[LIVRO] Bukowski – vida e loucuras de um velho safado (resenha)

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Um homem de seu século

Depois de “Sopa de Lágrimas”, foi a vez da biografia “Bukowski – vida e loucuras de um velho safado”, outra bela publicação da editora Veneta. Logo no início, o jornalista Howard Sounes promete abster-se de julgamentos a respeito do comportamento de Bukowski e pretende apresentar uma das mais completas biografias sobre o artista.

Sobre a pretensão de Howard, não posso afirmar que é o livro mais completo, já que esse é a único que li a respeito do assunto, mas é certo que sua investigação esgota os detalhes mínimos, nos revelando as fases mais importantes da vida de Bukowski. Outro detalhe agradável foi o esclarecimento do panorama histórico que vai da Alemanha durante a Primeira Guerra aos anos noventa em Hollywood. Quanto à promessa, não posso dizer que o autor não se absteve de julgamento como afirmou. A impressão de grau de parcialidade se dá provavelmente pelo estilo narrativo adotado, o que não foi necessariamente negativo, pois mais do que mera literatura jornalística, a obra se torna assim uma cativante história com ares de heroísmo dramático e bem humorado.

Cupcakes não se impressionava com seus poemas de amor. Eram apenas versos de pé quebrado, na opinião dela, que adorava atormentar Bukowski parodiando seu trabalho com uma voz cadenciada irritante e entediada:

So I woke up in the morning

and I puked in the toilet

and then I shaved…

 

Então eu acordei pela manhã:

e vomitei no banheiro

e depois fiz a barba…

“Viu?”, disse ela. “Eu posso escrever o que você escreve, só que melhor ainda.”

Ao longo de dezesseis capítulos podemos conhecer intimamente a trajetória de Charles Bukowski sem perder de vista sua vasta produção artística. Recheado de citações bibliográficas, o livro me envolveu, em especial, pelo tema que considero central em sua obra: mulheres. Não conheço profundamente a arte moderna ou o realismo contundente de Charles, mas as decepções e paixões que ora o submergiram em toda sorte de álcool (a exemplo de Pamela ‘Cupcake’ Miller), ora o traziam à tona, não deixando que morresse afogado (como sua amada e odiada Linda King). Essa oscilação me deixou intrigado por deixar evidente a fragilidade quase infantil do artista diante do amor de uma mulher. O que contrastou em absoluto com sua visão de mundo que tende ao niilismo e autodestruição. Assim, creio que contradição humana é a marca mais forte da personalidade de Bukowski.

O material gráfico do livro é abundante. Há diversas fotos que vão da perturbada infância, passeando pela maturidade decadente em que vemos o rosto corroído pelo álcool e as costas encurvadas pelo trabalho duro nos correios, culminando no sucesso que precedeu seus últimos anos. Há também fotos de algumas das diversas mulheres que foram “material” para a produção literária.

Sounes fez um ótimo trabalho desvelando-nos a vida angustiada e amarga do poeta. Das memórias de violência doméstica, do pai violento e da mãe omissa, às viagens pelos Estados Unidos em que decidia para onde ir apontando o dedo aleatoriamente no mapa, dos pensamentos suicidas que o acompanhavam como a própria sombra, estou certo de que o livro atenderá tanto aos curiosos quanto aos estudiosos que desejam se aprofundar na personalidade de um dos mais famosos e prolíferos escritores do século XX, representante genuíno da alma de uma era.

“Corrington ficou profundamente ofendido, mas Bukowski não pretendia desculpar-se e começou a zombar de tudo o que Corrington dizia, especialmente quando ele tentou falar sobre o político republicano Barry Goldwater, dizendo que ele era um bom homem. Eles estavam no limite agora, teimosos demais para voltar atrás, e decidiram evitar um ao outro pelo resto da noite. Miller Williams acredita que Bulowski era o principal culpado. “Foi o tipo de defesa autodestrutiva típica de um adolescente”, diz ele.


bukowski howard sounes veneta capaVeneta

Brochura

22,8 x 15,8 x 3,2 cm

384 páginas

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