camarote estavam três pupilos de Otharys, cada um acompanhado de uma cortesã famosa; Prestayn estava só, um homem tão ancião que era de se admirar que tivesse conseguido caminhar até seu assento; Torone e Pranelis dividiam um camarote, da mesma maneira que dividiam uma aliança desconfortável; a Terceira Espada estava hospedando meia dúzia de amigos.

“Eu contei cinco portadores de chaves,” disse Daena.

“Bessaro é tão gordo que conta duas vezes,” respondeu Mercê, com uma risadinha. Izembaro tinha uma bela barriga, mas comparado com Bessaro ele era esguio como uma vara. O portador de chave era tão grande que necessitava um assento especial, três vezes maior que uma cadeira comum.

“Eles são todos gordos, os reyaanos,” disse Daena. “Barrigas do tamanho dos navios deles. Você tinha que ter visto o pai. Ele fazia esse aí parecer pequeno. Uma vez ele foi convocado ao Salão da Verdade para votar, mas quando ele pisou na barca, ela afundou.” Ela agarrou o ombro de Mercê. “Olha, o camarote do Senhor do Mar.” O Senhor do Mar jamais visitara o Portal, mas Izembaro pôs o nome dele em um camarote mesmo assim, o maior e mais opulento da casa. “Aquele deve ser o emissário de Westeros. Você já viu um velho com essas roupas? E veja, ele trouxe a Pérola Negra!”

O emissário era franzino e calvo, com um tufo cinzento engraçado de barba saindo de seu queixo. Seu manto era de veludo amarelo, assim como suas calças. Seu gibão era de um azul tão forte que quase marejava os olhos de Mercê. Em seu peito havia um escudo bordado em fio amarelo, e no escudo um galo azul soberbo estava costurado em lápis-lazúli. Um de seus guardas levou-o até seu assento, enquanto dois outros permaneceram em pé atrás dele nos fundos do camarim.

A mulher a seu lado não poderia ter mais de um terço de sua idade. Ela era tão amável que as lâmpadas pareciam queimar mais forte quando ela passava. Ela estava usando um vestido decotado de seda amarela pálida, vistoso contra o marrom-claro de sua pele. Seus cabelos negros estavam presos em uma rede de ouro desfiado, e um colar de azeviche e ouro roçava a parte de cima de seus seios fartos. Enquanto assistiam, ela inclinou-se para perto do emissário e sussurrou algo em seu ouvido que o fez rir. “Deveriam chama-la de Pérola Marrom,” Mercê disse a Daena. “Ela é mais marrom do que negra.”

“A primeira Pérola Negra era preta como um pote de tinta,” disse Daena. “Ela era uma princesa pirata, concebida pelo filho de um Senhor do Mar em uma princesa das Ilhas do Verão. Um rei dragão de Westeros tomou-a como amante.”

“Eu gostaria de ver um dragão,” Mercê disse em tom nostálgico. “Por que o emissário tem um frango no peito?”

Daena bramiu. “Mercê, você não sabe de nada? É o selo dele. Nos Reinos do Entardecer todos os lordes têm selos. Uns têm flores, outros têm peixes, outros têm ursos e alces e outras coisas. Olha, os guardas do emissário estão portando leões.”

Era verdade. Havia quatro guardas; homens grandes e de aparência dura em cota anelada, com espadas westerosianas pesadas embainhadas em suas cinturas. Suas capas rubras eram bordadas com volutas de ouro, e leões dourados com olhos de granada vermelha afivelavam as capas no ombro. Quando Mercê vislumbrou os rostos por baixo dos elmos dourados com crista de leão, sentiu um frio na barriga. Os deuses me deram um presente. Seus dedos afundaram-se no braço de Daena. “Aquele guarda. O da ponta, atrás da Pérola Negra.”

“O que tem ele? Você o conhece?”

“Não.” Mercê nascera e crescera em Braavos, como ela poderia conhecer um westerosiano? Ela precisou pensar um pouco. “É só que… bem, ele é bem-apessoado, você não acha?” Ele era, de uma maneira rude, mas seus olhos eram duros.

Daena deu de ombros. “Ele é muito velho. Não tanto quanto os outros, mas… ele deve ter uns trinta anos. E é de Westeros. Eles são uns selvagens terríveis, Mercê. Melhor ficar longe desse tipo de gente.”

“Ficar longe?” Mercê deu uma risadinha. Ela era uma garota risonha, a Mercê. “Não. Eu vou é chegar mais perto.” Ela deu uma apertada em Daena e disse, “Se a Estaladora vier me procurar, diga que eu fui ler as minhas falas de novo.” Ela tinha poucas, e a maioria era só “Ah, não, não, não,” e “Não, ah não, não me toque,” e “Por favor, senhor, ainda sou uma donzela,” mas essa era a primeira vez que Izembaro lhe dera quaisquer falas, então era esperado que a pobre Mercê se esforçasse para acertá-las.

O emissário dos Sete Reinos trouxera dois de seus guardas para dentro do camarote para ficar atrás dele e da Pérola Negra, mas os outros dois foram postados do lado de fora da porta para assegurar-se de que ele não fosse perturbado. Eles estavam falando baixo na língua comum de Westeros quando ela se esgueirou silenciosamente por trás deles na passagem escura. Essa não era uma língua que Mercê sabia.

“Sete infernos, esse lugar é úmido,” ela ouviu seu guarda reclamar. “Estou gelado até os ossos. Cadê a porcaria das laranjeiras? Eu sempre ouvi dizer que tinha laranjeiras nas Cidades Livres. Limões e limas. Romãs. Pimentões, noites quentes, moças com barrigas nuas. Cadê as mulheres de barriga nua, eu pergunto?”

“Lá em Lys, e Myr, e na Velha Volantis,” o outro guarda respondeu. Ele era um homem mais velho, barrigudo e grisalho. “Eu fui pra Lys com o Lorde Tywin uma vez, quando ele era a Mão de Aerys. Braavos fica a norte de Porto Real, seu idiota. Você não sabe ler a droga de um mapa?”

“Quanto tempo você acha que nós ficaremos aqui?”

“Mais do que você gostaria,” o velho respondeu. “Se ele voltar sem o ouro a rainha vai querer a cabeça dele. Além do mais, eu vi a mulher dele. Tem escadas em Casterly Rock que ela não desce com medo de ficar entalada, de tão gorda que ela é. Quem ia querer voltar pra aquilo, quando ele tem sua rainha carvoeira?”

O guarda bonito sorriu. “Você não acha que ele vai querer compartilhá-la conosco depois?”

“O quê, você está louco? Você acha que ele percebe gente como nós? O desgraçado não consegue nem lembrar o nosso nome na maioria das vezes. Talvez fosse diferente com Clegane.”

“O Sor não gostava de espetáculos de saltimbancos e putas chiques. Quando o Sor queria uma mulher ele a tomava, mas às vezes ele nos deixava tê-la depois. Eu não acharia nada mal experimentar essa Pérola Negra. Você acha que ela é rosada no meio das pernas?”

Mercê queria ouvir mais, mas não havia tempo. A Mão Sangrenta já ia começar, e a Estaladora iria procurá-la para ajudar com os figurinos. Izembaro podia ser o Rei dos Saltimbancos, mas era da Estaladora que todos tinham medo. Haveria tempo o bastante para seu guarda bonitinho mais tarde.

A Mão Sangrenta abriu em um cemitério.

Quando o anão apareceu repentinamente de trás de uma lápide de madeira, o público começou a vaiar e xingar. Bobono gingou até a frente do palco e os encarou. “O deus de sete faces me trapaceou,” ele começou, rosnando as palavras. “Meu nobre progenitor ele fez do mais puro ouro, e de ouro fez meus irmãos, moço e moça. Mas eu sou feito de matéria obscura, de ossos e sangue e barro…”

Neste momento Marro apareceu por detrás dele, esquelético e terrível nos longos mantos negros do Estranho. Seu rosto também era negro, seus dentes vermelhos e lustrosos de sangue, enquanto chifres de marfim se projetavam de sua testa. Bobono não podia vê-lo, mas as sacadas podiam, e agora o fosso também. Um silêncio sepulcral se abateu sobre o Portal. Marro seguiu adiante silenciosamente.

Mercê fez o mesmo. Todos os figurinos já estavam pendurados, e a Estaladora estava ocupada costurando o vestido de Daena para a cena da corte, então a ausência de Mercê não deveria ser notada. Quieta como uma sombra, ela esgueirou-se pelos fundos novamente, até o local onde os guardas estavam do lado de fora do camarote do emissário. Em pé em um recanto sombrio, imóvel como uma pedra, ela deu uma boa olhada no rosto dele. Ela o estudou cuidadosamente, para se certificar. Será que eu sou nova demais para ele? ela se perguntou. Feia demais? Magra demais? Ela esperava que ele não fosse o tipo de homem que gostava de seios grandes em uma garota. Bobono estava certo sobre seu peito. Seria melhor se eu pudesse levá-lo para a minha casa, para tê-lo só para mim. Mas será que ele virá comigo?

“Você acha que pode ser ele?” o bonito estava dizendo.

“Que foi, os Outros levaram o seu juízo?”

“Por que não? Ele é um anão, não é?”

“O Duende não é o único anão no mundo.”

“Talvez não, mas olha aqui, todo mundo diz o quão esperto ele era, certo? Então quem sabe ele pense que o último lugar onde sua irmã iria procurar por ele seria em um espetáculo de saltimbancos, tirando sarro de si mesmo. Então ele faz exatamente isso, para pregar uma peça nela.”

“Ah, você está louco.”

“Bem, talvez eu vá atrás dele depois da pantomima. Descobrir por conta própria.” O guarda pôs a mão no cabo de sua espada. “Se eu estiver certo, vou virar um lorde, e se estiver errado, que se dane, é só um anão.” Ele latiu uma risada.

No palco, Bobono estava barganhando com o Estranho sinistro de Marro. Ele tinha uma voz enorme para um homenzinho, e fê-la soar nos caibros mais altos agora. “Dê-me o cálice,” disse ao Estranho, “pois dele beberei profundamente. E se o gosto for de ouro e sangue de leão, tanto melhor. Pois, se não posso ser o herói, que seja eu o monstro, e lhes lecionarei medo ao invés de amor.”

Mercê fez com a boca as últimas falas, juntamente com ele. Elas eram falas melhores que as dela, e além do mais, eram apropriadas. Ou ele vai me querer ou não vai, pensou, então que comece a peça. Ela fez uma prece silenciosa ao deus de muitas faces, esgueirou-se para fora de seu recanto, e se precipitou em direção ao guarda. Mercê, Mercê, Mercê. “Meus senhores,” ela disse, “vocês falam bravosiano? Por favor, digam-me que falam.”

Os dois guardas se entreolharam. “Que negócio é esse?” perguntou o mais velho. “Quem é ela?”

“Uma saltimbanca,” disse o bonito. Ele levantou os cabelos loiros de sua testa e sorriu para ela. “Desculpe, querida, nós não falamos o seu blablablá.”

Que diabos, Mercê pensou, eles só sabem a Língua Comum. Isso não era nada bom. Desista ou vá em frente. Ela não podia desistir. Ela o queria muito. “Eu sei um pouquinho da sua língua,” ela mentiu, com o sorriso mais doce de Mercê. “Vocês são lordes de Westeros, é o que a minha amiga disse.”

O velho gargalhou. “Lordes? Sim, somos nós.”

Mercê olhou para os pés, tão tímida. “Izembaro disse para agradar os lordes,” ela sussurrou. “Se tiver qualquer coisa que vocês quiserem, qualquer coisa mesmo…”

Os dois guardas se entreolharam. Então o bonito estendeu a mão e tocou seu peito. “Qualquer coisa?”

“Você é nojento,” disse o mais velho.

“Por quê? Se esse Izembaro quer ser hospitaleiro, seria mal-educado recusar.” Ele deu um beliscão no mamilo dela por cima da roupa, da mesma maneira que o anão fizera quando ela estava arrumando seu pau. “Saltimbancas são praticamente a mesma coisa que putas.”

“Pode ser, mas essa é uma criança.”

“Não sou,” mentiu Mercê. “Eu sou uma donzela agora.”

“Não por muito tempo,” disse o bem-apessoado. “Eu sou o Lorde Rafford, querida, e eu sei exatamente o que eu quero. Levante essas saias agora, e encoste naquela parede.”

“Não aqui,” Mercê disse, afastando suas mãos. “Não enquanto a peça está acontecendo. Eu posso gritar, e Izembaro ficaria bravo.”

“Onde, então?”

“Eu sei um lugar.”

O guarda mais velho estava carrancudo. “O que, você acha que pode simplesmente sair galopando por aí? E se o senhor cavaleiro vier te procurar?”

“Por que ele viria? Ele tem uma peça pra assistir. E ele tem a puta dele, por que eu não poderia ter a minha? Não vai levar muito tempo.”

Não, ela pensou, não vai. Mercê pegou sua mão e o levou pelos fundos, descendo as escadas e saindo para a noite enevoada. “Você poderia ser um saltimbanco, se quisesse,” ela disse a ele, enquanto ele a apertava contra a parede da casa de espetáculos.

“Eu?” O guarda fungou. “Eu não, garota. Todo esse falatório dos diabos, eu não lembraria nem metade.”

“É difícil no começo,” ela admitiu. “Mas depois de um tempo fica mais fácil. Eu poderia te ensinar uma fala. Eu poderia.”

Ele agarrou o pulso dela. “Eu é que vou ensinar. Hora da sua primeira lição.” Ele a puxou fortemente contra si e beijou seus lábios, forçando sua língua para dentro de sua boca. Ela era molhada e viscosa, como uma enguia. Mercê a lambeu com sua própria língua, e então se afastou dele, resfolegante. “Não aqui. Alguém pode ver. Meu quarto não fica longe, mas vamos logo. Eu tenho que voltar antes do segundo ato, ou vou perder o meu estupro.”

Ele sorriu. “Não se preocupe quanto a isso, garota.” Mas deixou que ela o puxasse atrás de si. De mãos dadas, eles correram pela névoa, sobre pontes e através de becos e subindo cinco lances de escadas de madeira cheia de farpas. O guarda estava arfando quando irromperam pela porta de seu pequeno quarto. Mercê acendeu uma vela de sebo, e dançou ao redor dele, rindo. “Ah, agora você está todo cansado. Eu esqueci o quão velho você era, senhor. Você quer tirar uma soneca? Deite e feche os olhos, e eu vou voltar depois que o Duende terminar de me estuprar.”

“Você não vai a lugar algum.” Ele a puxou asperamente contra si. “Tire esses farrapos, e eu vou te mostrar o quão velho eu sou, garota.”

“Mercê,” ela disse. Meu nome é Mercê. Você pode dizer?”

“Mercê,” ele disse. “Meu nome é Raff.”

“Eu sei.” Ela deslizou a mão entre as pernas dele, e sentiu o quanto ele estava duro por cima da lã de suas calças.

“Meu cordão,” ele suplicou. “Seja uma menina boazinha e desamarre.” Ao invés disso, ela deslizou o dedo pelo interior de sua coxa. Ele grunhiu. “Droga, tenha cuidado aí, você – “

Mercê deu um sobressalto e foi para trás, seu rosto confuso e assustado. “Você está sangrando.”

“O que – “ Ele olhou para baixo. “Bons deuses. O que você fez comigo, sua vadiazinha?” A mancha vermelha se espalhava por sua coxa, embebendo o tecido pesado.

“Nada,” Mercê guinchou. “Eu nunca… oh, oh, tem tanto sangue. Pare, pare, você está me assustando.”

Ele balançou a cabeça, um olhar estonteado em seu rosto. Quando ele comprimiu a mão contra sua coxa, o sangue esguichou por entre seus dedos. Ele estava escorrendo por sua perna, para dentro de sua bota. Ele não parece tão agradável agora, ela pensou. Ele parece só branco e aterrorizado.

“Uma toalha,” o guarda suspirou. “Traga-me uma toalha, um pano, faça pressão nisso. Deuses. Eu estou me sentindo tonto.” Sua perna estava encharcada de sangue da coxa para baixo. Quando ele tentou colocar seu peso sobre ela, seu joelho fraquejou e ele caiu. “Me ajude,” ele suplicou, a virilha de suas calças cobrindo-se de vermelho. “A Mãe tenha misericórdia, garota. Um curandeiro… corra e ache um curandeiro, rápido.”

“Tem um no próximo canal, mas ele não vai vir para cá. Você precisa ir até ele. Pode andar?”

“Andar?” Seus dedos estavam úmidos de sangue. “Você está cega, garota? Eu estou sangrando como um porco empalado. Eu não posso andar desse jeito.”

“Bem,” ela disse, “não sei como você vai chegar lá, então.”

“Terá de me carregar.”

Viu? pensou Mercê. Você sabe a sua fala, e eu também.

“Acha mesmo?” perguntou Arya, docemente.

Raff o Querido olhou para cima bruscamente quando a lâmina longa e fina deslizou para fora da manga dela. Ela a cravou através de sua garganta abaixo do queixo, a girou, e a puxou de volta de lado com um único movimento macio. Uma fina chuva vermelha se seguiu, e a luz dos olhos dele se apagou.

“Valar morghulis,” Arya sussurrou, mas Raff estava morto e não ouviu. Ela fungou. Eu deveria tê-lo ajudado a descer a escada antes de matá-lo. Agora eu terei que arrastá-lo até o canal e jogá-lo dentro. As enguias fariam o resto.

“Mercê, Mercê, Mercê,” ela cantou tristemente. Ela tinha sido uma menina tola e frívola, mas de bom coração. Sentiria falta dela, e sentiria falta de Daena e da Estaladora e do resto, até de Izembaro e Bobono. Isso traria problemas para o Senhor do Mar e o emissário com o frango no peito, sem dúvidas.

Ela pensaria nisso mais tarde, porém. No momento, não havia tempo. É melhor eu correr. Mercê ainda tinha algumas falas a dizer, suas primeiras e últimas falas, e Izembaro iria querer sua cabecinha linda e vazia se ela se atrasasse para seu próprio estupro.

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2 thoughts on “[LIVRO] Capítulo novo de The Winds of Winter – EM PORTUGUÊS

  1. MERCÊ?? Sério cara? Quem fez essa tradução tá precisando estudar um pouquinho. Ou não traduz o nome ou traduz direito, tive náuseas ao ler isso, por favor, pare.

    • Calma, minha filha 🙂 Tradução é um ofício ingrato. A gente precisa fazer escolhas difíceis o tempo todo, pesando as vantagens e desvantagens de cada opção. Neste caso, o problema é que “Mercy” não é apenas um nome – é também uma palavra, que significa “misericórdia”. Isso até poderia ser ignorado se a palavra não fosse usada com esse sentido no diálogo – Arya faz toda a questão de que Raff diga seu nome, ecoando assim as palavras de Lommy Mãos-Verdes, a quem ela estava vingando. Lommy pediu misericórdia (“mercy” em inglês) a Raff, e fazer Raff implorar por misericórdia era parte importante do plano de Arya. Traduzir “Mercy” como “Misericórdia” nesse caso ficaria desajeitado demais, mas “Mercê” se encaixa como sendo uma versão curta do nome Mercedene, e mantém o significado necessário em português. Além do que, traduzir nomes (como Correrio, Valdocaso etc.) é uma tradição na versão brasileira de Song of Ice and Fire (a qual eu pesquisei para fazer esse trabalho, para que minha versão não destoasse do texto “oficial”).

      Ou seja… Poderia ter sido feito diferente? Claro. Perderia alguma coisa, e eu considerei essa perda de significado pior do que a estranheza do nome “Mercê”. Talvez você tenha uma opinião diferente a respeito. Mas eu procuro fazer um trabalho criterioso nas minhas traduções. Xingar é fácil, ainda mais pra quem não se dá ao trabalho de sugerir uma outra escolha que funcione melhor e não perca nada do significado do texto.

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